Opiniao

O futuro de António José Seguro

Fui à apresentação, em Lisboa, do interessante livro  A Reforma do Parlamento Português de António José Seguro. Foi um sucesso – como vai ser nos locais onde for apresentado – e notava-se pela presença maciça de pessoas oriundas de várias proveniências, e pela atmosfera envolvente, que o acontecimento ultrapassava a apresentação do livro. E a pergunta é porquê? É que no meio da angústia, da desilusão e da incerteza em relação à política portuguesa, alguém com o perfil ético e a forma de atuar de Seguro garante às pessoas uma esperança e um porto de abrigo. O mesmo se passa com o Presidente Marcelo que, com a sua afetividade transbordante, é hoje outro exemplo de que os portugueses podem não saber bem que género de políticos querem, mas pelo menos sabem, ou pensam que sabem, os que não querem. Por isso é lamentável que sendo o António José Seguro coerente na vida e na política seja mais popular agora porque está, nesta fase, fora da política partidária, do que quando era um agente ativo dessa mesma política.

Para além da sua vida académica e cívica, o país precisa de Seguro na vida política e num futuro próximo na vida partidária do PS – pode ou não ser para líder, o importante é que volte a ajudar o PS a cumprir a sua missão. Penso que Seguro deve participar em debates televisivos mas não deve ser comentador a metro. Só no nosso país é que os políticos são comentadores, quando a sua missão deve ser a de fazer política e defender as suas ideias com unhas e dentes.

Alguns defendem que Seguro deve preparar-se para ser Presidente da República. Ele não planeia nada em política a não ser servir a sociedade com gosto, e nunca vi coisa mais ridícula do que alguém dizer com 5 ou 10 anos de antecedência que se vai preparar para um cargo importante, muitas vezes alardeando um poder que não possui. Isso nunca foi a motivação de Seguro.

Considero que dos políticos no ativo, Seguro é dos que melhor dominam os dossiês da Europa, como se viu por muitas propostas que fez enquanto líder do PS e que foram mais tarde, demasiado tarde, postas em prática pelo BCE e pela UE.

Seguro foi para a liderança do PS no pior momento da História do partido e num dos piores da nossa democracia. Essa compreensão e a sua humildade esclarecida levaram-no a moderar posições fazendo oposição pela positiva, e tentando – com a sua visão avançada sobre a União Europeia – ajudar Portugal a sair do buraco em que vivia.

Certa comunicação social e alguns setores da sociedade resolveram considerar as atitudes de bom senso como falta de força para liderar e, assim, acabaram por subvalorizar as suas capacidades enquanto sobrevalorizavam e até inflacionavam as capacidades de outros. Esta subavaliação custou-lhe as eleições no PS.

Estive em desacordo com ele quando Cavaco Silva veio propor um entendimento com o PSD no pós-troika e eleições antecipadas, que estou convencido Seguro ganharia, como ganhou as europeias. Ele não acreditava muito na solução e não queria fazer uma campanha eleitoral amarrado ao pré-acordo estabelecido, condicionando a sua liberdade e a dos eleitores. Não valeu a pena esta convicção porque, depois dos acordos que o PS fez para constituir o atual Governo, o partido perdeu a liberdade de disputar os próximos atos eleitorais sem dizer com pormenor que governo vai fazer e com quem vai governar se ganhar as eleições. E quem vai apoiar se as perder.

O futuro do Seguro para bem da democracia e dos indispensáveis partidos deve continuar a ser ativo na sociedade e no PS. Muitas das ideias que defende e defendeu são partilhadas pelo deputado europeu Francisco Assis, que na sua primeira candidatura ao PS foi seu opositor interno mas que, reconhecendo a capacidade política e o esforço honesto que Seguro estava a fazer para reerguer o PS e ajudar o país a sair do buraco em que se encontrava, passou a ser seu apoiante, integrando no congresso seguinte os órgãos do PS e encabeçando a lista ao Parlamento Europeu, numas eleições que o PS sozinho ganhou à direita coligada. Espero que estes dois quadros do PS continuem a participar na vida cívica e política partidária, pois a democracia portuguesa precisa de todos os que têm boas ideias e uma ética compatível.