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Joaquim Monchique. “Acho que o único talento que realmente tenho é ser curioso”

   

Diz que “um sorriso abre portas”. Se assim é, que se escancarem, porque Joaquim Monchique está sempre a sorrir. E não é um sorriso tímido, pudico. Nada disso. É um sorriso exuberante, tal como o ator. Na televisão, já foi “cão, puta e até o Ricardo Salgado”. No teatro, nos anos mais recentes, foi louco, uma senhora da alta sociedade e, a partir de dia 17, no Casino Lisboa, será Deus, na peça “God”, que protagoniza. Todas estas personagens, mas sobretudo o próprio, Joaquim Monchique, à conversa com o BI.

O que o fez escolher esta peça?

Vi toda a Nova Iorque pejada com os cartazes da peça, com o Jim Parsons, da série “The Big Bang Theory”. Mal vi os cartazes disse logo que queria fazer a peça, ainda antes de a ver. Quando a vi gostei imenso e decidi trazê-la para Portugal. Mas cá vai ser diferente. A estrutura é parecida no sentido em que continua a ser Deus que está lá em cima desde a eternidade e está a ver que isto está a correr muito mal aqui em baixo e vem dizer aos humanos o que está mal, mas depois houve uma grande adaptação minha, do João Quadros, do António Pires e do Rui Filipe Lopes. Todas as peças que faço adapto à nossa realidade.

Essa adaptação é fundamental para si?

Sim. Se fizesse os textos clássicos não lhes mexeria. Agora, o tipo de peças que faço, adapto sempre. E estou sempre a atualizá-las. Tenho uma coisa a que chamo o peixe do dia, que é ir acrescentando sempre o que de novo se passou no país ou no mundo. E como tenho uma grande capacidade de improvisar, é mais fácil. E as pessoas gostam dessa proximidade. Nesta peça, por exemplo, mal Deus percebe que está em Portugal, diz logo que brincou pouco connosco, que tivemos poucas tragédias naturais.

É católico?

Não, sou agnóstico. Mas venho de uma família católica de ir à missa todos os dias. A primeira viagem que fiz foi a Roma para ir ao Vaticano.

É difícil para os portugueses brincar com a religião?

Só brinco com as coisas com as quais penso que posso brincar… Por isso mesmo a peça não se chama Deus, mas God. Se fosse Deus teria outra carga. Mas esta peça apareceu-me. E apareceu-me num momento em que estava à espera de encontrar um texto para mim. Já fiz dois monólogos, e a partir do monólogo já não há mais nada. E não há uma divisão de público, sabemos que quem está ali nos foi ver. Aliás, em monólogos que já fiz, como o “Paranormal”, ouvi muitas vezes dizerem “vou ver o Monchique”, em vez de “vou ver o Paranormal”.

Isso aflige-o?

Aflige! Ainda por cima tenho uma espada de Dâmocles sempre em cima porque as últimas peças que fiz foram êxitos muito grandes. O “Lar Doce Lar” foram três anos em cena, com 500 mil espetadores. Antes tive numa revista com o La Féria que esteve 15 meses em cena, a esgotar todos os dias com mil pessoas. O “Paranormal” foi o monólogo mais visto da história do teatro português. Desde 2008 tenho mais de um milhão e meio de espetadores e portanto sinto sempre «Ai meu Deus, como vai ser agora?». Mas nunca sabemos se algo será um sucesso. O “Lar Doce Lar”, por exemplo, estive em pânico até à véspera. A ideia foi minha, passei de carro num desses lares chiques e pensei em duas senhoras, no auge da crise, num desses lares. Esgotámos em todos os sítios onde fomos. Com semanas de antecedência. Mas se algo não corre bem, partimos para outra coisa. Todos os atores já apostaram no cavalo errado.

Até porque o sucesso é ótimo mas, no reverso da medalha, deve ser muito cansativo estar três anos a subir a um palco com o mesmo texto.

É. Ainda mais numa peça em que me vestia e despia 23 vezes por noite. Era um cansaço muito grande. Mas fazer tournée por Portugal é inacreditável. Representar para públicos que, um mês antes, já esgotaram a sala é maravilhoso. A última vez que eu e a Maria fizemos o “Lar Doce Lar” foi há relativamente pouco tempo, na Guarda, e antes de começarmos percebi logo que ia ser uma noite especial. O que mais gosto no teatro é domar o público.

Foi filho único, neto único, sobrinho único. Habituou-se a ser sempre o foco das atenções?

Sempre. Sempre tive pessoas a olharem para mim. E queria que não olhassem. Tive uma coisa terrível: era um menino muito lindo e desde pequeno que as pessoas me estavam sempre a tocar. E eu odiava. Ainda hoje odeio. Mas no palco estava lá em cima, não me tocavam. Acho que, de alguma forma, vivi sempre num palco porque tive sempre alguém a olhar para mim. E tive umas avós gloriosas que também ajudaram.

 Uma brasileira e outra espanhola?

Exato. Tive um “Obá!” e um “Olé!” na vida. São os dois povos mais festeiros do mundo e eu tenho essa coisa no sangue. Tive uma infância muito feliz. Tive a sorte de ter avós com quintas - no Algarve e em Santarém - e tomei muito banho no mar, parti a cabeça oito vezes, só ia para casa para comer... Tive muita liberdade. E, além de andar na rua, brinquei muito aos teatros, o meu avô deu-me uma casa antiga só para fazer um teatrinho para mim, com cadeirinhas e tudo. Lembro-me que fazia os cenários com giz nas paredes brancas. Em pequeno já dizia que queria ser artista.

Na sua cabeça de criança ser artista era o quê?

Era ser o que eu via na televisão. Apanhei os grandes atores ainda a fazerem teatro na televisão. E tive a sorte de ter uns pais, que desde muito novo, me compraram livros e me levaram ao teatro. Acho que o único talento que realmente tenho é ser curioso, que é uma coisa que não se ensina. E sou muito observador, tenho uma parabólica na cabeça. Tenho uma porteira de bata e de chinela dentro de mim. Levei muita tareia porque as gavetas estavam fechadas e eu queria saber o que estava lá dentro. Também comecei a viajar muito novo, com a família. Acho que é por tudo isto que não faço juízos de valor em relação a nada: desde muito novo sempre me disseram que havia pessoas diferentes e que isso era normal.

Isso libertou-o desde muito novo?

Sim, logo desde pequeno. Nunca tive problemas com nada, porque me foi mostrado desde muito novo que havia outras cores na vida.

Era bom aluno?

Naquilo de que gostava, como História, Inglês, Português. Nunca soube nada de Matemática nem de Química. Nunca estudei História, por exemplo. Mas sempre gostei de fazer teatradas e contar histórias. Tive uma bisavó a quem eu estava sempre a pedir “Cuentame una historia”. Ainda hoje, quando estou a dirigir, digo aos atores que têm de fazer como a minha bisavó Catarina: contar a história tão bem que, mesmo sabendo o final, queremos ouvir na mesma.

Sempre falou português e castelhano?

Sim. Ainda hoje, por vezes, vem-me primeiro a palavra em castelhano. Cresci a ouvir as duas línguas misturadas.

De onde veio essa família multicultural?

A minha avó Carolina, mãe do meu pai, veio do Brasil para Portugal e casou com um português e assim nasceu o meu pai. Do outro lado, os meus bisavós, na altura do franquismo, cruzaram o Guadiana e fixaram-se no Algarve.

Talvez seja por essas raízes que gosta tanto de viajar. Costuma dizer que é o verbo ir. Mas sempre com o verbo voltar acoplado?

Sempre. Quando vivi ano e meio no Rio de Janeiro, estava desejando voltar. A primeira coisa que fiz quando voltei foi ir comer um bitoque. Nunca tive a coisa de ficar a viver fora. Se fosse milionário teria uma casa em Nova Iorque, mas Portugal é o meu país. E não admito que falem mal do meu país.

Mas o que o leva a ir tantas vezes?

É a tal curiosidade.

E viaja sozinho ou acompanhado?

Viajo muitas vezes sozinho. Como sou filho único a minha vida sempre foi eu a entreter-me a mim próprio. Tenho uma vida um pouco Big Brother, não consigo estar sentado numa esplanada aqui em Portugal. Por isso vou tantas vezes e vou sozinho, para poder andar à vontade, sem ninguém me conhecer.

Por vezes sente-se cansado de todos esses olhares sobre si?

Sei que sou um ator de comédia e nós chegamos mais depressa às pessoas. Os comediantes são os que as pessoas mais levam no coração. Ainda hoje falamos da Laura Alves, do Vasco Santana, da Beatriz Costa… As pessoas sentem-se mais familiarizadas connosco. E comigo ainda mais, porque estou sempre a rir. Um sorriso abre portas. Nos dias em que não me apetece mesmo nada sorrir, não saio de casa.

Curiosamente, apesar de os comediantes serem os mais queridos do público, são os que são menos tidos em conta…

… pelos pares. A intelligentzia tem uma raiva muito grande por nós sermos os escolhidos das pessoas. Percebo isso. Percebo que alguém pense que está aqui há 30 anos a fazer peças de reportório, a mostrar coisas que valem a pena, e as pessoas não os reconhecem. Mas a comédia não se ensina, é como ter olhos azuis: ou se tem ou não se tem.

Mas o Joaquim é um ator que faz comédia porque é o que quer fazer ou porque não tem oportunidade de fazer outros papéis?

Os meus primeiros prémios foram com dramas, mas a recompensa na comédia é maior. A todos os níveis. Mas neste momento, se me propusessem voltar a fazer, por exemplo, um Tennessee Williams, iria. Já tive situações, por exemplo, no Porto, de o público estar num delírio tal que pensei: a partir daqui não há mais. Já tive os bravos todos que podia ter, já tive os aplausos, já ouvi frases como “obrigado por me ter feito feliz durante estas duas horas porque a minha vida é muito triste”. Já tive isto tudo. Agora posso voltar a fazer um Tennessee Williams. Mas também sei que passados uns meses vou querer voltar à comédia. Quando fazemos um drama, acabamos a peça e queremos ir sair para desanuviar, na comédia o que quero é que o INEM me venha buscar porque ficamos esvaziados. E eu gosto dessa sensação. Nós somos os médicos da alma.

Quando já se teve esses aplausos todos é difícil amainar o ego?

Se não fôssemos egocêntricos e vaidosos não íamos para um palco, mas o meu ego está para o lado bom.

Há pouco disse que desde criança sabia que queria ser artista. Mas quando é que esse desejo começou a ganhar contornos mais definidos?

Na escola, quando uma professora me pôs a fazer de coelho e eu ouvi palmas e risos pela primeira vez. Mas nessa altura também tinha um fascínio pela arquitetura. Aliás, ainda hoje tenho. Entro numa casa e começo logo a pensar que paredes deitava abaixo. Sei tudo o que há para saber sobre construção civil, conheço os materiais todos. Quando entrei pela primeira vez na casa onde vivo havia um buraco que atravessava três andares. Fui com um amigo e ao fim de poucos minutos ele disse-me: «Já estás a ver as toalhas nos toalheiros, não estás?». E estava. Como este escritório onde estamos. Era um armazém de batatas e fui eu que tratei de tudo. A primeira casa que fiz foi uma casa de férias da família. Tinha 12 anos. Desde então já fiz muitas casas, para amigos e não só.

Ainda pensou seguir arquitetura?

Não, porque a profissão de ator apanhou-me completamente. Mas nas minhas peças sou eu que faço os cenários e os figurinos. Sou um controlador.

Tinha 14 anos quando o seu pai morreu. Isso mudou completamente a sua vida?

Como os meus pais casaram muito novos e ainda queriam curtir a vida, eu já estava habituado a passar muito tempo com os meus avós. E quando ele morreu continuaram a estar muito presentes, por isso nunca senti essa carga grande de o meu pai ter morrido. Ainda por cima sempre fui muito independente. É uma coisa de filho único. Dou-me muito bem com o Herman [José] e comentamos sempre que as outras pessoas nunca vão entender porque é que temos a necessidade de estar sozinhos. Isto apesar de sempre ter dito que gostava de ter tido um irmão ou uma irmã. Mas como não tive habituei-me a estar sozinho. E agora preciso disso.

Sabia que queria ser ator. Porque não foi para o Conservatório?

Fui para o Instituto de Formação, Investigação e Criação Teatral, que era uma espécie de Conservatório, só que era um curso pago, nós recebíamos para ter aulas durante um ano, com grandes professores. Saí com 20 valores e fui para o Teatro Aberto, onde estive quatro anos. Estreei-me com o Mário Viegas, um dos maiores génios do país. O poder que ele tinha de encantar as pessoas era inacreditável.

Nessa altura corriam os anos 80. Como era o ambiente na cidade?

Eram os tempos do Bairro Alto, sempre em festa. Aliás, eu abri o Bairro Alto! E também o fechei, muitas noites! [risos] Abri o Frágil, o Plateau, o Alcântara-Mar, o Lux. Estive em todas estas festas de inauguração. Mal acabei o curso comecei logo a trabalhar e a ganhar dinheiro. Saía muito à noite.

Ganhava assim tão bem no Teatro Aberto?

Não. Mas entretanto fui fazer televisão, com o Filipe La Feria. Eu estava a fazer um [Georges] Feydeau, ele foi ver e convidou-me para fazer o “Grande Noite”, na RTP. Logo depois fiz o “Maldita Cocaína”.

Como é que a equipa do Teatro Aberto viu a sua decisão de aceitar o convite para ir fazer televisão?

Perguntavam-me o que ia fazer para a televisão. Esses, hoje em dia, pedem-me para ver se lhes arranjo alguma coisa na televisão. A vida dá muitas voltas. Mas o Filipe tinha - e tem - muitos anticorpos. Porque tem muito público. Eu adoro o Filipe, é das poucas pessoas que tem o mesmo olhar que eu sobre o mundo do espetáculo. Ele tem uma cultura de teatro que nenhum dos seus detratores tem. Agora, tanto o teatro que o Filipe faz, como aquele que eu faço, são para fazer dinheiro, temos estruturas para sustentar. A verdade é que todo o teatro é comercial porque ninguém quer fazer uma peça de teatro para uma sala vazia. Não quero com isto dizer que não acho que há teatro que tem mesmo de ser subsidiado.

Em Portugal não há história de subsídios para projetos ligados à comédia.

Não, porque a comédia sempre se valeu por ela própria. Tenho pena de não ser subsidiado ou ter um sponsor, porque isso me permitiria, por exemplo, fazer um cenário deslumbrante agora para esta peça. Ou fazer uma revista portuguesa com uma orquestra de 30 pessoas.

Lembra-se da primeira vez que se cruzou com o Herman José?

Sim. O Herman foi o convidado do último “Grande Noite”. Ele fazia a Maximiana e ia fazer um quadro comigo e com o [João] Baião. O Herman já era a minha grande referência, vemos o mundo pelo mesmo binóculo. Acontece-me o mesmo com o [Miguel] Falabella, com a Ana Bola, com a Maria [Rueff].

Os anos da família Herman José foram os mais gloriosos da sua vida?

Foram ótimos. Tivemos 12 anos a fazer diretos, todos os domingos. Apanhámos uma época gloriosa que foi o início dos reality shows. Recebemos ali as big stars todas, chegavam de avião privado, atuavam e iam-se embora. Houve artistas que traziam comitivas de 50 pessoas, alguns traziam sósias, só para fazer uma pequena atuação.

Mas esses anos também tiveram coisas menos boas.

A Casa Pia. Foi terrível. Essa história mirabolante, de pessoas que inventaram coisas inacreditáveis. Aquele grupo já passou por tudo, mas essa altura foi terrível. Não sei como é que o Herman aguentou. Fizemos programas, apresentámos os Globos, tudo com essa carga em cima. E era o Herman e quem estava com ele. Lembro-me de ter sido padrinho nas marchas de Lisboa, com a Maria, e levámos imensos seguranças porque havia uma carga no ar. Nunca aconteceu nada de especial, mas havia essa carga. As pessoas comeram o que lhes deram.

Mas encontra justificação para o que aconteceu?

Houve uma revenge. Nós éramos os que andavam de Rolls e iam para Ibiza de férias. O mundo enlouqueceu. A história do Herman não tem qualquer argumento. O que valeu ao Herman foi que nós estávamos no Brasil naquelas datas.

O país confundiu as opções sexuais de uma pessoa com um crime?

As pessoas tinham pouca informação e o mundo enlouqueceu. Mas o Herman sempre teve uma coisa gloriosa: nós estávamos todos em pânico e em choque com aquilo e ele só dizia para não nos preocuparmos porque quando se era inocente ganhava-se outra capacidade de lidar com as coisas.

Mas sentiu que olhavam para si também com uma carga negativa?

Não. A mim vinham era perguntar o que é que eu achava. As pessoas acham que a vida dos artistas tem uma loucura que não é real. E, sobretudo, quando trabalhamos tantos anos com uma pessoa, sabemos o que essa pessoa é e faz. E sabíamos que, com o Herman, era impossível. Foi tudo desmontado, mas muitas vezes me questiono se não tivéssemos estado no Brasil naquela altura, o que poderia ter acontecido. Mas já passou, essa ferida já fechou.

O que o levou a sair da família Herman José?

Fui o primeiro a sair. Queria fazer outras coisas, as minhas coisas. E em boa hora o fiz porque fui fazer o “Paranormal”, que foi um êxito. Mas entretanto já nos voltámos todos a cruzar, agora estou outra vez com a Ana Bola, por exemplo.

Houve alguma mágoa?

Não. O Herman é muito inteligente. Ele também saiu do “Senhor Feliz, Senhor Contente”. Estivemos juntos quase 15 anos, é da natureza humana querer experimentar outras coisas.

Quando o programa “Estado de Graça” foi cancelado da grelha da RTP, apesar de ter bons resultados, pensou que se tinha acabado a televisão para si?

Não. Sei que o mundo é assim. Fomos o primeiro programa a ter mais audiências que o “Telejornal” e cancelaram-nos. Nunca saberemos o que se passou, mas acho que volta a ser uma questão de revenge, de anticorpos, que sei que tenho. Toda a gente tem, sobretudo quem tem uma profissão pública.

Agora está no ar, novamente na RTP, com outro programa, o “Donos Disto Tudo”. Faz falta mais humor na nossa televisão?

Sim. O DDT nasce da nova direção da RTP que percebe, como todas as estações do mundo, que numa altura em que a crise é tão grande tem de haver programas de humor, para alegrar as pessoas. E estamos com grandes audiências, costumamos dizer que somos a “Única Mulher” da RTP.

Acha que o facto de, durante anos, ter feito personagens que lhe alteravam a fisionomia, o sexo…

Já fiz de cão, de puta, de bombeiro, de Ricardo Salgado…

Mas acha que esse transformismo pode ter minado a sua credibilidade dentro da classe, que o vê como o revisteiro?

Não sei. Sei é que nunca me levei a sério. E também sei que faria Shakespeare tão bem como faço o que faço agora. Já o fiz e até ganhei prémios. Mas agora prefiro fazer as pessoas rirem.

Já chateou muita gente com as suas imitações?

Já e não percebo porquê porque eu choro a rir com quem me imita. E só é imitado quem já chegou a algum lado. Mas já percebi que as pessoas não gostam de se ver no espelho.

Está preparado para as luzes se apagarem?

[silencio] Estou. Já fiz muita coisa. Agora, por exemplo, se pudesse, tirava um ano sabático. Estou há sete anos em cima de um palco, todas as noites. Representei com a minha avó morta, com o meu avô morto, com 45 graus de febre… Já fiz sessões em profundo sofrimento por respeito às pessoas. Mas agora estou farto de mim, estou farto de me ouvir. 

Fotografias de João Girão