Opiniao

Os juros da Reserva Federal

Portugal está de novo na mira dos investidores estrangeiros que compraram e poderão vir a comprar a dívida pública portuguesa. Ainda que as coisas corram bem, o Estado português vai precisar, durante longos anos, de se financiar nos mercados. Se as coisas correrem mal, com o défice orçamental a ultrapassar as metas e o futuro executivo incapaz de fazer as indispensáveis reformas, o resultado será uma forte subida das taxas de juro cobradas à dívida pública portuguesa. No limite, virá o fecho dos mercados para o nosso país – algo suscetível de levar a um segundo resgate, com toda uma nova carga de austeridade.

Há, porém, um outro fator de uma provável alta dos juros: a há muito anunciada, mas ainda não concretizada, subida das taxas diretoras do banco central dos EUA, a Reserva Federal (Fed).   

Em 2008, em plena e assustadora crise financeira global, a Fed baixou a sua taxa de juro diretora para praticamente zero. Mas recorreu também a medidas não convencionais para evitar o pior. A Fed começou a comprar títulos no mercado, nomeadamente aos bancos americanos, sem vender outros títulos que compensassem essa injeção de dinheiro no mercado. A operação, com o esquisito nome de quantitative easing, tinha já sido realizada no início da década de 90 pelo banco central do Japão, para combater a deflação.

No fim de 2014 a Fed cessou esta operação, aliás frequentemente criticada por, dizia-se, dela poder resultar um surto inflacionista. De facto, tratava-se de um aumento da massa monetária em circulação, dinheiro criado pela Fed a partir do nada. Mas a inflação não é, ainda hoje, uma ameaça; pelo contrário, o perigo é a deflação. O próprio BCE, depois de longos anos de hesitação, pratica agora o quantitative easing.

Com a economia americana a recuperar, desde há uns tempos multiplicam-se as vozes – incluindo no interior da própria Fed – aconselhando uma subida da sua taxa diretora, para afastar riscos de inflação. Na reunião da Fed de setembro a questão foi adiada, muito por causa do abrandamento da economia chinesa. Agora, especula-se se a subida ocorrerá ainda este ano ou só em 2016, uma vez que o crescimento económico mundial dá sinais de afrouxar.

A mera probabilidade da subida dos juros da Fed já levou à saída de muito capital dos chamados países emergentes, em particular da China, dinheiro que procura melhor remuneração nos EUA. E a concretização da subida, mais tarde ou mais cedo, influenciará no sentido da alta as taxas de juro nos mercados mundiais, incluindo no mercado da dívida. Daí que possa vir a tocar-nos.

Na semana passada Vítor Constâncio, vice-presidente do BCE, alertou para os possíveis efeitos negativos dessa subida, uma vez que os bancos centrais não têm a menor experiência de sair de uma situação de taxas de juro próximas de zero. Entretanto, aumentou a integração na generalidade dos países na economia global – tudo está mais ligado do que nunca. Por isso desde há muito tempo que esta questão da subida dos juros da Fed é seguida com enorme atenção em quase todo o mundo.

 

Curiosamente, nos EUA alguns congressistas do Partido Republicano propõem-se tirar poderes à Fed. A independência dos bancos centrais costuma ser atacada à esquerda. A direita radical americana parece tomar posição semelhante. Os extremos tocam-se.