Politica

Ferro convencido de que Marcelo pode ser "o homem certo no momento certo"

É raro ver Ferro Rodrigues a concordar com Jean-Claude Juncker. Mas o presidente da Assembleia da República e o presidente da Comissão Europeia têm um comentário semelhante sobre Marcelo Rebelo de Sousa. Ontem, Juncker dizia que o novo Presidente português é "o homem certo no lugar certo", hoje Ferro considerou que Marcelo "tem agora a responsabilidade histórica de ser o homem certo no momento certo". Um sinal curioso, numa altura em que a Europa se perfila como o palco da próxima grande batalha de Costa.


"Pelas características pessoais e políticas que todos reconhecem a Vossa Excelência, podemos dizer, sem exagero, que tem agora a responsabilidade histórica de ser o homem certo no momento certo", considerou Ferro Rodrigues, no discurso que iniciou a cerimónia de tomada de posse do novo Presidente da República no Parlamento, esta quarta-feira.

Até agora, Ferro Rodrigues acha que "as primeiras palavras e os primeiros gestos" de Marcelo "são um bom prenúncio" de que pode ser o "promotor das convergências estratégicas de que Portugal tanto necessita".

Ferro quer Marcelo como aliado para as negociações na Europa

Ferro acha que "o país precisa de se voltar a reencontrar" e a distinguir as "normais e desejáveis" divergências políticas e ideológicas "daquilo que é estratégico e que nos deve unir".

É por isso que acha que as diversas instituições, Governo, Parlamento e Presidência devem remar "para o mesmo lado", sobretudo no que toca à Europa, o palco da próxima grande batalha do Executivo de António Costa.

"Presidente da República, Parlamento, Governo deverão unir-se estrategicamente na luta por uma Europa de valores, de convergências e de coesão".

Ferro Rodrigues defende, de resto, que os próximos cinco anos de Marcelo em Belém devem ser "de uma caminhada coletiva" que só será possível se todos estiverem "a remar estrategicamente para o mesmo lado".

Ferro pede a Presidente para ser o anti-Cavaco

Com um Governo apoiado à esquerda, o presidente da Assembleia da República lembra que este é "um tempo em que todos estão convocados para encontrar soluções e em que já ninguém está unicamente remetido ao papel do protesto", voltando a frisar que as soluções podem estar também na ala direita do hemiciclo, ao dizer que este tempo político "acolhe combinações diferentes em questões diferentes".

O presidente da Assembleia recorda que "a ação do Presidente não se resume à cooperação" com o Parlamento, "mas também não se consolida sem ela" e espera que Marcelo use os "poderes informais" que lhe são atribuídos na Presidência: "o poder da palavra e o poder da influência".

Para ilustrar melhor o que quis dizer, Ferro Rodrigues citou Almeida Santos que, na tomada de posse de Jorge Sampaio, aludiu à forma como Mário Soares soube fazer "largo uso de importantes poderes implícitos" do Presidente da República. E lembrou uma frase de Manuel de Arriaga, o primeiro Presidente, que defendia que "O Presidente da República tem de pairar sobre tudo, intangível às paixões partidárias, aos interesses das clientelas políticas, tem de ter uma só aspiração: o bem do país".

As palavras têm mais de cem anos, mas serviram para Ferro pedir a Marcelo que seja o menos parecido possível com Cavaco Silva. O socialista quer "um Presidente da República sintonizado com o país", "que saiba comunicar com o país", "com todos os partidos políticos e com todos os parceiros sociais". "Com todos por igual", sublinhou, num discurso que acabou aplaudido por todas as bancadas.