Politica

Carlos Carreiras: ‘Os críticos de Passos Coelho são cada vez menos’

Vice-presidente do PSD confessa que não tem «consideração política» por Rui Rio e não tem qualquer dúvida de que Passos Coelho voltará a ser primeiro-ministro.

O PSD está a preparar-se para eleições a curto prazo?

Não depende de nós. Depende do PS. A coligação está unida. Não vale a pena termos ilusões. Eles estão muito unidos no apoio ao governo. E depende da avaliação e da análise que o Presidente da República fará em cada momento da vida política portuguesa. 

Este governo poderá cumprir a legislatura? 

Se nós acreditarmos naquilo que é dito pelos partidos que apoiam o Governo, pode cumprir a legislatura. É isso que se espera. Não se vai fazer eleições permanentemente. O que nos preocupa é que este é um modelo completamente diferente daquele que o PSD defende e o ser diferente não seria mau se não fosse perigoso. O modelo que está a ser seguido é perigoso porque está a repetir os mesmos erros do último governo do PS, de José Sócrates, e que terminaram num descalabro total. 

O Presidente da República tem apelado a consensos políticos. Esses consensos são possíveis? 

São todos possíveis. É preciso é o PS assumir uma posição séria na política portuguesa. Foi apresentado o Plano Nacional de Reformas, que é o maior elogio que o atual Governo já fez ao anterior governo. O que ele apresentou foi um conjunto de intenções na mesma linha que o anterior governo estava a desenvolver e com base num plano de investimentos de fundos europeus que o anterior governo negociou com grande sucesso. Mas reformas propriamente ditas não apresentou nenhuma. O Governo não pode estar à espera que seja o PSD a apresentar propostas. O PSD já as apresentou no passado e já apelou a esses consensos e o PS e o atual secretário-geral nunca os quiseram.

Na prática a realização desses consensos é quase impossível. 

O caminho que o PS impõe é um caminho que vai no sentido contrário, em oposição total, àquele que estava a ser seguido. Nós vamos pagar muito caro algum populismo, alguma irresponsabilidade e o apego ao poder a todo o custo. 

Se houver uma crise política deve haver eleições ou o PSD admite voltar ao poder sem eleições?

Eu penso que o PSD não negoceia poder. Isso é o que faz o PS. O PSD apresenta as suas ideias, apresenta as suas propostas e conquista o poder. É assim que naturalmente deve ser feito em democracia.

Só voltará a governar com eleições.

Só deverá voltar a liderar o governo com eleições. É como a frase do dr. Durão Barroso: ‘o PSD sabe que voltará ao governo, só não sabe é quando’.

E Passos Coelho voltará a ser primeiro-ministro? 

Não tenho qualquer dúvida.

No PSD há quem pense que Passos Coelho não deve ser o candidato a primeiro-ministro se o Governo não cair a curto prazo. Morais Sarmento disse, há pouco tempo, que vê com enorme dificuldade a possibilidade de Passos Coelho ser candidato a primeiro-ministro daqui a três anos. 

Morais Sarmento já foi dirigente do PSD e é um alto quadro social-democrata. O que eu recomendaria é que quem tem essa vontade legítima e natural de ter participação política, como é o caso de Morais Sarmento, se disponibilize para concorrer às eleições autárquicas. 

Isso quer dizer que rejeita a ideia de que Passos Coelho pode ser um líder a curto prazo?

Passos Coelho tem todas as condições para seguir a sua própria vontade. Está dependente, única e exclusivamente, dele e por isso não vamos antecipar outro tipo de cenários. Passos Coelho foi o único na Europa que teve de aplicar um plano de austeridade forte e ganhou as eleições.

Nas últimas eleições, o PSD fez uma aliança pré-eleitoral com o CDS. Nas próximas, deve ir sozinho ou coligado? 

Eu diria que, à luz dos dias de hoje, o PSD e o CDS devem ir separados nas próximas eleições. Mas a política é hoje vivida com uma intensidade de tal ordem que qualquer previsão a mais de seis meses arrisca muito a perder-se. O PSD deve ir sozinho nas próximas eleições, mas mesmo obtendo maioria absoluta deve coligar-se com o CDS.

Em Cascais, a coligação com o CDS é para continuar?

Já tive o privilégio de ver a nova líder do CDS assumir que está muito satisfeita com a coligação em Cascais e dá-la como um bom exemplo. 

Mas no caso de Lisboa o CDS já disse que não quer ir coligado com o PSD.

O que se deve perguntar agora não é se o PSD vai coligado com o CDS. Para aquilo que se passou em Portugal ter lógica, eu só espero que o PS, o PCP e o Bloco de Esquerda se apresentem coligados nas autárquicas, daqui a um ano e meio. Isso é que faz sentido.

O lema de Passos Coelho neste congresso é ‘Social-democracia, sempre!’. É só um slogan ou representa alguma mudança no PSD?

Essa pergunta parte do pressuposto de que o PSD abandonou a social-democracia e agora vai recuperá-la. Eu não concordo nada com isso. 

Porquê?

Passos Coelho sempre foi social-democrata e sempre aplicou as medidas da social-democracia. Os primeiros anos de governo foram para cumprir as medidas impostas pela troika. Se não cumpríssemos, íamos à falência. Passos Coelho não teve a possibilidade de ter um mandato onde pudesse exercer as suas convicções, o seu projeto político, a sua estratégia de desenvolvimento do país, fundada na ideologia social-democrata. Se não fizesse o que fez, não vinha o dinheiro que precisávamos. Por outro lado, nós não podemos comparar hoje o modelo social-democrata ao modelo que se afirmou a seguir à segunda guerra mundial. A social-democracia partia de um pressuposto de que era preciso reforçar as componentes sociais a partir da criação de riqueza. O que nós temos assistido é que não há criação de riqueza e, por isso, a prioridade é salvaguardar os mais desfavorecidos. 

Mas são os próprios militantes do PSD a considerarem que o partido abandonou a social-democracia em alguns momentos. Ex-dirigentes importantes, como Manuela Ferreira Leite ou Pacheco Pereira, defendem que o PSD se afastou da matriz social-democrata...

Isso não é mais do que alguma birra, algum revanchismo, de pessoas que não têm representação nem no PSD, nem no eleitorado a nível nacional. 

O aparelho está completamente dominado por Passos Coelho?

Essa coisa do aparelho... Não se vai responsabilizar Passos Coelho por não ter havido ninguém que tivesse a hombridade de se apresentar. Eu sou do aparelho. Todos os que fazem críticas já foram do aparelho. Há um aparelho bom e o aparelho mau? É uma falsa questão. O que há é que Passos Coelho tem tido o reconhecimento da esmagadora maioria dos militantes do PSD e do povo português – coisa que esses críticos, que são cada vez menos, não têm tido. Mas essas críticas são feitas por cada vez menos ex-dirigentes do PSD. Temos de ter isso em conta. 

Rui Rio é visto como uma alternativa a Passos Coelho. Também o  vê como uma alternativa a esta liderança?

É uma questão que não é simpática de responder. É fácil de responder, mas não é simpática de responder. Aqueles que permanentemente dizem ‘agarrem-me que eu vou-me a ele’ e nunca se apresentam, nunca assumem o risco, sinceramente não merecem nenhuma consideração política da minha parte. Estão na política numa lógica negativa. Quem tem essas críticas deve apresentar-se e dizer quais são as suas ideias, coisa que também ainda não vi. Não é só uma escassez de ideias do PS. Mesmo nessa minoria crítica de ex-dirigentes do PSD – e neste momento não precisamos de mais do que uma mão para identificar as pessoas – não vejo projetos alternativos. O que vejo, muitas vezes, é uma incoerência em relação àquilo que foi a sua própria prática. Muitas dessas pessoas precisam de ter esse posicionamento para tentarem desesperadamente manter-se num ambiente mediático, mas o povo português não vive nem de demagogia, nem de ambiente mediático. Vive de quem governe e tenha a capacidade de salvaguardar as questões essenciais para a vida de cada um de nós.  

Rui Rio não seria um bom líder do PSD ou um bom primeiro-ministro?

Alguém que está preparado tanto para ser Presidente da República como para ser primeiro-ministro… não faz sentido, não tem uma linha de rumo.