Cultura

A Mariza não falta mundo

Ao sexto disco de estúdio, a cantora quer partilhar com o ouvinte a sua identidade atual. O fado ainda e sempre faz parte, mas há outros ritmos e novas emoções no mundo de Mariza.


Esteve cinco anos sem entrar em estúdio. Colegas de profissão, letristas, compositores, amigos, todos a pressionavam para voltar a gravar. «E eu respondia: quando sentir vontade e necessidade de o fazer». Mariza não se recorda do nome da cidade alemã em que estava a cantar, mas não se esquece do que sentiu. «Acabámos o concerto, olhei para os músicos e disse: preciso de guerrear com novas emoções, vou gravar!».

Nessa altura, a cantora da Mouraria foi literalmente à gaveta buscar material. «Quando cheguei ao estúdio percebi qual era o caminho. Havia uma ideia, mas era uma coisa ténue. Levei 28 temas e ficaram 14». O trilho levou-a, de novo, para outros territórios musicais, à imagem de Terra, lançado em 2008.

«Se fosse um disco só de fados não deixaria de ser completamente sincero, mas não é o que eu sou agora. Foram cinco anos sem gravar e de grandes mudanças a nível pessoal e musical. E como tudo mudou, acho que é um começo. Tinha de ser mais pura e verdadeira. O Mundo é um convite para as pessoas entrarem no meu mundo. Não é um disco de viagens, é aquilo que eu sou».

E sente-se tão à vontade a cantar um fado como ‘Rio de Mágoa’ (com letra de Rosa Lobato_Faria e composição de Mário_Pacheco) ou dois que faziam parte do repertório de Amália Rodrigues (‘Maldição’ e ‘Anda sol na minha rua’), como dar nova vida a um tango de Carlos Gardel, ‘Caprichosa’, ou a um flamenco da autoria de Pedro Jóia a partir do poema ‘Adeus’ de Cabral do Nascimento, aos ritmos de Cabo Verde com ‘Padoce de céu azul’, de Vlu.

Comunicando com o mesmo sorriso fotogénico com que se apresenta na fotografia e com as mãos, grandes e esguias, comenta:_«As pessoas gostam de rotular. Para mim é música. O Dizzy Gillespie dizia que só há dois tipos de música, a boa e a má. E aqui o que tentei fazer foi música boa. As pessoas dizem que canto fado e esse é o meu universo porque comecei a cantar fado aos cinco anos, se bem que mais tarde tive bandas e experimentei outros universos musicais, o fado sempre estará na minha forma de respiração musical. Mas não quer dizer que não existam outros quadrantes musicais na minha cabeça. No fundo este disco sou eu».

Mundo foi produzido pelo espanhol Javier Limón, com quem Mariza tinha trabalhado em Terra. Uma dupla em harmonia: «Com ele há um entendimento brutal em termos musicais, parece que falamos a mesma linguagem. Não sou produtora, mas ele é a extensão do que eu gostaria de ser. Basta olhar e parece que já percebeu qual a minha ideia e o que gosto e não gosto».

Hoje já não é um suplício ir para estúdio, mas até cruzar-se com o «fabuloso» produtor Jaques Morelenbaum «sentia uma dificuldade gigante em transportar emoções para a gravação».

Com o novo disco, a inevitável digressão – já iniciada na Suécia – vai levar Mariza par a América do_Norte e pela Europa. Além de sentir-se «sempre nervosa antes de entrar em palco», o que dura as primeiras três canções, sentiu uma especial ansiedade «porque as pessoas ficaram seis anos a ouvir os mesmos discos». Mas o que vai custar mais é estar longe do filho de cinco anos. «Sem dúvida. Dói».

cesar.avo@sol.pt