Internacional

Só Obama pode impedir decapitação e crucificação de jovem saudita

Mãe de Ali Mohammed al-Nimr, o jovem condenado à morte por participar em protestos contra o regime saudita em 2011, quando tinha 17 anos, diz em entrevista que só o Presidente norte-americano pode impedir que o rapaz seja decapitado e crucificado. Perante a iminência da execução, revela: “Para todas as pessoas uma hora são 60 minutos, para mim uma hora são 60 batidas de dor”.

Nusra al-Ahmed, na primeira entrevista a um órgão de comunicação estrangeiro, critica ao Guardian a dureza da sentença de que foi alvo o filho: “Nenhum ser humano são e normal condenaria com esta sentença uma criança de 17 anos. E porquê? Ele não derramou sangue, não roubou. Onde foram buscar isto? À idade das trevas?”.

O rapaz foi detido numa manifestação com xiitas que exigiam os mesmos direitos religiosos que a maioria sunita do país. Entre as acusações, a de posse de arma – que a família rejeita –, mas também a presença num ato de protesto e o incitamento à manifestação através do telemóvel…

A esperança desta mãe centra-se no maior aliado da Arábia Saudita: os EUA. Mais concretamente, o Presidente Barack Obama. “Ele é o líder deste mundo e ele pode interferir e salvar o meu filho”, implora.

Quando pôde visitar o filho na prisão, Nusra conta que ele já não era o mesmo, tinha marcas de ferimentos na testa e no nariz e estava muito magro. Ali contou-lhe que durante os interrogatórios tinha sido “pontapeado, esbofeteado… Durante um mês urinou sangue”.


Críticas internacionais e reação

Além de organizações de defesa dos direitos humanos e vários Governos, que pediram clemência para o jovem Ali, o facto de a Arábia Saudita pertencer ao Conselho dos Direitos Humanos das Nações Unidas gerou polémica. Os 47 membros periodicamente eleitos para este órgão da ONU não estão isentos de ‘lacunas’ nos direitos humanos – nem existe uma cláusula a impedir, por exemplo, a eleição de um Estado com pena de morte.

A Arábia Saudita rege a justiça do país pela sharia, ou lei islâmica. A mesma que condenou o jovem à decapitação e à exposição do cadáver, crucificado, num local público. À BBC, o embaixador saudita nas Nações Unidas respondeu: “A aplicação da sharia, no que diz respeito aos direitos humanos, é a forma mais elevada de direitos humanos”. Abdallah al-Mouallimi recusou ainda, mas “respeitosamente”, qualquer “interferência nos assuntos internos de um Estado soberano”.


Reino Unido retira apoio

David Cameron já tinha vindo a público pedir clemência pelo jovem Ali. Esta semana, o primeiro-ministro do Reino Unido viu-se confrontado com a notícia de que um cidadão britânico tinha sido condenado a 350 chicotadas. O crime? Foi detido pela Polícia religiosa com vinho de fabrico artesanal, que transportava no carro.

Embora tenha sido depois negado que Karl Andree, 74 anos, expatriado na Arábia Saudita há 25 anos, tivesse sido condenado às vergastadas, o septuagenário encontra-se no entanto preso desde 2014. Londres cancelou entretanto – negando qualquer ligação a estes casos – um contrato no valor de 8 milhões de euros com Riade, em que seriam prestados treino e aconselhamento no domínio do sistema prisional saudita.

ana.c.camara@sol.pt