Cultura

Força presente

Trabalhar a memória. Tal como Tiago Rodrigues em 2010, Clara Andermatt em 2011, Mónica Calle em 2013, João Galante e Ana Borralho em 2013 e Jorge Andrade (Mala Voadora) e Tim Etchells no ano passado, quando recebeu o convite para coreografar a Companhia Maior, Filipa Francisco decidiu criar um espetáculo sobre a memória. A idade avançada dos intérpretes (têm todos mais de 60 anos) assim o ditava, pensou antes de os conhecer. Com o que a coreógrafa não contava era com uma autêntica «rebelião» quando lhes propôs o tema. Em vez de olhar para o passado, explicaram-lhe, queriam vincar o presente. Trazer para palco a vida ativa que levam, numa sociedade que os chama a participar sempre que lhe convém (para cuidar dos netos, por exemplo), mas depois considera-os ‘peças de museu’ quando olha para a (suposta) fragilidade dos seus corpos.

Filipa Francisco - que tem feito um trabalho de investigação e criação com não artistas, como os reclusos do Estabelecimento Prisional de Castelo Branco ou jovens da Cova da Moura - partilhava do preconceito. Mas nesse primeiro encontro testemunhou a «energia» de cada elemento da Companhia (alguns têm um passado artístico, outros não) e a palavra ‘força’ impôs-se.

Como faz em todos os projetos, a coreógrafa pediu-lhes, então, para improvisarem com estímulos de pujança e robustez na mente, deixando-se a si «levar pelo que acontecia nos ensaios». Aos poucos, foi isolando momentos individuais de cada um dos 18 elementos, partindo do coletivo para encontrar o singular.

Criar por camadas

É, por isso, que vemos um solo de Kimberley Ribeiro (antiga bailarina da CNB), retirado de La Mesa Verde (1932), «a primeira coreografia considerada política» de Kurt Jooss; um monólogo de perguntas tão inconsequentes como ‘a esperança é o alimento da alma?’ ou ‘tens muitos desgostos com o Facebook?’; um caminhar pesado em grupo, em jeito de marcha, a sugerir a angústia de quem foge da guerra e procura refúgio noutro país.

«Há aqui várias camadas. A força foi o mote para criar, mas como eles trouxeram muitas ideias e coisas pessoais, ficámos com um amontoado de cenas a que tínhamos de dar coerência. Como coreógrafa, o meu papel foi levá-los para o meu mundo, que é o da dança, e dar uma fisicalidade a tudo o que acontece», comenta.

A coesão é alcançada através de um jogo constante entre indivíduo-coletivo, coletivo-orquestra, movimento-som. Divididos em dois grupos - intérpretes e orquestra -, a música conta tanto a história como o texto. E, tal como a coreografia, foi o inesperado que ditou o encontro. «Quando decidi que tocariam ao vivo, convidei o António Pedro para dirigir a parte musical e resolvemos ensaiar em separado. Quando os juntámos pela primeira vez, não explicámos nada para ver o que acontecia. A verdade é que esse primeiro encontro ditou a estrutura toda. Foi tão intuitivo que aquilo que precisava de estar lá, estava lá».

Esta Força pode ser vista no Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém hoje e amanhã, às 21h, e no domingo, às 16h.

alexandra.ho@sol.pt