Internacional

Rui Oliveira e Costa: ‘O CDS é republicano e o PSD oscila’

O responsável da Eurosodagem junta a vertente profissional ao fascínio pelo sistema político norte-americano, nascido com a eleição de John F. Kennedy.

Perguntámos a figuras do centro e direita que candidato apoiam nos EUA. Consegue dividi-los pelos partidos portugueses?

Eu acho que tanto o CDS como o PSD andariam entre o Marco Rubio e o Jeb Bush. Os partidos mais à direita em Portugal, nenhum deles – nem partidos, nem militantes nem eleitorado – se revê no Donald Trump ou no Ted Cruz. E não é só em Portugal – o mesmo seria válido para o PP espanhol ou para a direita italiana. Isso só existe na América. O Trump é um produto americano, nunca resultaria cá. O CDS é mais republicano, o PSD tem muita gente que na América votaria democrata como, por exemplo, Francisco Pinto Balsemão, que já disse isso várias vezes. Acho que o seu eleitorado ficaria dividido entre um destes dois e a Hillary.

E à esquerda?

O eleitorado do PS seria unânime no apoio a Hillary. O PCP acho que não consegue pensar em votar numas eleições na América, era a mesma coisa que pedir aos americanos para escolher entre mencheviques e bolcheviques. E acho que o Sanders tem graça para os bloquistas.

Há muito barulho à volta do Iowa e New Hampshire, mas será que têm real capacidade para influenciar o resto da corrida?

Creio que não. Acho que o que há é isso mesmo – muito barulho mas a consistência é pouca. Bill Clinton teve 2% no Iowa e foi Presidente. O Iowa é um Estado que não faz parte das grandes divisões políticas que existem na América – não é Sul, não é Nova Inglaterra, não é Pacífico. É um Estado praticamente sem voto afro, sem voto hispânico. Com uma percentagem de evangélicos e uma força da igreja 20 vezes maior do que em Massachusetts, por exemplo.

O que mudará daqui para a frente?

A questão é que quando há primárias num estado, os candidatos andam lá semanas. Vão comer hambúrgueres às rulotes, o contacto pessoal é muito importante. Depois chega a super terça-feira, quando votam 15 estados e isso já não existe. O dinheiro já faz toda a diferença, é campanha feita pelas máquinas.

E os radicais vão sofrer com isso?

Antes disso ainda há umas de aquecimento, embora a Carolina do Sul seja relevante, porque mostra o voto do Sul. Tenho algumas dúvidas que Trump se saia tão bem na Carolina do Sul, mas admito que nestes três ainda consiga sair-se bem.

Como vê a corrida republicana?

Temos dois candidatos da direita republicana, diferentes entre si – Ted Cruz e Donald Trump. O Ted Cruz dentro de uma tradição evangélica religiosa. O Trump é um produto das televisões. E dois que são representantes do partido republicano conservador, que são o Marco Rubio e Jeb Bush. Eu creio que um destes dois últimos vai ser o nomeado.

Ou seja, os moderados vão recuperar.

Os democratas já tiveram nomeações suicidas – como Michael Dukakis (1988) ou George McGovern (1972), que perderam em 48 estados. O Partido Republicano quando perde anda nos 48%, o único caso que me lembro nos últimos 70 anos que estava perdido à partida é o de Barry Goldwater face a Johnson (1964). Foi a única vez que avançaram com um nome mesmo de direita – Goldwater era direita pura e dura e levou uma banhada.

E Bernie Sanders será mais um?

Acho que aprenderam a lição, com Bill Clinton já tinham aprendido. Quando viram à esquerda, a derrota é certa. E os republicanos se guinam muito à direita também. Em princípio, o centro na América não perde. Um Ted Cruz ou um Sanders será para perder. A não ser que seja um contra o outro, mas isso nunca ocorreu. O instinto de sobrevivência política dos partidos e da força económica e social sobrepõe-se sempre.

Então Hillary terá o que Obama lhe roubou?

Hillary irá fazer o percurso expectável. Vai ser, com alto grau de probabilidade, a nomeada da convenção democrata de Filadélfia. A candidatura democrata fica resolvida na super terça-feira. Seria para mim uma surpresa se assim não fosse.  A partir daí a questão passará a ser quem ela escolherá para candidato a vice-presidente.

Tanto Michael Bloomberg como Donald Trump (caso não vença as primárias) já admitiram a hipótese de serem candidatos independentes.

Se o Trump for candidato independente, a história destas eleições acaba – a Hillary é Presidente. Será o efeito Ross Perot (1992), que não ganhando nenhum estado teve 19%. Os resultados que se conheceram mostram que foi buscar aos republicanos entre 14 a 15% e aos democratas entre 4 a 5%. O que quer dizer que desequilibrou a balança para os democratas em 10% – e Bill Clinton ganhou por três. Trump se fizer isso, faz de Perrot. Mas o Bloomberg já não se sabe, porque ninguém consegue dizer hoje em dia a quem ele iria roubar mais votos. Foi governador de um estado democrata mas eleito pelo partido republicano, o discurso dele agrada aos dois eleitorados.

nuno.e.lima@sol.pt