Politica

A euforia bloquista e o ‘conto de crianças’

A vitória do Syriza e de Alexis Tsipras nas legislativas de 25 de janeiro de 2015 provocou uma vaga de euforia em vastos setores da esquerda portuguesa. E despertou alarmes na direita.

Enquanto Tsipras e Varoufakis exigiam, nos primeiros dias de 2015, a renegociação da dívida grega, a saída do FMI e da troika de Atenas, além de decretarem o fim da austeridade, a esquerda portuguesa exultava. A líder do Bloco de Esquerda, Catarina Martins, dizia que a vitória do Syriza «abre uma nova fronteira política» e que, a partir desse momento, «o contador político na Europa está a zero».

Mas a onda de entusiasmo alastrou da esquerda radical ao próprio PS. Líder socialista há pouco mais de dois meses, António Costa diria mesmo, no final de janeiro, que «a vitória do Syriza é um sinal de mudança, que dá força para seguir a mesma linha».

Mas o novo xadrez político grego abriu, também, divisões no PS. Se Manuel Alegre glorificava o Syriza e se distanciava dos socialistas da Grécia, considerando que «o Pasok cavou a sua sepultura», o que «é um aviso aos partidos  que seguem uma política de austeridade», já outro dirigente do PS, Vitalino Canas, recordava que «na Grécia, o nosso parceiro não é o Syriza, é outro partido». E Vital Moreira acusava a esquerda portuguesa de «um oportunismo pouco recomendável» ao fazer sua a vitória de Alexis Tsipras.

‘Portugal não é a Grécia’

À direita, a via grega de tentar renegociar a dívida e aumentar a despesa pública suscitava as maiores dúvidas e reticências. O deputado do PSD Duarte Pacheco sublinhava a ideia de que «a Grécia não quer a troika, mas quer o dinheiro da troika» e lembrava que Atenas «continua a precisar de financiamento exterior».

Já o Governo PSD/CDS fazia questão de repetir que «Portugal não é a Grécia», onde Tsipras já fizera cair as cotações na Bolsa e disparar os juros. Por seu lado, Passos Coelho, então primeiro-ministro, classificava o programa de Governo apresentado por Alexis Tsipras como «um conto de crianças». O que levou, de imediato, os partidos da esquerda portuguesa a acusá-lo de ingerência na política grega e de fundamentalismo pró-alemão.

Duarte Pacheco recusava equiparações e lembrava que Portugal já tinha conseguido uma ‘saída limpa’ do programa de ajuda financeira da troika. «Nós já passámos o Cabo das Tormentas. Não estamos na mesma situação» que a Grécia, salientava o parlamentar social-democrata.

Tsipras e Varoufakis não conseguiram a renegociação da dívida nem livrar-se da troika, a Grécia aceitaria mesmo um 3.º resgate financeiro. E o PS de António Costa foi-se distanciando, passados os meses iniciais de 2015, do radicalismo político do Syriza.

jal@sol.pt