Internacional

Merkel e o desafio da década

A entrada de quase meio milhão de refugiados no estado da Baviera desde o início do ano radicalizou Horst Seehofer. O líder da CSU (União Social-Cristã), que começara por prometer ser um “gato a ronronar” como parceiro de coligação, chegou agora ao ponto de ameaçar romper com uma união partidária de 70 anos ao admitir a retirada dos quatro ministros que tem no Governo de Berlim.

Para o evitar, Seehofer exigia a Merkel, até ao final de outubro, um pacote de medidas que tornasse o país menos atrativo para os migrantes: a cooperação com o Governo austríaco, para que este encaminhe os refugiados para os postos fronteiriços com controlo; a criação de “zonas de trânsito” nas terras de ninguém junto à fronteira e qualquer tipo de ação que pudesse acalmar um eleitorado bávaro chocado com o que diz ser uma “política de portas abertas” da chanceler.

Merkel sentiu o puxão para a direita, até porque ele não vinha só de Seehofer. Depois de ter visto uma candidata a autarca, da sua CDU, ser esfaqueada por defender uma política de acolhimento, Merkel sente a tensão crescente na sociedade alemã. Só no último fim de semana, quatro sírios foram assistidos em hospitais depois de serem brutalmente agredidos por grupos de 20 ou 30 membros da extrema-direita. Desde o início de 2015, a Alemanha já registou 576 crimes contra centros de refugiados.

O clima de insatisfação faz-se sentir também nas sondagens, embora ainda de forma tímida. A chanceler continua a ser a figura mais admirada da política alemã, mas a taxa de aprovação de 54% registada em outubro representa uma queda de 9% em relação ao mês anterior. A tendência é acompanhada pelo seu partido, vencedor das últimas três eleições nacionais que viu o seu nível de apoio cair de 43% para 36% das intenções de voto.

Pragmática, Merkel cumpriu o prazo do ultimato do parceiro e no sábado juntou a troika da governação que, além do bávaro, conta ainda com o social-democrata Sigmar Gabriel. Ao fim de duas horas, o líder do SPD deixou a sala com cara de poucos amigos, enquanto Merkel e o aliado regional permanecerem por mais oito horas.

Separar o trigo do joio

Do encontro saiu um plano com seis pontos, que inclui algumas das reivindicações de Seehofer sem mudar radicalmente a posição da chanceler. Merkel aderiu à ideia das zonas de trânsito junto à fronteira, uma medida que impede que parte dos migrantes seja já registada em solo alemão – o que altera o quadro legal da situação. À semelhança do que acontece nos aeroportos (aí em muito menor escala), os chamados ‘migrantes económicos’ – os que não chegam de zonas de conflito ou não correm risco de vida no país de origem – são deportados com muito menos burocracia (e maior celeridade) do que aqueles que são identificados já juridicamente em solo alemão.

A ideia passa por separar os que têm necessidade dos que têm vontade de viver na Alemanha. Já no verão, o Governo de Berlim adotara uma série de medidas para dificultar a autorização de visto a migrantes chegados de países considerados seguros, como são considerados os estados dos Balcãs, por exemplo. Nas outras medidas anunciadas, Merkel promete maior coordenação com Áustria e Turquia – país onde se inicia a principal rota de refugiados que termina na Alemanha – e suspende até 2017 uma lei de agosto que permitia aos refugiados requisitarem a ida de familiares para solo germânico.

Perigo de guerra

A chanceler conseguiu assim fazer com que Seehofer saísse “satisfeito” do encontro sem ceder naquilo que considera prioritário: o plano não estabelece um limite de entradas anuais no país – o país estima que em 2015 deve receber entre 800 mil a um milhão de pessoas –, assim como não pormenoriza como será controlada toda a fronteira além dos postos de controlo existentes.

Pressionada pelos críticos à direita para seguir o exemplo húngaro e erguer barreiras ao longo da linha que separa o país da Áustria, Merkel resiste até ao fim: “Essa medida seria um retrocesso”, defendeu perante os deputados do seu partido. Lembrando que a Croácia e a Eslovénia já ponderam uma medida idêntica ao arame farpado erguido pela Hungria, Merkel diz que essa solução pode “aumentar a tensão” e criar uma situação que torne “necessário um novo conflito militar”.

Discussão idiota

O plano voltou a ser debatido ontem, em novo encontro da troika germânica. Em menos de uma semana, Merkel deixava de estar pressionada à direita para ter agora de responder às críticas de Gabriel sobre o que chama de “centros de detenção”. O líder social-democrata e vice-chanceler defende que “em vez de enormes zonas de detenção junto às fronteiras”, o país devia apostar na criação de “muitos centros de registo e imigração dentro da Alemanha”. Mas com a sua ‘linha vermelha’ colocada no eventual encerramento das fronteiras, Gabriel dá a entender que não vetará a medida ao considerar a discussão “idiota”, pois “só afetará uma pequena parte” dos que tentam chegar ao país.

Se conseguir convencer os social-democratas a aceitarem as medidas que acalmaram Seehofer, Merkel pode celebrar a sua década de poder com a sensação de dever cumprido: mantém praticamente intacta a sua posição face à crise migratória, assim como a sua coligação governamental. Com uma diferença – se há uma semana as críticas bávaras encostavam as suas políticas à esquerda, agora os ‘gritos’ de Gabriel voltam a colocar a chanceler como pilar do centro-direita.

nuno.e.lima@sol.pt