Cultura

Nas trincheiras da BD

Em 1996, inspirados pelo ensaio O Cânone Ocidental, no qual o crítico norte-americano Harold Bloom fez uma escolha das maiores obras literárias, Ignacio Vidal-Folch e Ramón de España escreveram El Canon de Los Comics, no qual distinguiam já o talento de Jacques Tardi, ao lado de outros mestres da banda desenhada. “Um clássico vivo”, escrevia então a dupla espanhola sobre este francês, herdeiro de Edgar Pierre Jacobs que “iluminou a tradição” da chamada linha clara. Tardi é a grande figura da 26.ª edição do Amadora BD, que inaugura nesta sexta-feira.

O fantasma da guerra assombra Tardi DR
Manecas e Quim DR

O autor de 69 anos está presente com a exposição ‘Putain de Guerre! - A Guerra nas Trincheiras’ (na Bedeteca da Amadora), bem como com o espetáculo Putain de Guerre!, a decorrer neste sábado, às 21h30, nos Recreios da Amadora. Um libelo antiguerra, com a participação do próprio autor e da cantora Dominique Grange, a partir do texto do álbum homónimo, assinado por Jean-Pierre Verney.

Nascido no pós-guerra, Tardi cresceu com as histórias do avô e do tio-avô no conflito de 14-18, bem como do pai na II Guerra. Desde o primeiro álbum, Adieu Brindavoine (1974), no qual o protagonista injeta um vírus para se escapar à frente de combate, a Moi, René Tardi, Prisonnier au Stalag II B (2014), relato do pai enquanto prisioneiro dos nazis, passando por Foi Assim a Guerra das Trincheiras (iniciado em 82 e concluído 11 anos depois, editado em Portugal este ano pela Levoir), perpassa por quase toda a obra a obsessão pela insanidade da guerra (fez duas séries muito populares sem essa componente, Adèle Blanc-Sec e Nestor Burma).

Também na Bedeteca está ‘Quim e Manecas vão à guerra’, homenagem ao centenário da criação de Stuart de Carvalhais destes “anarquistas juvenis”, na expressão de António Dias de Deus. As invenções de Manecas para derrotar os alemães e a forma como ridicularizam os boches formam alguns dos primeiros episódios destes pequenos heróis pioneiros na modernidade do género na Europa (uso de balões, onomatopeias, sinais de movimento), e então publicados em O Século Cómico. Os mais de 500 episódios foram ainda publicados no Diário de Lisboa, Sempre Fixe e O Pajem do Cavaleiro Andante.

E como crianças-heróis Quim e Manecas estão também na exposição central da Amadora BD, ‘A Criança na BD’, comissariada por João Paiva Boléo, e que reúne os petizes mais importantes dos quadradinhos. Dos precursores Max e Moritz, de Wilhelm Busch, no século XIX, a Persépolis de Marjane Satrapi, a mostra patente no Forum Luís de Camões não pode deixar de passar pelos Peanuts, Mafalda, Mónica, ou Calvin, entre muitos outros.

O ano editorial em Portugal é outra exposição no espaço da Brandoa, a ver até 8 de novembro.

cesar.avo@sol.pt