Politica

Renovação Comunista assinala ‘enorme viragem’ após 15 anos a reclamar convergência

O presidente da Renovação Comunista, Paulo Fidalgo, congratulou-se hoje com a "enorme viragem" que representa o acordo entre PS, PCP, BE e PEV, considerando que "todos modificaram o seu posicionamento" para "romper um bloqueio político" de 40 anos.

DR  

"Abre-se um novo ciclo político. Sabemos que o processo de negociação foi uma enorme viragem na situação portuguesa e percebemos que o acordo foi prudentemente baseado em pequenos passos o que é natural para 40 anos em que estivemos em bloqueio político de diálogo entre o centro esquerda e a esquerda", afirmou, em declarações à agência Lusa.

Paulo Fidalgo lembrou o papel dos fundadores da associação Renovação Comunista João Amaral, Edgar Correia, já falecidos, e os históricos comunistas Carlos Brito e Carlos Luís Figueira na reclamação "muitas vezes solitária e incompreendida" de uma convergência entre os partidos da esquerda.

"Sem eles, sem a sua persistência, num trabalho quase isolado, muito incompreendido pelas forças oficiais do movimento comunista e do próprio Bloco de Esquerda que sempre tiveram leituras opostas a esta mas que felizmente a história e a força popular vieram agora proporcionar uma evolução que a todos contenta e a partir de agora somos todos vencedores", disse.

Questionado se considera que o PCP e o BE deviam estar representados no governo liderado pelo PS, Paulo Fidalgo sustentou que "seria preferível que estivessem representados" mas isso "não é um elemento decisivo".

"Era preferível que estivessem representados, mas também depois da grande viragem política posso perceber que não é prudente dar esse passo já. O compromisso com a governação seria mais claro. O governo contaria com mais apoio mas não é um elemento decisivo", disse.

O presidente da Renovação Comunista advertiu que o acordo entre o PS, BE, PCP e PEV "precisa de mais aprofundamento" para a construção de "uma alternativa de futuro" para além da resposta a "necessidades imediatas sociais e económicas" do país.

Paulo Fidalgo considerou que "todos modificaram sensivelmente o seu posicionamento" para chegar a um acordo e destacou em primeiro lugar "mudanças diretivas no PS desde que José Sócrates deixou de ser primeiro-ministro" e "um intenso debate no PS" mas também "mudanças importantes no BE e no PCP" que tinham "leitura diversa" sobre a necessidade de uma convergência à esquerda.

Outro ex-militante do PCP, que esteve na fundação da Renovação Comunista, Cipriano Justo, destacou que "houve naturalmente mudanças" que "não podem ser desligadas da crise económica e social que o país viveu nos últimos anos".

"PCP e BE consideraram que se não se dispusessem a verificar a possibilidade de entendimentos com o PS iríamos ter novamente um governo de direita. Houve alterações de orientação que se devem a alterações concretas no terreno", sublinhou, contactado pela Lusa.

"Tanto o PCP, como o BE e o PS fizeram uma leitura acertada sobre o que devia ser feito e as respostas que deviam ser dadas. Só podemos dar-nos por satisfeitos e por assinalar efusivamente a situação política que atualmente está criada", acrescentou.

O movimento que deu origem à atual associação política Renovação Comunista nasceu em 2000, agregando na altura centenas de militantes do PCP que exigiam mudanças de rumo e de estratégia do partido e enfrentaram processos disciplinares, que acabaram em várias expulsões.

João Amaral e Edgar Correia foram os principais dinamizadores do movimento que agrega atualmente, entre os inscritos, o histórico dirigente do PCP Carlos Brito, Carlos Luís Figueira, Cipriano Justo, e Paulo Fidalgo.

Os membros do Comité Central do PCP, reunidos no domingo, foram unânimes na aprovação do comunicado final do encontro, que inclui o acordo de viabilização de um Governo PS.

O líder do PCP, Jerónimo de Sousa, assegurou que os comunistas contribuirão para "uma solução duradoura" e, desafiado a especificar tal duração, garantiu que um futuro executivo liderado pelo secretário-geral do PS, António Costa, tem condições de "entrada em funções" para adotar uma "política que crie uma solução duradoura na perspetiva de uma legislatura", pois, "enquanto o regimento não for alterado, uma legislatura será de quatro anos".

Lusa/SOL