Internacional

O atentado no Líbano por quem o viveu

Haydar é um menino libanês de três anos com o sonho de conhecer Cristiano Ronaldo. Na última quinta-feira, ficou sem pais e está num hospital em Beirute, vítima das explosões da semana passada, provocadas pelo grupo autodenominado Estado Islâmico.

Na quinta-feira, duas explosões mataram pelo menos 43 pessoas num bairro do sul de Beirute, Bourj al-Barajné, a poucos metros da casa de Ali Diab, um motorista libanês de 27 anos.

Ali estava a caminho de casa quando soube das explosões e telefonou para os pais, que estavam bem. Depois ligou aos amigos e nenhum atendeu. Ali perdeu três amigos no atentado, um deles o seu melhor amigo.

Hoje, ao recordar os momentos da semana passada, não conseguiu evitar a emoção, da angústia da procura dos amigos, das motas que usavam, encontradas sem ninguém, e depois a notícia. Prefere começar por mostrar uma fotografia de Haydar tirada no hospital, falar de como agora ficou sozinho, só depois voltando às 18:00 de quinta-feira, quando as mesquitas estavam cheias.

E explica, a seguir, que a essa hora os dois terroristas, para ele sem dúvida do grupo Estado Islâmico, chegaram de motorizada, estacionaram junto de uma padaria e afastaram-se. Pretendiam fazer explodir a mota, esperar que várias pessoas se aproximassem para ver o que aconteceu e, depois, um deles fazer-se explodir. O segundo faria o mesmo quando chegassem as ambulâncias.

O objetivo inicial dos terroristas (eram cinco mas um foi apanhado e dois desistiram) era rebentar-se no hospital, conotado com o Hezbollah, mas, devido às medidas de segurança, não conseguiram chegar ao local, optando depois por um sítio movimentado.

Conta Ali que, com o rebentamento da motorizada, um dos terroristas que se ia fazer explodir morreu, pelo que o segundo esperou que chegassem mais pessoas e fez-se explodir depois. Matou mais de 40 pessoas mas teria matado centenas se Adel, que saia da mesquita, não se tivesse atirado para cima dele quando o viu a preparar-se para se detonar. Com o seu corpo, e a sua morte, protegeu muitas pessoas.

Mas não os pais de Haydar ou os amigos de Ali. "Foi um dia muito triste, encontrávamo-nos sempre, fumávamos 'chicha', bebíamos café".

E depois o olhar de Ali fica ausente. "Porquê? Não temos resposta. Porque iam a passar na rua? Há seis meses um posto de controlo foi destruído. Porquê? Tenta-se matar qualquer pessoa!".

Sente-se mágoa no olhar de Ali, mas também revolta. "Eu e toda a gente no sul de Beirute, se o ISIS [grupo Estado Islâmico] vier, nós lutamos contra eles". E acrescenta: "Eu luto, não os deixo levar a minha família, a minha mãe".

E a seguir, ar decidido, afirma: "Eu sou muçulmano, mas se eles dizem que são muçulmanos então eu não sou muçulmano. O Islão é pela paz, pela entreajuda, pelo amor".

Youssef, o seu melhor amigo, tinha 21 anos (os outros dois 26 e 28). Ali estava a ajudá-lo na procura de emprego e agora reza por ele, como reza por todas as vítimas do terrorismo em França, do passado fim-de-semana.

"Não conheço Paris, nem sei apontar no mapa onde fica, mas tenho de rezar, de condenar, porque são seres humanos", diz, antes de avisar: "Primeiro disseram que os bombistas eram palestinianos mas não eram, é para criar confusão, têm-me avisado que estão a tentar provocar uma guerra no Líbano".

Ali cala-se, mostra fotografias do amigo, do menino também. Diz que Haydar continua no hospital, que ficou cego de um olho. Talvez o seu sonho continue intacto.

Lusa/SOL