Desporto

Peniche. Quase tudo pode acontecer

Houve um dia que Mick Fanning, danado por ter adiado a conquista do título para o Havai, bebeu até cair para o lado em Peniche. Sim, esse senhor que este ano (até à data do fecho desta edição) lidera o ranking, que no anterior venceu a prova, e cuja cara certamente viu passar em loop na TV porque foi atacado por um tubarão na África do Sul. Houve outro dia que um amigo dele, Joel Parkinson, entrou à campeão dentro de água para treinar e, segundo contam os bodyboarders da vila piscatória, saiu de lá corrido à chapada porque achava que as ondas eram todas dele, não respeitando os locais. Ah, numa outra vez, um tipo, que ficou conhecido como o ‘ladrão da boina’, e após mapear onde cada surfista da elite mundial ia ficar hospedado, entrou nas casas de alguns deles enquanto competiam para lhes roubar as pranchas. Acabou por ser apanhado e de que forma a justiça foi feita não se sabe bem.

Desde 2009 que o campeonato mundial de surf passa por Peniche, antes de remar para a última etapa do ano em Pipeline, no Havai. Por estar próxima do desfecho da temporada, a nossa prova tem sido palco de momentos tensos no que toca à competição e de inúmeras histórias de bastidores. Foi na praia de Supertubos que Kelly Slater, até à data o surfista com mais títulos mundiais (11!), admitiu ter uma embirração séria com Portugal e até a resolveu, embora por pouco tempo. Este ano, alegando estar lesionado e fora da corrida pelo título, já disse que muito provavelmente não vai cá meter os pés.

Kelly <3 Peniche #sqn

O ‘Careca’ tinha cinco anos quando se realizou o primeiro campeonato de surf em Portugal. E, passados 19 – quando perdeu contra o wildcard português Bruno ‘Bubas’ Charneca, no primeiro World Championship Tour (WCT, ou circuito mundial) realizado em Portugal, mais concretamente na Figueira da Foz (1996) – dava início a uma relação difícil com o nosso país.

No ano seguinte, durante o Boundi Sintra Pro, arruinou-se numa noite de copos por Lisboa e isso custou-lhe mais uma derrota. Ressacado, chegou atrasado à praia da Aguda, já o seu adversário da bateria, o wildcard português Ruben Gonzalez, estava na água. Slater, então com 25 anos e quatro títulos mundiais, desatou a correr pelo areal, atirou-se ao mar sem fato ou lycra de competição e acabou por perder. O mesmo voltou a acontecer-lhe, embora sem bebedeiras, na Figueira da Foz mais uma vez (ainda em 1997, contra Daniel Wills) e na primeira edição do campeonato em Peniche, onde foi eliminado prematuramente pelo jovem australiano Owen Wright.

Em 2010, admitiu ter «um problema» com Portugal, e dias depois arrumou temporariamente com ele. «Não sabia que ia resolvê-lo enquanto a final não chegasse ao fim. Mas disse a mim mesmo que ia conseguir. Às vezes temos um feeling, sentimos a coisa... Hoje senti que as melhores ondas estavam a vir ter comigo, que era o meu dia», afirmou após ter vencido o campeonato na praia de Supertubos. A exceção faz a u regra e, como manda aquilo que já parece ser tradição por estas bandas, depois deste não venceu mais nenhum.

Por falar em prestações enguiçadas, também o ‘Prince of Portugal’ ou ‘Portuguese Tiger’, como lhe chamam lá fora, nunca brilhou em Peniche, salvo uma ou outra onda boa nas primeiras fases do campeonato. Habituado a ter sempre finais de época «em stress», «com a corda ao pescoço», Saca esgotou as estratégias para abordar a pressão que o público em Supertubos lhe causava, sem nunca ter conseguido converter a energia dos fãs a seu favor. «Desta vez vou chegar lá́ num helicóptero [risos] que me vai deixar no pico», brincou no ano passado. Dois meses depois, o único surfista português da história entre os 32 melhores do mundo era eliminado do circuito para todo o sempre.

 Quando o surf vira rock

Vários momentos ficaram para mais tarde recordar durante a última edição em Peniche. Num dia com sol, 30 graus, filas em todo lado, cerveja com fartura, engarrafamentos e carros amontoados à balda em parques de estacionamento, episódios inusitados dominaram a programação. Não estávamos num festival de verão, mas era o que parecia. Em cartaz houve clássicos, como Kelly Slater a perder cedo em Portugal ou Tiago Pires a não conseguir de novo gerir a pressão de competir em casa, mas também atuações inesperadas, como as de Brett Simpson e Aritz Aranburu. No alinhamento, e como em qualquer festa de rock que se preze, estrelas tiveram acessos de loucura em palco e nisso o ‘Rei’ foi o protagonista. Após ter sido eliminado prematuramente na terceira ronda do Moche Rip Curl Pro Portugal, o americano de 43 anos e habitualmente contido em público quando as coisas lhe correm mal, deixou-se tomar pela fúria e partiu a prancha ao pontapé, tendo mesmo escorregado e caído para trás de tanta raiva. O momento não era para menos.

Na disputa de mais uma taça (a 12.ª!), o surfista vacilou logo após Gabriel Medina, campeão em título, perder. Então em segundo lugar do ranking e com o brasileiro já fora da competição, aquela teria sido a altura ideal para Slater estreitar a diferença entre ambos e, numa posição mais confortável, levar a guerra para um dos seus palcos favoritos, Pipeline. Porém, e tal como na etapa anterior, em França, isso não aconteceu e daí a ira de Kelly. «Foi a melhor coisa que fiz, precisava de extravasar. Estou a sentir-me melhor. As estrelas de rock passam a vida a fazer isso e vocês (jornalistas) não dizem nada», respondeu, quando questionado pela imprensa.

Já Gabriel, afastado inesperadamente por Brett Simpson, fugiu assim que pôde para os bastidores, recusando-se a falar a quente com os media (apareceu passada uma hora). Na sua bateria, o jovem prodígio brasileiro, que podia vir a sagrar-se campeão do mundo já em Peniche (para isso precisava ganhar o evento), não apresentou as pontuações elevadas que tinham vindo a marcar o seu desempenho. Antes do cronómetro ditar o fim do duelo, o surfista saiu da água, com o ar de quem tinha virado o resultado na última onda – um tubo pequeno, seguido de duas manobras, mas com direito a um pequeno claim e tudo.

No público circulavam várias teorias – tinha feito aquilo porque achava que já tinha a nota que precisava (um 5.78), para pressionar os juízes ou porque o tempo que lhe sobrava, cerca de dois minutos, já não era o suficiente para dar a volta ao resultado. Só Gabriel saberá o que na altura lhe passou pela cabeça. A entourage de Medina queixou-se das notas baixas dadas pelos juízes, porém, como Kelly perdeu logo no duelo seguinte, contra o carrasco basco Aranburu, a turma verde e amarela entrou novamente em festa. E disso entendem eles.

Rivalidades antigas e novas

Se 2012 foi o ano em que a rivalidade entre Medina e o australiano Julian Wilson se tornou evidente, dois anos antes assistimos ao desfecho de outra que tanta falta nos faz. Mas vamos à primeira. Naquela sexta-feira de outono tudo indicava que Gabriel, então com 18 anos, ia vencer a etapa de Peniche. Na final contra o aussie, o brasileiro entubou, voou e abusou para ficar na liderança, até que, nos últimos segundos, uma direita pequena entrou e Wilson, com prioridade, conseguiu a nota que precisava. Gabriel saiu da água tenso, temendo que Julian lhe roubasse a vitória. Quando as notas começaram a cair no ecrã, o miúdo não conteve o choro e assim foi até ao pódio. A taça era do loirinho.

«É a terceira vez que erram comigo», disse Medina. «Obrigado a todos! Só pelos aplausos daquela galera gigante na praia deu para ver qual foi o resultado. Os caras tão loucos, mas cabeça erguida. Isso só vai me fazer querer mais esse título! Eles vão ver.». Talvez por isso, porque sabiam que a miscigenação do título, após décadas de pura linhagem anglo-saxônica, estava mais próxima que nunca, dois anos antes deste episódio, a Surfer Magazine estampava na sua capa ‘Julian Inc.’.

«Wilson representa o surf de empresário, a fortuna que existe para ser dividida pelos sucessores», observou então o atento jornalista carioca Júlio Adler. «Medina é o contrário disso. Ele vem para derrubar os ícones e se tornar um líder das massas sem rosto e sem nome, que inundam nossos mares – real e virtual. Medina é um rebelde sem querer ser. Medina não é mais criança faz tempo, ele é um campeão». Escrito e feito, pouco tempo depois.

Agora a outra história. Andy Irons desapareceu em novembro de 2010 e será para sempre recordado como o único homem no planeta capaz de ganhar três títulos mundiais durante a ditadura de Slater. A rivalidade entre ambos foi sempre acesa e preenchida de inúmeros momentos de sacanagem – Irons insultava Kelly; o extraterrestre do surf (há 24 anos no circuito) abordava-o nas provas com os jogos manhosos a que sempre recorreu.

Com o passar dos tempos, a tensão entre ambos foi-se diluindo. Kelly continuou a fazer aquilo que melhor sabe, Andy enveredou por um caminho escuro de álcool e drogas, entrou em depressão e deixou de valorizar o que tinha: um talento divino, três taças (2002, 2003 e 2004) e uma vida cheia de facilidades. Bateu no fundo e, quando todos achavam que finalmente se poderia levantar de novo, após uma vitória em Teahupoo (Tahiti), desapareceu de vez, a 2 de novembro de 2010, sozinho, num hotel em Dallas. A última etapa em que competiu foi em Peniche.

Do ‘ladrão da boina’ nunca mais se ouviu falar. Seja para comemorar ou para esquecer, as probabilidades de Mick soltar o Eugene (o seu segundo nome e alter-ego para a festa) que vive dentro si são elevadíssimas. Parko, depois de ter sentido na pele o código de conduta aquática da vila piscatória, andará na linha. Mais uma vez, emoções e histórias não vão faltar e, quem sabe até, tubarões.