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Rui Veloso. “Já cantei o Chico Fininho e o Porto Sentido mais de mil vezes”

Deu o primeiro concerto há 35 anos. “Em Lagos, 18 de Dezembro de 1980. Havia uns estrangeiros e eu estava para lá no meio”. Agora acaba de editar um álbum duplo comemorativo dos 35 anos de carreira. “O Melhor de Rui Veloso” serviu de pretexto para uma conversa no estúdio que construiu ao longo dos últimos 22 anos numa rua pacata de Vale de Lobos, perto de Sintra. Lá dentro há uma parede cheia de mensagens de gratidão rabiscadas por músicos que por ali passaram e, para lá de uma porta encimada por uma luz que se acende quando estão a decorrer gravações, desemboca-se numa sala comprida com tudo o que é preciso para fazer música: vários teclados, mesas de mistura, bancos, uma bateria, amplificadores e guitarras. Muitas guitarras.

 

Tem momentos de epifania?

Não lhes chamaria isso. Mas posso dizer que uma vez vinha no carro do Porto para Lisboa a ouvir o Alice do Tom Waits e ficaram-me umas coisas na cabeça. Cheguei ao estúdio, sentei-me ao piano e fiz o Primeiro Beijo. Naquele principiozinho do Alice podes identificar uma coisa semelhante ao Primeiro Beijo. Depois cada qual vai para seu lado.

E o Porto Sentido, como nasceu?

Foi com a guitarra acústica, lá em casa dos meus pais.

Como faz? Senta-se e diz: “Agora vou compor uma música”?

Olho para a letra. Vejo a métrica, vejo o que é que as palavras me sugerem, o tempo da música. No caso do Porto Sentido tem uma certa espaceza…

Tem noção de quantas vezes teve de cantar essa música ou o Chico Fininho?

Mais de mil, seguramente. Se me puser a pensar que já toquei a mesma música mais de mil vezes é uma coisa um bocado fora do normal, mas depois ia ver o BB King e cantava as mesmas músicas tinha duzentas e tal vezes por ano durante 50 anos. Antigamente fazia-me confusão, hoje em dia já não me faz porque sei que as pessoas gostam. E quando as pessoas gostam é um momento de uma comunhão estranha entre quem está no palco e quem está a assistir. Não é para toda a gente. Por isso sou um privilegiado.

Não é chato o público pedir para cantar sempre as mesmas canções?

A pessoa tem de estar preparada para isso. Se eles pedem é porque querem, eles é que mandam. É como o Sinatra, se ele não cantava o My Way o pessoal protestava: “Pagámos o bilhete para ouvir o My Way e o New York, New York, e não cantas? Estás a brincar comigo”. As canções ficam agarradas à gente. E isso nem é nada mau, é sinal de que a malta adora. Algumas são absolutamente obrigatórias.

Mas se calhar dá-lhe mais gozo fazer uns solos de guitarra…

Já fui mais de fazer solos de guitarra. Mas gosto muito, porque o solo é de improviso, nunca se sabe o que e que vai sair e quem é curioso como eu quer sempre ver se vai fazer bem, se não se engana, se os dedos vão ao sítio. Ser músico é isso.

Os concertos dependem muito do seu estado de espírito?

Dependem. Não é muito normal, mas posso estar mais stressado porque se passou alguma coisa com um filho ou um amigo. Por exemplo, fui tocar quando morreu o Bernardo Sassetti. Estava num estado de espírito absolutamente lastimável, estava desfeito. A morte do Bernardo chocou-me muito mas tive de ir tocar. Mais emocionado, mais com a lágrima no olho, mais com vontade de beber um tinto e esquecer a coisa, mas pronto, tem de ser.