Politica

"Não se mete um Presidente num hospital sem se dizer às pessoas"

Daniel de Matos é o médico oficial dos Presidentes da República há 30 anos. Aceitou ficar mais um mandato e diz que vai ter de se adaptar ao estilo do novo chefe de Estado.

João Girão

Quando acontece um problema de saúde com o Presidente da República a prática é tornar o assunto público?

A minha opinião é que deve ser tornado público e inaugurou-se um pouco isso com o dr. Sampaio. Foi o primeiro a ter uma coisa mais complicada. Aquela história da cirurgia ao coração. Eu acho que essas coisas devem ser ditas publicamente. As pessoas têm naturalmente direito à sua intimidade, mas ao colocarem-se em funções públicas há determinado tipo de patologias que têm de ser comunicadas. Não se mete um Presidente da República num hospital sem se dizer nada às pessoas. Eu tenho essa tese e é isso que defendo, mas essa é uma decisão individual de cada um. A minha opinião é que as coisas devem ser cada vez mais transparentes.

Como é que lida com os rumores sobre problemas de saúde do Presidente da República.

Isso é cíclico. É engraçado porque tem curvas que têm a ver com os ciclos eleitorais. É uma coisa curiosa. Há alturas em que eu já sei que vão dizer que o Presidente tem uma doença qualquer. Eu deixo passar a trovoada, porque depois também passa. Essas teses aparecem em períodos muito bem definidos.

No caso do professor Cavaco Silva houve um rumor muito forte de que teria Parkinson.

Sim, sim. Houve sempre aí uma ideia que eu não sei de onde nasceu. O professor Cavaco teve um irmão, que aliás faleceu, com uma doença neurológica e suponho que isso tenha levado ao nascimento de alguns rumores. Não percebi muito bem a génese dessas coisas, mas a verdade é que em termos de saúde o Presidente Cavaco saiu dez anos depois igual ao que entrou. Eu não desdenharia chegar aquela idade e estar como ele está. Ele e a mulher, que nestes dez anos saiu mais nova do que entrou. 

Falou alguma vez com o professor Cavaco Silva sobre esses rumores?

Com ele não. Mas posso dizer-lhe que ele não faltou um único dia, é uma coisa impressionante. Em dez anos ele não faltou um dia por razões de saúde. O que não é fácil. Não é fácil uma pessoa entre os 67 e os 77 anos não ficar um dia de cama.

É médico do Presidente da República há trinta anos. Foi médico de Mário Soares, Jorge Sampaio e Cavaco Silva e voltou agora a ser convidado por Marcelo Rebelo de Sousa. É uma situação que não é muito comum. Como é que isto começou?

Nunca consegui imaginar que ia estar estes anos todos neste tipo de funções. Achei que isto era uma circunstância pelo facto de alguém que eu seguia medicamente ter sido eleito Presidente da República e, portanto, isto era uma coisa passageira.

Na altura foi convidado por Mário Soares, porque era o médico dele.

Sim, mas eu tinha também como cliente o dr. Sampaio,  Ele ganhou as eleições e eu, que estava para sair, fiquei. Ou seja, até ao dr.Sampaio podemos dizer que foi uma coincidência. Depois o professor Cavaco ganhou as eleições e aí eu não era médico do professor Cavaco. Nem o conhecia a não ser da televisão. E, nessa altura, o professor Cavaco manifestou vontade de falar comigo e fui a casa dele. Ele deu-me conta que o médico dele estava com uma certa idade, que tinha boas referências minhas, e convidou-me a continuar. Confesso que este convite me pareceu estimulante, porque nos mentideros médicos dizia-se que eu era da maçonaria, que era do PS, e por isso é que estava lá.

Essa ideia alterou-se quando foi convidado por um Presidente de direita.

Com o convite do professor Cavaco provou-se que não era assim. Não podia haver outra razão que não fosse a confiança que o Presidente depositava em mim. Havia aqui um critério de mérito, que  foi aquilo que sempre guiou toda a minha vida. Não era amigo dele, não tinha nenhum critério para poder ser eu. Passaram mais de dez anos, as coisas correram bem e agora há uma circunstância nova, porque é eleito o professor Marcelo e eu conheço-o desde os 11 anos de idade.

Está regularmente em Belém?

Tenho uma consulta três vezes por semana que é sagrada.

Já fez inúmeras viagens ao estrangeiro com o Presidente da República...

Fiz demasiadas viagens. Já disse ao professor Marcelo que me gostaria de poupar nalgumas destas saídas, embora ele vá fazer as coisas, pelo que eu percebi até agora, de uma forma diferente. São visitas mais curtas.

É responsável só pelo Presidente da República ou por toda a comitiva nas viagens ao estrangeiro?

Por todos. Os maiores problemas normalmente nem são com o Presidente e já tive coisas complicadas com empresários, jornalistas, deputados… Inclusivamente eu parti uma perna. Com comitivas grandes há sempre clientes e até já sei quais são as zonas do globo onde a coisa abana mais. África, Brasil...

Qual foi dos momentos mais complicados em Belém durante estes 30 anos?

A cirurgia do dr. Sampaio era uma coisa que estava num horizonte longínquo. Sabia-se que um dia poderia ter de ser feita, mas o que é facto é que aquilo piorou muito pouco tempo depois dele iniciar o mandato.

Foi logo no início do mandato.

Caiu mal, porque as pessoas acharam que a gente tinha escondido alguma coisa. E, portanto, entendemos que era conveniente fazer a cirurgia e ainda bem, porque já lá vão 20 anos e ele aí continua. Com o professor Cavaco não houve nada de especial. Houve aquele episódio do 10 de Junho (Cavaco Silva desmaiou quando discursava na cerimónia do 10 de junho, na Guarda). Dá sempre um burburinho com as televisões em direto.

Não era nada de complicado a nível de saúde?

Não, nada de complicado. Para nós não envolvia nenhuma angústia, para além da barraca que foi.