Opiniao

A ‘santíssima trindade’

O XX Governo Constitucional tinha a morte anunciada desde a véspera do debate no Parlamento, quando o comité central do PCP decidiu apoiar a fuga em frente de António Costa, disposto a tudo para iludir a derrota de 4 de outubro.

A política faz-se, como na vida, com coragem ou negando a realidade. A encenação montada em São Bento, recorrendo à soma aritmética de esquerdas antagónicas que sempre se combateram, poderá ter um horizonte limitado, mas já começou a fazer estragos.

A Bolsa afundou - castigando os bancos em particular -, e os juros da dívida ficaram nervosos. O país já está a sofrer os efeitos desta aventura irresponsável.

É nestes momentos que convém não esquecer que António Costa derrubou António José Seguro, à pala deste ter somado vitórias eleitorais por “poucochinho”. E não foi capaz de reconhecer a sua derrota - que não foi por ‘poucochinho’ -, preferindo arrastar o PS e o país para o ‘buraco negro’ de uma aliança de contrários.

A recuperação que o país ensaiava (depois de suportar, estoicamente, a austeridade provocada pelos desvarios dos governos socialistas de Sócrates, dos quais António Costa nunca se distanciou, até por neles ter participado) vai dobrar a finados, à grega, com outro resgate à vista, se for por diante o despesismo anunciado. Para Viriato Soromenho Marques, um académico da área socialista, os compromissos assumidos pelo PS à sua esquerda “mais parecem listas de compras”.

A bancarrota da qual estivemos próximos pela mão de Sócrates - que voltou a passear impante a sua ‘narrativa’ - regressa num ápice, se ninguém travar o cabaz comprado por António Costa.

O derrube do Governo da coligação estava escrito nas estrelas. E no Parlamento, que se transformou numa “casa assombrada” - como escreveu, certeiro, António Barreto no DN.

O perfume do poder exige obediência, até entre aqueles de quem se esperava um genuíno sobressalto na bancada do PS. O rebanho sobrepôs-se à consciência.

No primeiro dia do debate do Programa do Governo foi penoso ver António Costa, sentado na primeira fila da bancada do PS, refugiado num sorriso postiço, fugindo ao confronto parlamentar.

Encostado às cordas pelo PCP, o Bloco e até pelos Verdes (versão ecologista do PCP), Costa ajoelhou-se no ringue. E recolheu aos camarins amparado pelos adversários.

Depois, às escondidas, no Parlamento, em delegações separadas, formalizou os memorandos com a nova troika. Longe de olhares profanos.

O arranjo é tão contranatura, que até Francisco Louçã - na pose de ‘comentador’ contratado da SIC -, se apressou a duvidar da eficácia do artificio tripartido.

Apesar da súbita vocação da pupila de Louçã para ser porta-voz das esquerdas - e do PS em particular -, percebe-se que não foi por acaso que os três nunca conseguiram sentar-se à mesma mesa.

Costa andou em bolandas. Mas não se importou. Bastava-lhe para seu consolo a coreografia nos media, dançando a música filtrada por debaixo da porta, enquanto o essencial do Programa de Governo da coligação, legitimado pelo voto, era olimpicamente ignorado e remetido para a ‘cesta’ secção…

Pode imaginar-se o pasmo do país. De um lado, a obsessão de Costa em cavalgar um governo, sem ter sido eleito para essa montada. Do outro, Passos Coelho e Paulo Portas investidos num Governo sufragado pelo voto, mas condenado à nascença. Caricato.

Em 40 anos de democracia, faltava esta experiência: um vencido nas urnas que teima em ser primeiro-ministro, às cavalitas do PCP e do Bloco, sequestrando o veredicto do voto. Um casamento de conveniência, com divórcio garantido à primeira censura. Ridículo.

Mas esse é o problema do PS. O problema do país é o que aflige, por exemplo, os 115 empresários e gestores que assinaram um manifesto onde lamentam a falta de transparência em todo o processo negocial à esquerda e temem que a recuperação que começou a sentir-se possa “estar posta em causa pela incerteza que Portugal atravessa”.

O primeiro subscritor interroga-se mesmo “como é que podemos não nos preocupar com a ideia de um governo apoiado por dois partidos que são estatutariamente contra a iniciativa privada?”. Tem razão.

O ‘milagre’ do fim da austeridade, proclamado por Costa, deverá pertencer ao domínio da ficção, inspirada nalguma poção mágica, da qual só ele tem o segredo, como o druida do Astérix. Ou, então, homenageia Passos Coelho por ter conseguido encher os cofres encontrados vazios.

Está provado que o Presidente não vai ter um final de mandato tranquilo. Num regime que não mudou de natureza, o semipresidencialismo precisa de ser levado a sério.

Cavaco jurou respeitar a Constituição, mas não está de mãos atadas diante do golpe palaciano, de uma impostura forjada pela ‘santíssima trindade’ na ‘capela’ do Rato…