Internacional

‘Nada nos prepara para tratar um doente de ébola’

O cenário descrito pelo médico Craig Spencer sobre as cinco semanas que passou na Guiné-Conacri a tratar doentes de ébola não é animador: a temperatura raramente fugia dos 40 graus - conta que quando tirava as botas de trabalho saia um litro de água -, trabalhava das 7h às 21h e perdeu a conta aos doentes que viu morrer. Apesar de ser um dia-a-dia desfasado do que estava habituado a ter nos hospitais norte-americanos, Craig estava longe de saber que o verdadeiro desafio começaria já depois do regresso a Nova Iorque, quando descobriu que de África levou consigo o vírus: “Imagine o dia da sua vida em que se sentiu mais doente e agora acrescente uns níveis”. Craig Spencer esteve em Lisboa e contou ao SOL que, juntando na primeira pessoa a experiência de médico e doente, ficou a conhecer o ébola como poucos.

Disse que em África tinha 30 doentes a seu cargo, enquanto que nos EUA tinha 30 médicos a tratar de si. Foi mesmo assim?

Sim, era o oposto. O meu hospital tinha 1700 médicos, enquanto que se juntarmos os médicos que trabalham na Guiné, Libéria e Serra Leoa, não passam dos 1600.

E com isso sente-se um sortudo ou há sentimento de culpa?

Os dois. Sei que tive sorte por ter um grupo de médicos e enfermeiros especializados 24 horas por dia disponíveis para mim. Mas é impossível deixar de pensar que em África havia dias com demasiados doentes, em que não conseguíamos dar resposta. O normal era ter cerca de 28 pacientes a meu cargo.

Apesar de todos os cuidados, chegou a temer pela sua vida?

Tive sempre uma forte certeza de que ia sobreviver.

Lembra-se de quando apareceram os primeiros sintomas?

Lembro-me de todos os minutos desse dia. Acordei, senti febre, apesar de baixa e, não sei, sentia-me diferente.

Conhecia a doença como poucos. Senti-la no corpo é diferente?

Completamente. Fez-me pensar em todos os pacientes que me passaram pelas mãos. Aquilo a que eu tive direito, comparado com o que os doentes em África tinham, é irreal.

Sente-se agora mais preparado para tratar doentes com ébola?

Sim, sem dúvida. Sabemos muito mais sobre a doença agora do que na altura que estive em África. Mas a verdade é que, por muito que nos treinem para o que vamos encontrar, não há nada que nos prepare para tratar um doente com ébola.

Esteve 19 dias internado. Como estava quando saiu?

Imagine o dia da sua vida em que se sentiu mais doente e agora acrescente uns níveis. Nunca me tinha sentido tão mal. Perdi mais de dez quilos.

E a nível mental?

Tive a sorte de ter muito apoio. Apesar de ter que estar em isolamento total, recebia muitas videochamadas.

Foi fácil voltar à rotina?

Nem por isso. A minha vida mudou, nunca mais será a mesma. A minha perceção do mundo é outra. Sinto-me desapontado com a sociedade a um nível global. Senti que, em relação ao ébola, os países estavam preocupados consigo e não em ajudar quem precisava. Por exemplo, cada país preocupou-se em ter centros de tratamento da doença, pondo para segundo plano as ajudas aos países em que a doença estava realmente a propagar. A burocracia também foi outra das coisas que mais me chocou, a saúde não devia ser burocrática.

Como foi o regresso a casa?

As pessoas tinham medo, apesar de grande parte desse medo ser irracional. A informação que passou sobre a doença não foi a mais correta mas a verdade é que muitas pessoas tinham medo de ser tratadas por médicos que tinham estado em África.

Alguma vez sentiu que as pessoas tinham medo de si?

Sim. Em África não se dão apertos de mão porque há medo de passar vírus. Não há muito toque. Isso é normal em África, não aqui. E eu tive quase um mês sem poder tocar em ninguém, foi muito estranho.

Alguma vez se sentiu uma celebridade?

Nova Iorque é o sítio em que a fama dura 15 minutos e é rapidamente esquecida. Fiquei muito contente de ser rapidamente esquecido.