Cultura

Lisboa pegou de estaca

Há muito que os funcionários do Banco de Portugal (BP) se habituaram a ouvir uma anedota, em voga pelo menos desde 2012, quando a antiga Igreja de S. Julião, na posse do banco desde os anos 30, foi restaurada. Ali vai funcionar o já anunciado Museu do Dinheiro e a piadola que já os deixa indiferentes é óbvia: com a falta de dinheiro que existe no país, será preciso ir vê-lo a um museu.

Do local, que serviu muitas funções absolutamente profanas até chegar a este destino, o de um museu, também se disse que era a igreja ‘da Nossa Senhora dos Mercedes’, por ter servido, durante o seu complicado trajeto histórico, também de parque de estacionamento.  Mais uma vez, é com um sorriso amarelo e aquele completar de frase condescendente que indicia pouca surpresa que o interlocutor será por certo recebido.

Enquanto se aguarda, então, pelo museu que vai abrigar o último objeto de desejo da cultura ocidental, o local já se anima de património. Depois da descoberta e da preservação da Muralha D. Dinis – que terá servido de fortificação à então entrada do rio, numa praia fluvial onde hoje se situa a Praça do Município, e que se prolongaria até à rua da Madalena – podemos visitar como é a Baixa pombalina por baixo.

A exposição (Re) Fundações de Lisboa – Estacaria Pombalina na Sede do Banco de Portugal mostra as míticas estacas nas quais se assentam as fundações dos edifícios pós-terramoto.

A ideia era mostrar um dos ex-libris das escavações iniciadas em 2010 aquando da recuperação daquela dependência do BP, que integraram desde o início (em 2008, com as primeiras sondagens de diagnóstico) uma equipa de arqueólogos que pôde analisar este rico subsolo. “Foi um segredo bem guardado”, explica o arqueólogo Artur Rocha, “mas agora o trabalho está concluído e chegou a altura de mostrar os resultados. Começámos a escavar em 2010 e em 2014 a Muralha estava inaugurada e temos uma exposição temporária e uma série de documentação produzida sobre a escavação, e até de teses de mestrado e doutoramento”.

Mas não se pense que a exposição é para académicos entendidos nas artes de Indiana Jones. O que importa, antes de tudo, é mostrar ao visitante – que não tem de pagar para visitar a mostra – como é que a cidade está assente num terreno instável num sistema que é tão artesanal quanto maciçamente eficaz. “Há o mito de que Lisboa só teve estacas depois do terramoto de 1755. Não é verdade e esta escavação vem demonstrar isso”, acrescenta Sara Barriga, coordenadora do Museu do Dinheiro.

Por outro lado, continua, “não foi uma surpresa encontrar as estacas” aquando da escavação, já que elas sustentam praticamente todas as paredes-mestras da Baixa pombalina.

A ideia de conter as estruturas dos edifícios – principalmente em terreno u instável, como o da Baixa, ganho ao longo de séculos ao Tejo – desta maneira remonta já aos romanos. Mas os engenheiros do Marquês de Pombal “estandardizaram-no, levando-o a uma escala gigantesca, por toda a Baixa”, completa Rocha.

Para as instalar, os pedreiros serviam-se de maço e bugio, explica Rocha. O arqueólogo acrescenta uma curiosidade – esta pode ser uma das origens da expressão ‘vai bugiar’, ou seja, mandar as pessoas baterem estacas, com bugios...

No espaço expositivo, ficamos com a noção de como a capital subiu em altura. Aproveitando o pé direito alto daquela sala, o visitante é convidado a subir a um balcão e ver, in loco, a distância do chão em relação à estrutura das estacas, no subsolo, uns três metros de altura.

Logo à entrada, um desenho dá conta de que à medida que subimos, ‘calcamos’ tempos históricos que se confundem com a existência do próprio território, ainda antes de estarmos na capital de um país chamado Portugal. Ao nível das estacas, estaríamos na Idade Média. Ainda antes, a maior profundidade, temos os períodos romano e islâmico. Subindo, chegamos ao solo, aos tempos atuais.

Durante a escavação, o subsolo revelou tesouros de todos estes tempos. O que aqueles poucos metros quadrados revelavam era, afinal, um forte testemunho de três civilizações que gostaram dos ares de Lisboa e por cá se fixaram. Artur Rocha completa: “Tivemos a confirmação da presença de mais de 100 mil fragmentos de cerâmica, temos ainda a Muralha” e vestígios da época medieval.

O visitante pode então seguir para a Muralha D. Dinis, preservada noutro espaço do museu, com vários exemplos dos vestígios encontrados. Num poço da Muralha encontramos uma ânfora e um Santo António decepado, ‘vítima’ das superstições da época, segundo as quais as noivas que não tivessem sorte ao amor vingavam-se em imagens do santinho...

Os cantos da História não cessam de surpreender arqueólogos e os próprios habitantes e turistas, que podem visitar a estacaria até 27 de fevereiro.

ricardo.nabais@sol.pt