Cultura

Maré alta

A dona Ercília tem 84 anos e, segundo a artista e realizadora Rita Fernandes, foi uma peça fundamental para dar o contexto de como Peniche tem sido influenciado pelo campeonato mundial de surf que ali se realiza há já meia dúzia de anos. “Durante o final do ano passado e o princípio deste, fiz muitas entrevistas mas a dona Ercília, que ganha a vida com a renda de bilros, foi fundamental para perceber as mudanças que ali tinham ocorrido”, conta Rita que durante meses fez pesquisa para um documentário da RTP sobre o surf nesta zona do país (e que deverá estrear aquando da etapa nacional do campeonato mundial).

Maré alta

Desse trabalho nasceu uma paixão, não só pela região como pela modalidade – confessa que há dois anos começou mesmo a praticá-la. Depois juntou-lhe o desenho, uma atividade que já a acompanha há 21 anos, e que foi ontem apresentada ao público, no MH Hotel em Peniche, na exposição: Do Outro Lado da Onda. “São retratos de surfistas com as melhores classificações, a sanguínea, com muita cor”, destaca. E acrescenta que podem ser vistos até ao final do mês. “Nada se assemelha àquele pairar das nossas almas, enquanto assistimos a um espetáculo que materializa o herói que vive dentro de todos nós”, destaca Rita a propósito dos heróis que enfrentam as ondas imponentes de Peniche. “Fórmula 1; corridas de cavalos; enduro ou qualquer outra modalidade que envolva riscos, o surf não é exceção.

O auge da coragem, aliada à cirurgia de movimentos e um trabalho levado à exaustão, fazem explodir dentro de nós um sentimento talvez de gratidão, pelo combustível fornecido para alimentar os nossos sonhos de perfeição. Com toda a certeza, o desporto também é uma arte”, defende a artista que durante vários anos trabalhou na RTP como jornalista e apresentadora e que nos últimos anos, se tem afirmado também como documentarista. Um trabalho que não está muito longe do mundo das artes ao qual tem dedicado as últimas duas décadas da sua vida. “A verdade é que o surf está na moda e acho que os artistas têm que surpreender o público com a atualidade”.

Uma ligação à realidade que vai estar também patente na sua próxima exposição já agendada para o mês de dezembro. Chama-se Giv Lowe e terá lugar na Praça de S. Paulo, em Lisboa. “Para essa mostra tirei fotografias da praça e depois mostrei-as a uma série de crianças, perguntando-lhes o que introduziriam ali para animar o espaço”. As respostas foram desde máquinas do tempo a desenhos e foi com base nessas respostas que Rita criou uma série de aguarelas que ilustram as sugestões dos mais novos. “Houve até um miúdo que me disse que deveria haver ali brinquedos antigos para as pessoas mais velhas poderem voltar a brincar”.

patricia.cintra@sol.pt

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