Sociedade

‘Parto em casa é totalmente condenável’

Todos os anos, mais de 600 crianças nascem fora dos hospitais, algo que se traduz como “inaceitável” para o diretor Geral da Saúde. “O parto em casa é totalmente condenável e as mulheres que optam por essa via apenas o fazem por falta de informação ou de literacia”, acrescenta.


Francisco George confirmou ao SOL a posição já assumida pela Direção-geral de Saúde (DGS) que durante a apresentação do Programa Nacional para a Vigilância da Gravidez de Baixo Risco fez questão de alertar para os riscos de uma intervenção do género a acontecer fora do ambiente hospitalar. “Uma doula não chega, uma enfermeira não chega”, garante. Para o responsável, o conceito de parto em segurança implica que aconteça num bloco de partos devidamente equipado e que conte com a presença de obstetras, anestesistas, pediatras e neonatologistas.

Apesar da posição crítica da DGS, a verdade é que, se no ano 2000 tínhamos 480 crianças a nascer fora dos hospitais, dados do INE relativos a 2013 fazem subir esse número para 602.

Francisco George recusa-se a falar em moda ou tendência, mas admite que é uma prática cada vez mais comum. “São correntes anti-saúde e que implicam andar para trás na nossa história”, resume.

O diretor-geral da Saúde recorre a um estudo norte-americano para dar força à sua posição: em cada três óbitos de crianças nascidas em casa, dois seriam evitáveis se o parto fosse feito no hospital. “Cá não temos análises sobre o tema, mas não será diferente e diria até pior”.


Ordem dos Enfermeiros desvaloriza o alerta

O presidente do colégio da Especialidade em Saúde Materna e Obstétrica da Ordem dos Enfermeiros, Vítor Varela, discorda totalmente que este estudo. “O senhor diretor-geral da Saúde esqueceu-se de mencionar que os números referidos nesse estudo norte-americano, datado de 2010, eram referentes a partos realizados em casa onde houve mortes fetais porque havia uma patologia associada”.

Para o enfermeiro especialista em saúde materna e obstétrica “estes partos obviamente não se fariam em ambiente domiciliário na Europa”. “Se o senhor Francisco George quer falar de estudos, há um deste ano feito na Grã-Bretanha que indica uma realidade contrária. Neste estudo, foi feita uma comparação claríssima: analisaram mil partos realizados em ambiente hospitalar, mil partos no domicílio e mil partos realizados em unidades de baixa intervenção lideradas por parteiras. Resultado do estudo: não há diferenças nos números de mortes dos bebés”.

No entanto, Vítor Varela diz que a Ordem dos Enfermeiros não defende os partos no domicílio, dizendo que esse domínio será uma escolha pessoal e que só deverá ser ponderado quando é uma gravidez de baixo risco: “Quando fizemos no passado as recomendações direcionadas para as pessoas que preferiam partos no domicílio, a Ordem dos Médicos e a DGS acusaram-nos de defender o parto em casa. Apenas estávamos a defender a competências dos enfermeiros especialistas de saúde materna e obstétrica, que têm as qualificações para o fazer”.

No entanto, o presidente do colégio diz que é do conhecimento do diretor-geral da Saúde, Francisco George, que mais de “50% dos partos em casa são realizados por médicos”. E admite que, a nível pessoal, ponderaria que um familiar seu desse à luz em casa. “Imaginemos que tinha uma filha grávida. Se tudo estivesse bem durante a gravidez, se essa fosse a opção dela e se eu como enfermeiro especialista verificasse que ela tinha as condições necessárias não só do ponto de vista da estrutura obstétrica mas também comportamental, obviamente apoiaria”.


‘Os partos em casa são uma fantasia’

Para Luís Graça, presidente da Sociedade Portuguesa de Obstetrícia e Medicina Materno-Fetal (SPOMMF) e diretor do serviço de obstetrícia do Hospital de Santa Maria, escolher um parto domiciliário em detrimento do hospitalar é deitar fora o privilégio de ser atendido por um serviço com uma das taxas mais baixas de mortalidade perinatal do mundo: “As pessoas que não queiram esse benefício, ou seja, ter um bebé no hospital, são livres de o fazer. Têm é que assumir os riscos”.

E os riscos são bastantes, na opinião do médico especialista. “Não estou a dizer que há bebés que não nasçam sem problemas em casa, claro que há. Simplesmente, quando a situação de risco ocorre durante o trabalho de parto, se a mulher estiver no hospital a situação é resolvida imediatamente. Se estiver em casa, é mais difícil socorrer”.

O médico diz que, mesmo no caso das gravidezes de baixo risco e sem outros fatores associados, “o risco pode acontecer durante o parto”. Por isso, não só desaconselha nascimentos em casa como deixa uma lembrança: “Antes da grande mudança que houve em Portugal em meados dos anos 80, com o encerramento de cerca de 160 locais onde se faziam partos sem condições, a mortalidade dos bebés diminuiu brutalmente. Obviamente que isto aconteceu por um motivo. Há sempre pessoas que têm a convicção de que ser diferente é importante e que o natural é que é bom. Muito bem, não estou nada contra isso. Mas tenham noção que uma das consequências para estes partos no domicílio é a que estes bebés, se não forem devidamente monitorizados durante o parto, podem morrer”.

No entanto, o presidente da SPOMMF considera que esta é uma situação marginal em Portugal, o que não lhe retira importância. “Acho que isto é, de facto, uma situação residual. O ano passado houve 82 mil partos e desses apenas 600 nasceram fora do hospital. É um número muito pequeno mas é um número preocupante. Cada mulher que morra ou que fique com o seu bebé numa situação neurológica muito deteriorada por o parto ter prosseguido em casa é muito grave. Não interessa muito que tenham sido 600, 500 ou 200. Interessa é que vai haver bebés que vão morrer ou ficar com a o seu futuro neurológico danificado por causa desta fantasia do parto em casa”.

Apesar de ser uma situação excecional e não a regra, Luís Graça admite sentir uma apreensão especial baseada num passado recente: “Em Leiria tivemos este ano, no mesmo mês, três casos de transferências de mulheres em situação muito grave que tiveram de ser operadas de emergência”. Estas situações aconteceram alegadamente todas com a mesma parteira, que não tinha formação médica e teria tirado um curso de parteira nos EUA que não tem qualquer reconhecimento do país.

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