Desporto

Helton. O momento em que os guarda-redes resolvem jogos

90’+5’. Joga-se o último suspiro da partida e o resultado é favorável aos visitantes no Bessa (1-0). O Boavista envia uma bola longa para a área do FC Porto, Uchebo posiciona-se e assiste de cabeça o recém-entrado Douglas Abner. O jovem brasileiro, de frente para a baliza, recebe de peito e nesse preciso momento é atingido pelas costas em falta pelo central Martins Indi.

Nuno Almeida não tem dúvidas e aponta com firmeza para a marca de grande penalidade. As bancadas do Bessa explodem de alegria. O central holandês abre os braços em forma de protesto. Está inconformado. Leva amarelo. Rui Barros, de pé no banco de suplentes azul-e--branco, torce o nariz.

O próprio Abner, de 19 anos (o mais novo em campo), encarrega-se de bater o penálti e tentar levar o jogo dos quartos-de-final da Taça para o prolongamento. Soa o apito, Abner respira fundo e corre para a bola, faz a paradinha e atira de forma denunciada para o lado esquerdo. O problema é que a ousadia esbarrou na experiência de Helton (37 anos), que com uma palmada em voo na bola afastou o perigo. Corrigiu o erro de Indi e salvou a eliminatória (ficou 1-0).

Tornou-se o herói do jogo. Daqueles que não precisam de capa às costas ou máscara no rosto. Bastam umas luvas nas mãos. Mas voltemos ao jogo. O momento era para festejar, como se pode imaginar, mas o homem que já leva 11 épocas na Invicta e 327 jogos de dragão ao peito fez questão de dar uma lição de fair play. Aproximou-se do desolado Abner, que tinha ficado prostrado no relvado, e abraçou-o, pedindo-lhe para levantar a cabeça.

Até Iker Casillas, o habitual dono da baliza do FC Porto, se rendeu: “O meu herói, o nosso herói!”, escreveu mais tarde no Twitter, como legenda de uma foto com o brasileiro. Não é caso para menos. Não é qualquer um que defende um remate da marca de 11 metros. Mas e se lhe dissermos que há guarda-redes especialistas? Sim, não são avançados mas resolvem jogos.

Outubro de 2015 Em menos de 24 horas, Giorgi Makaridze passa de suplente não utilizado na derrota da Geórgia com a Alemanha (2-1) para o relvado do Estádio Marcolino de Castro, em Santa Maria da Feira, onde se disputou o apuramento para a fase de grupos da Taça da Liga. Pelo caminho, o guardião georgiano, que nem era titular indiscutível, dormiu quatro horas. As suficientes para defender dois dos cinco remates do Boavista quando foi chamado à lotaria dos penáltis, após o 1-1 no tempo regulamentar. Ainda hoje, os adeptos do Feirense recordam com saudade esse momento histórico.

O mesmo sentimento vivido em Madrid quando, em março do mesmo ano, Jan Oblak (esse mesmo, o que esteve no Benfica) saltou do banco de suplentes para defender um remate da marca de onze metros do Bayer Leverkusen e apurar o Atlético para os “quartos” da Champions (3-2). Diego Simeone bem agradeceu a lesão de Moyà, o habitual titular.

Não são casos únicos. A história está repleta de outras figuras. Diego Alves, o guarda-redes do Valência, por exemplo, tornou-se o melhor defensor de penáltis dos últimos 25 anos na Liga espanhola – já superou recorde do emblemático Andoni Zubizarreta (16). “É fantástico que os outros jogadores já tenham algum receio de mim”, reconheceu o brasileiro.

Em Itália, o esloveno Samir Handanovic chegou a defender seis grandes penalidades consecutivas na última época. É um autêntico talismã para o Inter de Milão. E ainda temos de destacar Jean-Marie Pfaff, o mítico belga do Bayern que terminou a carreira com 64,3 por cento de eficácia na hora de travar remates da marca de 11 metros. Mas nenhum supera a lenda de Luis Miguel Arconada, que durante 14 anos defendeu a baliza da Real Sociedad.

A fama que tinha levava os adeptos a cantarem em coro quando o árbitro assinalava o castigo máximo a favor do adversário: “No passa nada, tenemos Arconada.”

hugo.alegre@ionline.pt