Sociedade

A morte de David no São José “não foi caso único”

Quando David Duarte chegou ao Hospital de S. José, em Lisboa, com um “aneurisma roto”, havia (“por mero acaso”) um neurocirurgião para operá-lo, havia uma anestesista e também lá estavam os assistentes operacionais. Faltavam três enfermeiros (um instrumentista e dois circulantes) para avançar com a intervenção


Os enfermeiros tinham saído às 20 horas e só chegariam na segunda-feira de manhã, pouco depois de o jovem de 29 anos ter morrido à espera da cirurgia. Caso único? Longe disso. Essa roleta russa (esperar ou operar) dura há mais de um ano e meio, altura em que foram aplicados cortes salariais na Função Pública.

Contactado pelo Hospital de Santarém, S. José (HSJ) prontificou-se a receber David Duarte. Fonte do conselho de administração da primeira unidade hospitalar explica ao i que, depois de o jovem ter sido observado, a médica que o recebeu ligou para o colega do HSJ. “Existiu um contacto prévio à deslocação entre os médicos e discutiu-se o quadro clínico”, refere. Nesse contacto ficou definido que o jovem seguiria de imediato para Lisboa, com um quadro de hemorragia cerebral mas sem informações sobre a origem desse problema.

No caminho, e como está protocolado, o INEM reconfirma o destino com o HSJ. Nova luz verde, “dada pelo neurocirurgião de serviço na unidade hospitalar que nos foi indicada como de referência”, garante ao i o INEM.

Mais dinheiro Quando David Duarte chega à capital surgem os problemas. Faz-se um diagnóstico mais aprofundado e percebe-se que o jovem vem com um diagnóstico de “aneurisma roto”.

Passo seguinte: intervenção. A equipa estava quase completa. Havia até um neurocirurgião de escala habituado a este tipo de intervenções “altamente complexas”. Mas não havia enfermeiros.

Até há cerca de dois anos, a situação era diferente. Havia uma equipa que assegurava os fins de semana e feriados e que era chamada para operar nas situações mais delicadas.

Esse modelo caiu com os cortes salariais aplicados pelo anterior governo. A partir daí – e porque os profissionais de saúde se recusam fazer horas extraordinárias ao valor proposto pelo governo – deixou de se escalar equipas base para sábado e domingo (40 para os enfermeiros, 35 para os médicos). Entre as equipas de neurologia do HSJ corre até a máxima: “Se tivermos que ter um AVC, que seja de 2.ª a 6.ª, e só até ao final da tarde.” Fora desse horário, a probabilidade de receber os tratamentos necessários baixava drasticamente.

“O problema foi não quererem remunerar os profissionais” de acordo com os valores em vigor antes dos cortes, admite fonte do centro hospitalar.

Naquela sexta-feira de dezembro, e nos dias seguintes, havia duas hipóteses: procurar outro hospital que o recebesse ou esperar. Fonte médica refere que seria possível deslocar o doente para outra unidade (e Santa Maria seria uma opção). O principal hospital do país chegou a ser contactado para receber David Duarte, mas o problema mantinha-se: dificuldades para reunir equipas em regime de horário extraordinário. Preferiram esperar.

Consequências Depois de vários responsáveis hospitalares, incluindo administradores, terem apresentado a demissão, o HSJ veio ontem revelar que “abriu um processo de inquérito para apuramento dos factos ocorridos relativamente ao caso do doente falecido”.

Será o terceiro inquérito, a juntar aos da Inspeção-geral das Atividades em Saúde (IGAS) e ao do Ministério Público. Mas a posição dos profissionais e as consequências para os utentes dos serviços de saúde eram sobejamente conhecidas entre os responsáveis hospitalares.

“A maioria chega a 2.ª feira” Há mais de um ano que não havia turnos de “prevenção”. E, nesse período, houve outras situações com o mesmo fim que a do jovem. “A maioria dos casos chega à segunda-feira, este foi um dos que não chegaram”, refere fonte do Centro Hospitalar Lisboa Central, a que pertence o HSJ, alertando que no último ano houve outros casos em que um atendimento atempado poderia ter evitado a morte.

As recomendações internacionais apontam uma intervenção nas primeiras 24 horas após a rutura da artéria. Essa resposta rápida permite reduzir os riscos associados a este quadro clínico. David Duarte esperou quase 60 horas por uma cirurgia.  

pedro.rainho@sol.pt