Cultura

O futuro a Sattouf pertence

A novela gráfica O Árabe do Futuro, êxito entre a crítica e os leitores, conta a infância do autor, o francês Riad Sattouf, na Líbia de Kadhafi e na Síria de Assad.

A publicação do primeiro volume da autobiografia de Riad Sattouf em banda desenhada foi um sucesso em França. Acolhido pela crítica da especialidade com o prémio de melhor álbum no mais importante festival de BD, Angoulême, o primeiro volume de O Árabe do Futuro – Ser Jovem no Médio Oriente (1978-1984), foi também um caso de popularidade, tendo vendido mais de 200 mil exemplares.

Filho da francesa Clementine e do sírio Abdel-Razak, Riad Sattouf, de 37 anos, é hoje um artista que se divide entre o cinema e (sobretudo) a banda desenhada. Escreveu e realizou dois filmes. A sua estreia, Uns Belos Rapazes, distinguida com o César de primeiro melhor filme, retrata as peripécias de um adolescente. Na série que desenha para o Nouvel Observateur conta histórias de uma menina de nove anos; nas tiras produzidas entre 2004 e 2014 para o Charlie Hebdo contava a vida secreta dos jovens (La Vie Secrète des Jeunes). É na infância e na adolescência que Sattouf centra as suas histórias. «Adoro esse período porque cada emoção é poderosa nessas idades. É tudo uma descoberta. A alegria, o sofrimento, o amor, a crueldade... tudo é desproporcionado no adolescente e, ao mesmo tempo, fala do futuro adulto», explica Sattouf ao SOL por email.

Em 1980, com dois anos, o autor foi para a Líbia: o pai fora contratado pelo regime de Kadhafi para lecionar na Universidade de Trípoli. Cerca de dois anos depois regressam a França para, tempos depois, se radicarem na aldeia natal do pai, perto de Homs, numa Síria dominada por Hafez al-Assad. Foi nestas duas ditaduras árabes socialistas que cresceu Riad Sattouf. Que conta com talento e humor o absurdo dos dois regimes (em especial o líbio) e do atraso cultural (mormente o da aldeia síria, na qual, por exemplo, assiste à tortura e empalamento de um cão). Os pormenores impressionam, tendo em conta a tenra idade do petiz, mas Riad garante que são «exclusivamente» as suas memórias. As dos familiares serão integradas nos futuros volumes, adianta.

Sobre a situação atual da Líbia e da Síria, Sattouf escusa-se a responder. «Não posso falar do que não conheci. Fiz uma narrativa da viagem e deixo para o leitor a opinião».

O segundo dos quatro volumes já está à venda em França. Por cá, a Teorema prevê publicar Uma Infância Síria no primeiro semestre de 2016.