Cultura

Downton Abbey: Deliciosa snobeira

Nem toda a gente adora a série e alguns críticos acusam-na de perpetuar uma ideia errada dos ingleses ricos como simpáticos bebedores de chá. Dito isto, a britânica Downton Abbey, cuja primeira temporada arrancou em setembro de 2010 - e nos Estados Unidos um ano mais tarde - entrou no Guinness como a série de língua inglesa mais apreciada de 2011 e arrecadou um Globo de Ouro e um Emmy para Melhor Mini Série. E os seus fãs não pararam de aumentar à medida que da ITV passou a ser exportada para todo o mundo, com uma audiência global estimada em 120 milhões de pessoas. A temporada que começa a ser transmitida nesta terça-feira na FoxLife, às 22h20, é a derradeira, e o último episódio é emitido a 25 de dezembro, com um especial de Natal, como é o hábito. 

O tempo passa, e depressa, em Downton Abbey e embora poucas cenas se afastem mais que poucas centenas de metros de Highclere Castle, a história do mundo entra em grandes golfadas. Logo na primeira temporada, o naufrágio do Titanic, onde morrem os herdeiros de Lord Grantham, coloca uma ameaça ao futuro da propriedade e lança Lady Mary (a primogénita da família) para os braços a princípio indesejados de Mathew, um primo afastado, advogado da burguesia e relutante em dedicar-se ao estilo de vida aristocrático. E há ainda a eclosão da I Guerra, os movimentos comunistas, a gripe espanhola e a progressiva decadência e insolvência dos grandes proprietários. E Downton Abbey irá passar desse momento em que a aristocracia vivia numa bolha para um mundo em grandes convulsões. Na quinta temporada chegaram a Downton antigos príncipes russos caídos na miséria após a revolução bolchevique. E o sentimento de fim de uma época instalou-se.

Várias coisas tornam Downton Abbey soberba e viciante: os cenários e o guarda-roupa maravilhosos, a banda sonora, o genérico, a fotografia, a história cativante, melodramática e divertida. Mas o que faz de Downton o sucesso que é, foi a escolha perfeita dos atores. Maggie Smith, em primeiro lugar, que faz o papel da Condessa Viúva e a quem são atribuídas as deixas mais sarcásticas e diretas, sempre com uma noção de decência acompanhada de sentido de humor e de pragmatismo. Por exemplo, o comentário que faz quando aconselha a neta Mary a não divulgar ao fututo marido o affair funesto com um diplomata turco: “Nenhuma noiva chega ao altar com a história toda contada”. 

Com momentos que foram controversos, como a morte abrupta de Mathew Crawley, a cena demasiado crua da violação de Anna Bates, que afastou alguns de milhares de fãs, ou a morte rápida da cadela de Lord Grantham, Isis - por ter um nome inconveniente que se confundia com o Estado Islâmico da atualidade do século XXI - a série é repleta de peripécias e enredos, vários novelescos, e muitos deles à espera de um desfecho na sexta temporada. 

Por exemplo, o que acontecerá ao casal Bates? Livrar-se-á da prisão de uma vez por todas? Como irá o mordomo, Mr. Carson, dar-se com o casamento? Irá Tom, o antigo chauffeur que casou com Sybill Crawley, ficar na América com Sybie? Por qual dos dois pretendentes irá Mary decidir-se? Será Edith capaz de enveredar por um estilo de vida mais moderno, o de mãe solteira e diretora de uma revista? E o que farão os milhares de fãs depois do último genérico ir para o ar, em Inglaterra e em todo o mundo a 25 de dezembro? Uma coisa é certa, as visitas de dezembro para o Castelo de Highclere, onde foram feitas as filmagens das zonas principais e de exteriores, já estão esgotadas. O dinheiro pago pela produtora, a Carnival, e a romaria de milhares de turistas à ‘verdadeira’ Downton Abbey, salvaram a a propriedade, nas mãos do conde e da condessa de Carnarvon. É o ciclo da história a fechar-se. A televisão a salvar a nobreza. 

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