Economia

Deutsche bank: A Queda de um gigante

A exposição ao risco e a fraca solidez do maior banco privado alemão estão a gerar preocupação. Investidores temem que haja contágio aos restantes bancos europeus.

É um dos maiores bancos privados alemães, sobreviveu à crise de 2008 sem precisar de qualquer tipo de resgate, mas está a causar alarme junto dos investidores. A braços com um grave problema de sustentabilidade financeira, o Deutsche Bank ameaça a estabilidade dos restantes bancos europeus.

O primeiro sinal de alarme foi dado quando a instituição, presente em mais de 70 mercados a nível mundial,  apresentou os resultados  do ano passado, os primeiros negativos desde 2008, altura em que rebentou a crise do subprime. As perdas recorde foram de quase 6,8 mil milhões de euros.

O banco está a braços com múltiplos processos na Justiça – os principais dizem respeito à manipulação das taxas de juro Libor e Euribor. Só os custos de litigância pesaram 5,2 mil milhões de euros nos prejuízos.

A agravar a situação estiveram os rumores de que o banco alemão não seria capaz de pagar as obrigações convertíveis que emitiu há anos.  Estas obrigações, conhecidas como ‘CoCos’ nos mercados financeiros, podem ser convertidas em ações, caso o emitente enfrente problemas de capital. O banco alemão tem 1,75 mil milhões de euros emitidos em obrigações CoCo e estes títulos estão a transacionar abaixo dos 75 cêntimos de euro, após uma queda de 19% desde o início do ano.

Já os custos dos contratos que protegem os investidores do risco de a dívida do Deutsche Bank não ser reembolsada – os credit default swaps – mais do que duplicaram este ano. A penalizar ainda mais a situação estão as quedas no mercado bolsista. Desde o início do ano, a instituição financeira acumula uma queda superior a 30% em bolsa com as ações a atingirem mínimos históricos de 30 anos.

Recompra de obrigações

Para acalmar os mercados, a instituição financeira viu-se obrigada a avançar com um programa de recompra de obrigações no valor de mais de 4,7 mil milhões de euros. Com esta iniciativa, o Deutsche Bank espera afastar a desconfiança dos investidores que, recentemente, manifestaram preocupação sobre a capacidade do banco para pagar os cupões das obrigações com maior risco, este ano e no próximo.  

A decisão é aplaudida pelo gestor da XTB, Eduardo Silva. «A recompra de dívida sénior acontece em  condições favoráveis para a instituição uma vez que as obrigações negoceiam abaixo do preço de emissão, ou seja, será uma recompra com lucro ao mesmo tempo que aumentou a liquidez no mercado e estabiliza os custos de financiamento», diz, em declarações ao SOL.

Ainda assim há quem continue a olhar com receio para o futuro do banco, mesmo depois do ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble ter garantido que «o Deutsche Bank tem capital suficiente» e «é forte». Também o administrador financeiro da instituição, Marcus Schenck, garantiu que o «capital e a posição de risco do banco «permanecem fortes», numa nota dirigida aos funcionários.

Menos otimistas estão os analistas da Proteste ao lembrar que, ao contrário dos bancos americanos, as instituições financeiras europeias têm sido «lentas a limpar» os balanços. E recordam: «O grupo alemão ainda não conseguiu encontrar um modelo de crescimento sustentável e a solidez está aquém da média do setor. Se em Portugal, após o BES, o Banif foi alvo de um processo de resolução, em Itália, quatro pequenos bancos quase entraram em falência no final de 2015, alimentando os receios de um ‘acidente’ entre os maiores. A queda de um grande banco contaminaria todo o setor europeu».

Também Eduardo Silva admite que a capacidade do banco em honrar compromissos não se coloca em condições normais, «mas em condições extremas nenhuma instituição está isenta de risco». Segundo o analista, «o banco falhou os testes de stress  nos EUA em 2015 e teve de aumentar os rácios de capital,  assim como ajustar o plano financeiro».

Depois das perdas recorde, o banco anunciou aina o cancelamento do pagamento de bónus aos administradores, apesar de ser considerada uma estratégia que não será implementada a longo prazo. O Deutsche Bank tem pago dividendos anualmente desde a reconstrução do pós-guerra na Alemanha, incluindo durante o período da crise financeira 2008-2009.

Reestruturação

Para 2016, as perspetivas não são animadoras, já que vários analistas garantiram que seria possível o Deutsche Bank ter mais prejuízos este ano. Também a própria administração admitiu que este não será fácil, uma vez que a expectativa é que o pico do plano de reestruturação do banco aconteça no final de 2016.

A ‘limpeza’ do banco começou já a ser feita em abril passado, altura em que foi anunciado um corte de custos na ordem dos 3,5 mil milhões de euros até 2020, com o encerramento de 200 filiais.

A notícia não foi bem recebida pelos investidores, já que a instituição financeira subscreveu, em maio passado, uma declaração conjunta do Fórum Económico Mundial, solicitando a aplicação de regulação macro prudencial para estabilizar o sistema financeiro.

Já no final do ano passado revelou que vai eliminar 35 mil postos de trabalho nos próximos dois anos e sair na totalidade de 10 países: Argentina, Chile, México, Peru, Uruguai, Dinamarca, Finlândia, Noruega, Malta e Nova Zelândia. Portugal não será afetado por estas medidas, para já.

O banco emprega atualmente 450 pessoas no mercado nacional, distribuídas por 55 balcões e dois centros de private banking.

sonia.pinto@sol.pt