Sociedade

Calamidade pode prejudicar lojistas

A declaração de calamidade pública – equacionada pela Câmara de Albufeira – pode não ser a melhor forma de ajudar os comerciantes a cobrir os milhões de euros de prejuízos causados pelas violentas cheias de domingo.A opinião é do presidente da Associação do Comércio e Serviços da Região do Algarve, Vítor Guerreiro, que considera que esta opção “poderá levar as seguradoras a não quererem assumir responsabilidades”.

Além disso, acrescenta aoSOL, “calamidade é uma palavra que pode assustar turistas”. Por isso, Vítor Guerreiro defende que autarcas, comerciantes e Governo se sentem à mesma mesa para avaliar as várias soluções: “Até porque este é um problema de todos”.

Três dias depois da fúria das águas ter varrido a baixa de Albufeira, alagando lojas, restaurantes e habitações, dezenas de comerciantes ainda fazem contas à vida e muitos nem sabem se voltarão a abrir. O sentimento é de frustração, conta Vítor Guerreiro, que tem percorrido o cenário de devastação. Mas também de revolta. “As pessoas estão num edificado legalizado, têm todas as licenças, acham que está tudo bem. Mas depois não está nada bem porque lhes escondem que isto pode acontecer”, diz Vítor Guerreiro. O empresário garante que as entidades públicas conhecem há muito o risco de Albufeira, bem como noutras zonas do Algarve, onde muitos edifícios foram construídos em leitos de cheia ou ribeiras.

A autarquia diz que o problema é antigo, de ordem urbanística, e afirma que os alertas e a prevenção permitiram “evitar” desgraças maiores. Fonte oficial da câmara assegurou aoSOL que os cerca de 200 lojistas foram avisados por e-mail e SMS do risco de cheias e a prova disso é que a proteção civil só “fez 30 resgates”. Vítor Guerreiro confirma os avisos aos comerciantes, mas reconhece que nem todos os levaram a sério.

Não há rede de drenagem que aguente chuvas tão intensas

Óscar Pereira, investigador da Universidade do Algarve, também sublinha o risco de zonas como Albufeira, “onde a bacia hidrográfica está toda impermeabilizada [com construção], não há infiltração nem capacidade de escoamento”. O geógrafo reconhece que foram feitos melhoramentos na rede de drenagem nos últimos anos, mas admite que é “extremamente difícil adequar uma estrutura a este tipo de descargas”. Ou seja, não há sistema que suporte tanta chuva, em tão pouco tempo e a escorrer tão depressa. A solução é “desafetar a zona de cheia, algo com efeitos sociais, económicos enormíssimos”.

rita.carvalho@sol.pt