Sociedade

Sócrates ia pagar avença para outro livro

O professor catedrático Domingos Farinho, da Faculdade de Direito de Lisboa, apontado como o verdadeiro redator do livro A Confiança no Mundo, que José Sócrates lançou em 2013 como sendo da sua autoria, negociou com o antigo primeiro-ministro uma avença para escrever um segundo livro que o ex-líder socialista publicaria também como sendo seu – segundo se pode concluir da investigação da Operação Marquês.

A ideia para o segundo livro – que José Sócrates pretendia publicar com o título Carisma – chegou-lhe ao pensamento logo após o lançamento da sua primeira obra, em outubro de 2013, com a chancela da Verbo, prefácio de Lula da Silva e posfácio de Eduardo Lourenço, numa sessão pública que reuniu a nata socialista, como Mário Soares, António Costa, Ferro Rodrigues e vários intelectuais.

Pagamento através de empresa de Santos Silva

Recorde-se que, através de um esquema montado com o empresário Carlos Santos Silva – o homem que o Ministério Público (MP) suspeita tratar-se do seu testa-de-ferro, titulando as contas onde acumulou  cerca de 23 milhões de euros enquanto esteve ao leme do país – o ex-governante comprou milhares de exemplares do seu livro para que a  primeira edição esgotasse até ao dia da cerimónia de lançamento no Museu da Eletricidade, em Lisboa.

Sócrates, empolgado com o artificial êxito, estava pronto para novo esforço inteletual, mas não dispensava a experiência do professor catedrático com vária obra publicada.

Domingos Farinho, o homem que o MP suspeita ser o verdadeiro autor de A Confiança no Mundo, mas ao SOL sempre negou a autoria admitindo apenas ter sido pago para fazer a revisão da tese, notas de rodapé, algumas conversas sobre o tema e troca de bibliografia (recorde-se que, publicamente, Sócrates referiu-se ao livro em causa como sendo a versão traduzida da sua tese de mestrado na Sciences Po de Paris, universidade que frequentou depois de ter deixado a chefia do Governo).

 No entanto, confrontado com um contrato em seu nome apreendido durante as buscas da Operação Marquês, datado de 2012, Domingos Farinho assumiu ao SOL que quem lhe pagava por essa colaboração era a Proengel 2, uma empresa do universo de Santos Silva, de projetos de arquitetura e engenharia, e não José Sócrates.

 O professor, que durante um ano recebeu a avença, apenas não quis revelar a quantia que usufruiu por, no seu entender não se tratar de matéria «do foro público». E quanto ao segundo livro que, com a detenção do ex-líder socialista acabaria por não sair, Farinho foi mais longe: «Nem sei do que está a falar!».

Um livro sobre o carisma dos líderes

Mas foi logo após o lançamento de A Confiança no Mundo, quando já findara o primeiro contrato, que Sócrates lhe propôs novo desafio: um livro sobre as características dos líderes, que se intitularia Carisma. Na primeira abordagem, o professor, que parecia não ter ficado satisfeito com as quantias das remunerações do primeiro contrato, levantou algum desagrado.

No entanto, em novembro, segundo informações a que o SOL teve acesso, o assunto resolveu-se a contento. Sócrates terá sido direto: «Então, avançamos?». Farinho desta vez aceitou e, recordando a conversa que tiveram anteriormente, explicou-lhe que apenas colocara reservas por uma questão de contas pessoais.

 Sócrates estava agora disposto a acompanhar o preço e o professor apenas colocou uma condição. Queria o contrato em nome da mulher: «Vês algum problema em que o contrato seja feito, em termos formais, com Jane, por causa da faculdade?».

Para o ex-primeiro-ministro esta era questão de somenos e o académico lançou mãos à obra. Estudou e leu obras de referência que Sócrates encomendou via Amazon. Em maio de 2014, Domingos Farinho ainda tinha a tarefa quase no início, mas foi dando notícias dos seus avanços a Sócrates: «Tenho-me dedicado às leituras mais do que à escrita, tirei notas de livros e já tenho cinco páginas escritas».

Retiro em hotel de luxo para escrever

Sócrates, por sua vez, pretendia dar vapor à obra e propôs-lhe «fazer um retiro de dois ou três meses». O ex-líder socialista apostava na mudança de liderança dentro do PS nas eleições primárias que catapultariam António Costa para o poder, para depois fazer um retiro num apartamento que pretendia alugar no luxuoso Pine Cliffs Residence, do grupo Sheraton, em Albufeira. A ideia agradou a Farinho: «Era importante mais por ti, mas a mim também me sabia bem».

Entre os amigos mais próximos, poucos sabiam destes planos. Apenas João Perna, o motorista, que levava e trazia material trocado entre o patrão e o professor catedrático, costumava comentar: «Ele escreveu tanto o livro como eu».

Já em relação à segunda obra, pelo menos com uma pessoa Sócrates descaíra-se tempos antes, mas pedira reserva. Em outubro, o jornalista José Manuel Portugal, à época diretor de Informação da RTP, desafiara-o para um debate com o social-democrata Nuno Morais Sarmento. Sócrates declinou, porém, confidenciando-lhe: «Eh pá, eu estou a pensar retirar-me uns três meses para escrever mais um livro, por favor não comente com ninguém».

felicia.cabrita@sol.pt