Politica

A pressão que pode travar um governo de esquerda

Francisco Louçã tinha avisado na semana passada que “Berlim tem um telefone que toca forte” e que pode ser usado para travar soluções de governação à esquerda. Não há notícia de chamadas de Angela Merkel, mas depois do encontro entre António Costa e Catarina Martins ter trazido sinais de aproximação, não faltaram alertas sobre os custos que poderão decorrer de uma governação à esquerda.

"A menos que tenha havido uma conversão súbita de todos aqueles que até ontem eram contra a União Europeia, contra o Tratado Orçamental, princípios da União Europeia e da Zona Euro, parece-me que um Governo que fosse constituído por forças anti-europeias e anti-Tratado Orçamental seria muito negativo, do ponto de vista da confiança no nosso país", afirmou Durão Barroso ao Diário Económico.

O ex- presidente da Comissão Europeia lembrou aos portugueses que "nada é irreversível", muito menos a saída da crise. E considerou que não cumprir as regras europeias pode deitar tudo a perder.

Durão faz eco de como pode ser visto de fora do país um governo de esquerda, explicando que isso vai deixar muitos a perguntar-se “que Governo é este? É um Governo que vai ou não cumprir as suas obrigações?".

Por enquanto, a voz de Barroso é ainda a única que levanta de forma clara estas questões. Mas, segundo a imprensa económica, os mercados dão também sinais de nervosismo com a aproximação de Costa ao PCP e ao BE.


Bolsa cai e analistas lançam avisos

A praça portuguesa abriu, esta terça-feira, em queda de 1,31%, com todas as cotadas no vermelho. E não faltou a leitura de que será uma reação à possibilidade de Portugal ser governado à esquerda, por ser Lisboa a praça que mais cai, numa Europa que acordou toda ela com perdas.

Logo após o encontro entre Costa e Catarina, os económicos davam conta de uma segunda-feira de “fortes perdas” na bolsa, com o PSI 20 a cair 3,05%.

Ontem, analistas ouvidos pelo Jornal de Negócios afirmavam que “seria um choque” ter um governo de esquerda no país. E alertavam para as consequências: os juros da dívida podem registar fortes subidas e o rating da República pode não sair de lixo.

Os mesmos analistas admitem que o programa de compra massiva de dívida desenvolvido pelo Banco Central Europeu pode, contudo, mitigar estes efeitos.

Ainda esta semana um artigo na Bloomberg dirigido aos investidores em títulos da dívida portuguesa, lembrava os pontos de contacto entre o BE e o Syriza e assinalando que o próprio Tsipras escreveu uma mensagem na sua conta de Twitter para dar os parabéns a Catarina Martins pelo resultado eleitoral.

A Bloomberg aconselha os investidores a olhar com atenção para o que está a acontecer em Portugal, frisando que o BE disse na campanha querer reestruturar a dívida pública portuguesa, reverter os cortes salariais na Função Pública, devolver a sobretaxa de IRS taxar as grandes fortunas e os bens de luxo.

margarida.davim@sol.pt