Cultura

Diogo Lopes. Boas vibrações

Nos corredores do Conservatório, Diogo Lopes conhece quase toda a gente que passa. Há sete anos que a escola de música é para ele uma segunda casa. “Sem contar com fins de semana e horas que estou a dormir, passo cá a maior parte da minha vida”. Todos os dias acorda às 5h30 da manhã, apanha um autocarro, depois o comboio, e sobe desde o Cais do Sodré até ao Bairro Alto, onde está a aprender Composição e Piano.

João Girão

Tinha apenas cinco anos quando anunciou que queria aprender a tocar aquele instrumento e a mãe inscreveu-o de imediato numa academia de música. Aos nove, recomendaram-lhe que fosse para o Conservatório. Fez as provas – “toquei uma música ou duas” – e entrou.

Com as aulas, o piano eletrónico que tinha em casa foi-se revelando insuficiente. “As teclas são muito mais moles do que no piano acústico, portanto a força que nós fazemos e a destreza necessária diferem imediatamente assim que passamos da escola para casa, e isso não ajuda”, explica Diogo. Por isso, há quatro anos, a sua mãe contactou a Make a Wish, uma associação que ajuda a realizar os desejos de crianças e jovens dos 3 aos 18 anos com doenças graves, e conseguiu arranjar um piano acústico.

É aqui que entra a Charcot-Marie-Tooth. “Se eu for agora para a rua perguntar ‘O que é Charcot-Marie-Tooth?’ ninguém me sabe dizer”, afirma Diogo. Esta doença degenerativa foi-lhe diagnosticada quando tinha dez anos, mas já se vinha manifestando desde a mais tenra infância. Ao i, a mãe, Susana, recordou há um ano que era difícil trocar-lhe as fraldas em bebé porque “não tinha flexibilidade e chorava sempre que lhe forçava um movimento com as pernas.”

Diogo tem a definição da Charcot-Marie-Tooth na ponta da língua: “É uma doença neurodegenerativa crónica que destrói a mielina. A mielina é uma membrana que envolve o nervo e ao ser destruída dificulta a passagem de estímulos. Isto faz com que surjam sintomas como a perda de massa muscular, a falta de equilíbrio, a perda de sensibilidade”.

Embora goste de se apresentar como um jovem normal - “também faço parvoíces, também me porto mal”, reconhece - Diogo tem noção das suas particularidades. O talento precoce para a música é apenas uma delas. Outra é o facto de desde muito novo falar como um adulto (Sérgio Godinho fala sobre a sua “maturidade inexplicável e quase inquietante”), o que vê como um reflexo da sua educação. Aos 16 anos já escreveu dois livros, não aprecia as músicas que passam na rádio, tem um duo de jazz, gosta de ler autores como Dostoievsky, Nietzsche e Fernando Pessoa e ainda preside à Associação Portuguesa de Charcot-Marie-Tooth.

A facilidade para a escrita deve-a à mãe, professora de português e orientadora de cursos de escrita criativa. “Já fui a muitos cursos dela, são muito bons, e ajudaram-me a desenvolver as minhas capacidades de manter uma linha narrativa que faça sentido, enriquecendo-a com pormenores que talvez escapem a um olho menos treinado”. O resultado deste ‘treino’ chama-se Baluartes (Vogais) e é uma espécie de diário onde descreve o seu dia-a-dia, as horas passadas no Conservatório, as conversas com os amigos, as idas ao médico e até os seus devaneios. Ali exprime também as angústias e interrogações de um jovem portador de uma doença que lhe condiciona tanto o quotidiano como o futuro: “Os meus músculos continuam a desaparecer, sinto-me mais magro. Tenho medo de admitir, mas custa-me segurar o telemóvel durante muito tempo junto à orelha. Fico dormente ao lavar a cabeça. Os meus braços não aguentam o peso de nada. Tenho medo, porque o que já foi papelada médica está a tornar-se realidade. Não sei quanto tempo mais conseguirei levantar-me do piano e retribuir as palmas do público com uma simples vénia. Uma coisa tão simples como a porra de uma vénia. Durante quantos anos mais conseguirei tocar piano?”

Mas as dúvidas não o travam e muito menos paralisam. Quer continuar a escrever, gravar um disco e colocar a sua doença no mapa. Quer, sobretudo, aprender para fazer uma música com que identifique. “Se é mais ligeiro ou menos ligeiro, mais erudito ou menos erudito, não sei”. Onde vai buscar tanta energia? “Aos amigos, à minha mãe, ao meu pai, à minha irmã, às paisagens que vejo na rua e que muito me deixam boquiaberto”. Nós também ficamos boquiabertos com o seu exemplo.