Cultura

Livro infame de Hitler já foi posto à venda na Alemanha. E esgotou em poucos dias

Mein Kampf divide livreiros de Berlim. Amazon alemã não chegou a ter obra à venda, mas vendedores associados oferecem exemplares a partir de 499 euros

Com o fim da proibição, Mein Kampf, o livro que Adolf Hitler escreveu na prisão de Landsberg após o golpe falhado de Munique, voltou a estar disponível nas livrarias alemãs. Mas só por pouco tempo. A nova edição crítica da ‘bíblia do nazismo’, preparada ao longo de anos por uma equipa de estudiosos do Instituto de História Contemporânea de Munique, esgotou em apenas uma semana. Algo que, de resto, não foi nenhuma surpresa: a tiragem inicial de 4000 exemplares nem de perto deu para satisfazer as 15 mil pré-reservas existentes.

A edição crítica surge, tal como o original, em dois volumes e custa 59 euros. Totaliza duas mil páginas e inclui 3700 notas de rodapé. “Penso que uma versão descontextualizada de Mein Kampf podia ser perigosa. Por isso esta edição anotada é bem-vinda. Ainda para mais vindo de uma das mais sérias e respeitadas instituições do seu género em todo o mundo”, diz ao SOL Timothy Ryback, autor de A Biblioteca Privada de Hitler e de As Primeiras Vítimas de Hitler, que assina regularmente artigos sobre o ditador alemão e o nazismo em periódicos como New Yorker, The Atlantic e The New York Times.

“Se me ouvissem a pedir esse livro agrediam-me”

Ryback chegou a Berlim no dia em que cessaram os direitos de autor sobre a obra. “O sentimento aqui varia muito. Alguns livreiros recordaram-me que, embora os direitos de autor expirassem, o Parágrafo 86 do Código Penal Alemão impede-a de ser largamente disseminada”, refere o autor, que fez um périplo pelas livrarias para perceber o que pensam os alemães da obra maldita de Hitler. “Numa das maiores livrarias, junto a Unter der Linden, no centro de Berlim, disseram sem problemas que pediriam o livro. Numa pequena livraria em Friedrichhain, um bairro que está rapidamente a tornar-se elegante, a empregada mandou-me procurar o livro na internet, mas depois de a convencer que os meus objetivos eram puramente académicos disse que mandaria vir uma cópia”.

Ainda assim, há zonas da cidade alemã onde poderá não ser tão fácil obter um exemplar de Mein Kampf. “Quando pedi à minha filha de 21 anos para perguntar em livrarias de Neuköln, um bairro multiétnico e de cultura alternativa, a sua resposta foi contundente: “Estás a brincar? Se alguém me ouvisse a pedir esse livro agrediam-me”.

Timothy Ryback não só leu Mein Kampf – “para efeitos de investigação”, esclarece – como teve de regressar a algumas passagens “mais vezes do que gostaria de me lembrar”. “Penso que alguém que queira compreender Hitler tem de ler Mein Kampf, independentemente de quão entediante ou horrorizante a experiência possa ser. Além de nos oferecer uma janela para o pensamento político, racial e ideológico de Hitler, há muito que pode ser deduzido pelo que ele diz e deixa de fora. Por exemplo, ele conta em pormenor a sua infância e a vida com os pais, mas nada diz sobre os seus meios-irmãos, Alois e Angela, nem sobre a irmã Paula”, nota o especialista. “Também há uma passagem interessante em que fala sobre o melhor método de leitura. Hitler compara a leitura ao preenchimento de um mosaico, isto é, uma seleção das peças de informação que podem ser usadas para preencher uma noção preconcebida”.

A edição crítica de Mein Kampf não chegou ainda a estar disponível na Amazon alemã. Contudo, há dois exemplares à venda em vendedores associados. O preço não é o mais convidativo: o mais acessível custa 499 euros e o outro exemplar atinge quase o dobro desse valor.