Cultura

O velhinho Victoria & Albert renova-se

Esta quarta-feira, o Museu Victoria & Albert (V&A) irá reabrir as galerias que abrangem o período das artes europeias entre 1600 e 1815, cujo projeto custou 12, 5 milhões de libras e faz parte do ambicioso plano de redesenho do maior museu de artes decorativas do mundo. O plano global de renovação do museu de Londres, inaugurado em 1852, é conhecido como Future Plan e foi financiado pelo Heritage Lottery Fund. O projeto de renovação foi conduzido pelo gabinete de arquitetura ZMMA, que desenhou um aparato moderno, mais eficaz e permitindo uma melhor acessibilidade. Um dos objetivos do novo V&A foi o de mostar uma Europa mais vasta, com relações com o resto do mundo e pondo em evidência o comércio de escravos no Atlântico.

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Na secção que abrange do século XVII ao XIX, quatro grandes galerias irão reapresentar a coleção em sequência cronológica, havendo ainda três salas mais pequenas sobre aspetos específicos: colecionismo, o pensamento do iluminismo e entretenimento e glamour. Outras três salas decoradas à época ilustram a vida privada desses tempos, incluindo um quarto francês do século XVII, o escritório de Madame de Sérilly e uma sala espelhada da Itália do século XVIII. Muitos dos objetos em exposição foram feitos pelos melhores artistas e artesãos europeus para grandes figuras como Luís XIV, Maria Antonieta e Catarina, a Grande. Entre os mais de mil objetos das galerias figuram quatro peças portuguesas. E há mais Portugal no V&A: o filme que abre a exposição, sobre o contexto do barroco, foi filmado em Lisboa, Coimbra e Mafra, mostrando os desenvolvimentos tardios do estilo nascido em Roma.

Lesley Miller, reputada especialista em têxteis, moda e arte da época e curadora-geral responsável pela renovação e redesenho das galerias de 1600 a 1815, respondeu a algumas perguntas da Tabu.


Como descreve a renovação das galerias?

De acordo com o grande plano de renovação do V&A, as galerias desenhadas por Sir Aston Webb regressaram à glória arquitetónica de 1909. Mais de mil objetos foram pesquisados e recuperados para a exposição que foi organizada cronologicamente em mostras temáticas. E o maior número possível de objetos estará em exposição. São peças da coleção do museu e que vão da miniatura à grande peça, das caixinhas de ouro a grandes tapeçarias com temas dramáticos. E apesar de a maior parte das peças terem sido feitas em França, tentámos representar uma Europa que se estende de Portugal à Rússia, da Espanha à Suécia. As possibilidades de leitura das galerias são em várias camadas, desde o tradicional texto às versões digitais possibilitadas pela instalação de rede wi-fi no museu.


Quais foram as linhas condutoras?

Há três mensagens principais ao longo das galerias. Pela primeira vez, os europeus exploraram e colecionaram recursos de África, da Ásia e da Améria para produzir as suas peças. A liderança na arte e na criação de mobiliário e peças decorativas passou de Itália para a França - por volta de 1660. E, por último, o estilo de vida tornou-se semelhante àquele que conhecemos nos dias de hoje (os mercados e o comércio global desenvolveram-se; beber chá, café e chocolate tornou-se um hábito; estabeleceu-se o ciclo de uma moda sazonal, tal como o conhecemos atualmente).


Quais são as peças mais surpreendentes?

As pessoas que estão familiarizadas com as artes decorativas deste período irão reconhecer a grande qualidade e a extraordinária sofisticação das obras, incluindo peças como a escultura de Neptuno e Tritão, de Bernini, o retrato de Madame de Pompadour, de François Boucher, e a lareira de ferro com os ornamentos feitos na Real Fábrica de Armamento de Tula, perto de Moscovo. Alguns visitantes podem achar surpreendente que tenhamos escolhido peças mais modestas para dar conta  da disseminação do gosto para além da corte, tais como um simples fato de lã e um lenço de algodão barato com o desenho do primeiro voo de balão sobre as Tulherias, em Paris, em 1783. Em alguns casos, o processo de exibição das peças será inovador. Por exemplo, uma parte do serviço de prata feito entre 1813 e 1816 com desenho do artista da corte portuguesa Domingos António de Sequeira como presente ao duque de Wellington tem uma presença explêndida no final da sequência de galerias. E a estrutura em troféu desenhada pelo gabinete ZMMA e criada pelas equipas técnicas do V&A é inesquecível, resplandecendo monumentalidade nas peças que Napoleão encomendou para o seu novo e condenado Império.


Quanto tempo levou este processo de redesenho?

Cinco anos, desde a escolha da narrativa e dos dispositivos de exposição, restauro de peças, remoção dos acrescentos dos anos 70, ao restauro arquitetónico, construção das vitrines e instalação.


Como é que as peças portuguesas que vão ser expostas chegaram à coleção do V&A?

O painel de azulejos de cerca de 1720-30 foi adquirido em 1973 no antiquário Solar-Albuquerque & Sousa, em Lisboa. De acordo com o vendedor, o painel veio da Sala da Música, da Quinta Formosa, em Lisboa. A baixela para o Duque de Wellington foi feita para glorificar a Aliança entre a Grã-Bretanha, Espanha e Portugal e para celebrar a vitória destes três estados sobre as tropas francesas de Napoleão, entre 1808 e 1814. Para os portugueses, as Guerras Peninsulares foram guerras de independencia e este foi o seu grande presente ao homem que assegurou as campanhas, o primeiro duque de Wellington. A baixela foi comprada com a ajuda do National Heritage Memorial Fund e do Art Fund, em 1997. E há ainda duas peças indo-portuguesas nas galerias: um Cristo crucificado e o Monte do Bom Pastor, que foram ofertas feitas ao museu, uma em 1927 outra em 1949.

telma.miguel@sol.pt