Cultura

Nicolau Breyner: Quantas vidas pode uma vida ter?

Será justo dizer que há uma geração de portugueses que jamais esquecerá as palavras ‘Diga a gente diga a gente, como vai este país’, e aqueles dois homens, sempre impecavelmente trajados, a la Chaplin. Inserida no programa Nicolau no País das Maravilhas, a rábula do Senhor Feliz e do Senhor Contente, onde foi o Senhor Contente, ao lado do grande amigo Herman José, o Senhor Feliz, foi o espelho de um país que renascia da ditadura e que procurava aprender a rir-se.De si próprio e dos outros.


Talvez seja esta mesma geração a que não apagará da memória João Godunha, o camionista perdido de amores pela prostituta Mariette que protagonizou a primeira novela portuguesa, Vila Faia (1982).

Ainda na televisão são de sublinhar os papéis de claro registo humorístico, como é o caso de Nico, da sitcom Nico D’Obra e Horácio de Gente Fina É Outra Coisa. Ainda antes disso, o talk show humorístico, Eu Show Nico levou todo o país a habituar-se a tratar o ator por Nico, como se fosse um amigo de todos nós.

No cinema, será sempre impossível esquecer Pedro Justiceiro, na adaptação realizada por Fernando Lopes, em  1984, do livro de Mário Zambujal, Crónica dos Bons Malandros.

Ainda na Sétima Arte, foi ao lado de António-Pedro Vasconcelos que deu vida a algumas das personagens mais marcantes, uma parceira que começou em Jaime (1999): o inspetor da Judiciária Joaquim Malarranha que à beira da reforma se entusiasma com um novo caso, em Os Imortais (2003); e Carlos Meireles, o presidente da câmara de Vilanova que Soraia Chaves tenta seduzir em Call Girl (2007).

Um dos trabalhos mais polémicos que fez acabou por ser justamente no cinema, quando protagonizou, ao lado de Margarida Vila-Nova, Corrupção (2007). O filme, realizado por João Botelho, partia do livro de Carolina Salgado sobre a sua relação com Pinto da Costa, esteve no epicentro de uma briga entre realizador e produtor, tendo acabado por chegar às salas sem a assinatura de João Botelho.

Foram mais de cinco décadas e meia dedicadas à arte de representar, no teatro, mas sobretudo no cinema e na televisão. E não sabemos o que ainda poderemos ver de Nicolau Breyner. É que o ator participou em filmes que ainda estão em pós-produção e só daqui a meses chegarão às salas. Apesar de ter realizado, produzido, dirigido atores, Nicolau Breyner nunca deixou de pôr em prática a sua arte maior: a de representar a verdade da vida.

raquel.carrilho@sol.pt