Economia

Henrique Neto: ‘Novo Banco deve ser nacionalizado durante dois a três anos’

A crescente ‘espanholização’ da banca portuguesa e o risco de perda de soberania financeira no controlo do crédito à economia estão a agitar o tecido empresarial. O economista João Salgueiro  está a preparar um manifesto e outras vozes contra os ventos que sopram de Madrid estão a aparecer. Uma delas é a de Henrique Neto, que não tem dúvidas: é preferível reforçar a presença de investidores angolanos do que a dos espanhóis.


«Ainda que reconheça que Angola é um país sem lei, o risco é muito menor porque em Angola o sistema vai ter muitos problemas. Vai enfraquecer-se e é bom que tenhamos relações com alguém que não nos pode pôr o pé no pescoço. Angola não tem condições para isso, Espanha tem», diz ao SOL.

Henrique Neto tornou-se uma cara familiar dos portugueses nas últimas eleições presidenciais, quando se candidatou ao mais alto cargo da Nação, mas no currículo deste empresário estão décadas à frente da Iberomoldes, um dos principais grupos mundiais de engenharia de moldes, e de intervenções cívicas. Foi dirigente da Associação Industrial Portuguesa e é conselheiro da SEDES - Associação Para o Desenvolvimento Económico e Social.

 O ex-candidato presidencial considera que um crescimento da dependência da banca portuguesa em relação a Espanha pode trazer mais custos do que benefícios. «Termos bancos espanhóis é uma porta aberta para as empresas espanholas terem facilidades em Portugal melhores do que as empresas portuguesas», exemplifica, acrescentando, no entanto, que este nem é o maior problema. «É evidente que o que aconteceu com o Santander comprova que somos um país de escravos. Gostamos de ser escravos. E ainda por cima escravos dos espanhóis. Fizemos tudo o que a União Europeia quis. E que o Santander quis», avança, sem esconder que «espera que a comissão de inquérito trabalhe nesse negócio».

A tese de que havia ordens de Bruxelas e do BCE para que o Banif fosse vendido ao Santander é cada vez mais temida. No final do mês de janeiro, chegou mesmo a ser noticiado que teria sido enviado a Mário Centeno um e-mail de Danièle Nouy, presidente do Conselho de Supervisão do Banco Central Europeu, que traçava o destino que acabou por ser dado ao Banif.

Posição de força

Com o impasse no BPI e o interesse do CaixaBank no Novo Banco, há quem antecipe que haja de novo um banco nacional a cair em mãos espanholas. Haverá uma perda no controlo do crédito à economia nacional, às empresas e ao investimento? O empresário considera que o perigo não chega a tanto:  «Não vai haver favores».

Mas o risco da venda do Novo Banco é tornar a posição espanhola dominante no sistema bancário isso faz com que Henrique Neto defenda que a alienação seja feita mais tarde. O empresário entende que a solução deveria passar, num curto prazo, pela nacionalização, como forma de ganhar tempo. Depois deveria haver uma aposta «numa equipa competente» e não «uma série de boys como aconteceu no Banif». Essa opção impediria esta instituição financeira de perder mais dinheiro. «Na minha opinião, nacionalizava-se com pessoas muito competentes, recuperava-se o banco para em dois ou três anos vender».

Embora o processo para a venda do Novo Banco esteja ainda numa fase preliminar, há quem aponte que uma possível investida espanhola conta com o beneplácito do Banco Central Europeu e da Comissão Europeia.

Henrique Neto que entende que não deve acontecer o que aconteceu no caso do Banif, que culminou na venda dos ativos do banco ao Santander. Portugal deveria ter uma posição de força face às autoridades externas. «Se fosse eu a mandar, enviava uma carta à União Europeia a dizer o que ia fazer [nacionalizar por determinado tempo] e a dizer que não iríamos cumprir nenhuma diretiva contrária ao que estávamos a dizer. A União Europeia decidir e o risco ser nosso é uma coisa que não cabe na cabeça de ninguém. É uma coisa absurda».

Contudo, admite que a subserviência face às autoridades europeias é um problema gerado internamente, apontando a mira a quem entende serem os principais culpados: «São os condicionamentos políticos de termos governos incompetentes».

Críticas à CGD

Para Henrique Neto, um dos maiores problemas em Portugal é o nível da gestão, quer em empresas privadas quer nas públicas. E, no sistema bancário, dá o exemplo da Caixa Geral de Depósitos: «Dizem que temos a Caixa Geral de Depósitos (CGD) e que é um grande banco. Mas está a ser gerida por energúmenos».

Para o empresário que começou a trabalhar aos 14 anos na Marinha Grande, as sucessivas administrações do banco público  têm culpas no cartório. «Depois do João Salgueiro, que era um homem sério, não se aproveitou ninguém. Foi um descalabro. Nos últimos 10 anos, a CGD perdeu milhares de milhões de euros. Mal governada. Mal dirigida. Investiu no estrangeiro e perdeu tudo. Uma desgraça. Por isso, o problema não é se as empresas são privadas ou públicas. É se são bem geridas. As públicas raramente são bem geridas e as privadas também há muitas que não são, como se viu no caso da PT».

O gestor admite que em Portugal há um «problema» com as nacionalizações e as privatizações, uma vez que geram «o sistema de corrupção que temos» e as «ligações pecaminosas entre os governos e os negócios que têm dado a desgraça que dão». E não esconde o desencantamento com o sistema político: «Os partidos se venderam aos negócios».

Os comentários estão desactivados.