Politica

A vitória [quase] impossível

Em comparação com as legislativas de há quatro anos, a coligação eleitoral de Passos e Portas deixou fugir precisamente os 11,7%  que o CDS recebera em 2011. Mais concretamente, 727 mil eleitores abandonaram agora o voto na coligação. O que é muito, se considerarmos que cerca de 25%, ou seja, um em cada quatro votantes do centro-direita transferiu no passado dia 4 de outubro a sua opção para partidos de esquerda, PS e BE, ou para a abstenção.

Mas esta transferência de mais de 700 mil votantes também pode ser vista como limitada (ou mesmo diminuta, tendo em conta as piores expectativas), se pensarmos que se seguiu a três anos de duríssima austeridade (corte de salários e de pensões, desemprego, enorme aumento de impostos) levada à prática pelo Governo PSD/CDS. E se ponderarmos que, ainda no início do verão, as sondagens colocavam o PS bem à frente nas intenções de voto.

Acresce que, nos últimos anos, todos os Governos europeus obrigados a aplicar nos seus países políticas de austeridade não resistiram no poder assim que foram avaliados em eleições. Foi o que aconteceu na Grécia (com os colapsos eleitorais do Pasok e da Nova Democracia), em Itália (com a queda de Berlusconi e de Monti), em França (com a derrota de Sarkozy e a ascensão do PS em 2012), na Irlanda (com o histórico afastamento em 2011 do Fianna Fail, no poder há quase 30 anos, e com eleições marcadas para  2016) ou em Espanha (onde o PP de Rajoy substituiu o PSOE e irá a votos em dezembro próximo).

O Governo de Passos Coelho foi o primeiro na Europa a resistir ao desgaste de uma intervenção da troika e dos programas de austeridade, vencendo de novo eleições. Obtendo uma vitória que ainda há poucos meses a maioria dos portugueses considerava improvável ou mesmo impossível.

Maiores perdas de votos no sul e em Lisboa

E a verdade é que a coligação PSD/CDS perdeu a maioria absoluta, mas ainda ficou 300 mil votos e 6,2% à frente do PS. Perdeu 25 deputados (19 do PSD e 6 do CDS) mas somou 107 eleitos, mais 21 do que o PS. Em suma, venceu claramente as legislativas – contra todas as apostas e profecias. A coligação de centro-direita triunfa em praticamente todos os concelhos a norte do rio Tejo (ver Mapa na pág. 13) e regista os melhores resultados nas suas tradicionais zonas de domínio: no Minho (Braga e Viana do Castelo), no Litoral Centro (Aveiro e Leiria) e no Interior Centro (Viseu e Vila Real).

Em contrapartida, as perdas mais severas da coligação Portugal à Frente ocorrem em todo o sul do país, com as mais fortes penalizações nos distritos de Setúbal e Faro, mas também em Beja. E a descida em Lisboa (onde PSD e CDS perdem 150 mil votantes) é mais acentuada do que no Porto (menos 100 mil). Ao mesmo tempo, os resultados nas Ilhas são também dos mais negativos, com quebras acima dos 30% dos votantes de 2011. E com a perda de dois deputados na Madeira (um deles para o Bloco) e um nos Açores.

Reflexo destes péssimos resultados em todos os círculos eleitorais do sul é a transferência de votos da coligação PSD/CDS [ver gráfico com urna de voto nesta página]. Cerca de 400 mil votantes de 2011, provavelmente zangados com a austeridade e a baixa do nível de vida nestes quatro anos, refugiaram-se agora na abstenção.

E outros 300 mil, mais determinados ainda na sua mudança de voto, escolheram agora a alternativa dada por António Costa e o PS (160 mil) ou, em números também significativos, pelo Bloco de Esquerda (120 mil). Perto de 50 mil votantes do centro-direita em 2011 preferiram reforçar os pequenos partidos.

Pode dizer-se que foi uma sangria de votos controlada. E uma vitória eleitoral que parecia, à partida, impossível.

jal@sol.pt