Economia

Autoeuropa pode ter montado milhares de carros com software fraudulento

Foi na terça-feira que as dúvidas se desvaneceram sobre a implicação da Autoeuropa no escândalo que está a abalar o grupo alemão Volkswagen. Com a ferramenta online com que os clientes verificam se o seu carro a gasóleo está na lista de veículos atingidos, os muitos condutores constataram que nem o ‘made in Portugal’ os livrou da lista negra.

O SOL confirmou isso ao colocar os números de chassis de um monovolume Volkswagen Sharan 2.0 TDI, de 2012, e de um Scirocco 2.0 de 2010. Lamentamos informá-lo de que o motor Tipo EA 189 do seu veículo com o Número de chassis (…) que submeteu está afetado pelo software que causa discrepâncias nos valores de óxidos de azoto (NOx) durante os ensaios no dinamómetro”, lia-se na mensagem automática de resposta.

A nível mundial, estes veículos da VW só são feitos em Portugal, o que abre interrogações sobre a dimensão do problema em Portugal. A fábrica montou 626 mil carros entre 2009 e 2014, os principais anos de produção de veículos com o software polémico. Esse total pode ser dividido entre quatro modelos: Volkswagen Scirocco, VW Eos (descontinuado este ano), VW Sharan e Seat Alhambra.

Os dois últimos, monovolumes ‘gémeos’, representam a maioria da produção atual e o diesel é rei nestes familiares de sete lugares, grande parte deles vendidos na Europa. Mesmo o descapotável Eos, e principalmente o pequeno desportivo Scirocco, têm versões a gasóleo com bastante saída nos mercados europeus.

Ao todo, várias dezenas ou centenas de milhares de carros com o software que falseia as emissões poluentes podem ter saído da fábrica portuguesa, que exporta 99% da sua produção.

Investimentos em risco

A fábrica Autoeuropa confirmou na semana passada ter construído automóveis com o software que falseia as emissões poluentes nos diesel, mostrando-se no entanto também surpreendida. António Chora, coordenador da Comissão de Trabalhadores da fábrica - que está ainda na Alemanha a participar nas reuniões entre funcionários e administração -, explicou que os motores chegam a Palmela já completos, de outra fábrica europeia.

Mesmo na Alemanha parece ainda haver dúvidas, com um porta-voz do grupo germânico a responder na passada quinta-feira ao SOL, sobre a fábrica portuguesa, que não seria correto fazer afirmações hoje que podem ser alteradas depois”.

A unidade portuguesa não divulgou ainda quantos veículos com emissões fraudulentas produziu, nem revela os números de produção divididos entre carros a gasóleo ou a gasolina. No entanto, a fatia da Autoeuropa neste escândalo mundial pode ser bem maior do que o total de carros afetados a circular nas estradas portuguesas - mais de 117 mil.

O CEO da Volkswagen, Matthias Müller, admitiu na semana passada que o grupo terá de adiar ou cancelar investimentos não prioritários, o que provocou receio na fábrica portuguesa, já que a Autoeuropa tem em curso um projeto de 677 milhões de euros para aumentar a capacidade de produção.

Contactado pelo SOL, António Chora acredita que esta revisão de investimentos não vai afetar a unidade nacional, uma vez que os trabalhos de ampliação já estão em curso”. Além disso, os trabalhadores da fábrica já foram tranquilizados pela direção. Há alguma preocupação mas estamos serenos”.

Plano em marcha

Conforme tinha sido definido pelas autoridades alemãs, o grupo Volkswagen apresentou na quarta-feira passada um plano para corrigir o problema nos carros - inicialmente 11 milhões em todo o mundo, segundo a empresa, mas o CEO Matthias Müller já referiu numa entrevista que podem ser menos: 9,5 milhões.

Os primeiros a serem chamados à oficina, sem quaisquer custos para o cliente, serão os automóveis com o motor 2.0 TDI, apenas para uma alteração no software. Já os 1.6 TDI, 3,6 milhões em todo o mundo, requerem uma solução mais complexa que não passa apenas pela informática do veículo. Só em setembro poderão começar a ser revistos na oficina, para uma reparação um pouco mais demorada também.

Clientes rejeitam ir à oficina

Com as notícias que foram saindo sobre o efeito ‘positivo’ do software - que até permite que o carro gaste menos combustível e tenha mais potência ao não estar sempre a restringir as emissões -, muitos clientes começaram a dizer que preferem o carro como está. Gosto do carro assim, nunca falhou e tem muita genica, tenho medo que fique mais fraco”, disse ao SOL a dona de um Scirocco. Outro condutor teme que o seu Sharan venha a gastar ainda mais”.

Nos Estados Unidos, mais restritivos quanto às emissões poluentes, muitos clientes da Volkswagen e da Audi dizem que não vão responder ao recall, para que o seu carro não perca as boas prestações. E em alguns estados não são obrigados a isso, pelo que a Volkswagen ainda pode ter de pagar, ou oferecer algo em troca, para os convencer a ir à oficina.

Fábrica de Palmela vale 15 milhões em impostos

O peso da Autoeuropa na economia nacional é fácil de traduzir em números. A fábrica de Palmela emprega mais de 3.500 funcionários e tem um impacto de 1% no PIB. É atualmente o terceiro maior exportador do país, depois da Galp e da TAP, embora seja simultaneamente um dos principais importadores, já que muitas peças vêm do exterior.

O grupo tem também relevância a nível fiscal, sendo um dos maiores contribuintes do país. Segundo as contas da empresa a que o SOL teve acesso, a Autoeuropa lucrou cerca de 35 milhões de euros no ano passado, depois de ter pago impostos de 15 milhões. 

* com João Madeira

emanuel.costa@sol.pt