Internacional

Panama Papers: por que só conhecemos o nome de um português

Idalécio Oliveira. Este é o único nome de um português conhecido de todos os que constam nos dados da sociedade de advogados Mossak Fonseca. É uma lista quase interminável de clientes que usavam os serviços desta sociedade para esconder rendimentos, grande parte pode ser oriunda de subornos, fugas ao fisco, tráfico de droga e armas e ainda fraudes financeiras - e é já considerada a maior fuga de informação da história. Nos chamados “Panama Papers” existem pelo menos 34 portugueses (23 serão clientes daquele escritório) – ou residentes em Portugal ­– e 244 empresas sediadas em território nacional. Os seus nomes serão revelados já nos próximos dias pelo Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação.

A divulgação dos dados foi planeada, de forma a que haja alguma organização no fluxo de informação, e essa é a razão que leva a que ainda não tenham sido publicados os nomes de portugueses. Mas o SOL sabe que existem muitos e são “pessoas relevantes na sociedade portuguesa”.

Ao longo de quase um ano de investigação, os jornalistas que integram este consórcio passaram a pente fino o nome de vários cidadãos nacionais que terão usado este esquema do Panamá para ocultar os seus rendimentos e património. O SOL sabe que parte da teia cruza-se com o chamado caso Swissleaks – uma rede que teria como ponto central a filial suíça do banco britânico HSBC e que permitia aos clientes fugirem ao fisco dos seus países.

Mas por que só se sabe de Idalécio?

O nome do empresário de Vouzela foi publicado por jornais brasileiros, dado o seu envolvimento com a petrolífera estatal Petrobras – a peça central da mega operação Lava Jato.

Tendo em conta o planeamento do consórcio internacional, os jornalistas brasileiros começaram a lançar os nomes dos naturais daquele país e dos que não sendo naturais estavam relacionados com assuntos relevantes. É aí que surge o português, quase desconhecido em Portugal.

Idalécio foi uma porta de entrada da petrolífera brasileira em África, continente onde se move com muita facilidade e onde tem muitos conhecimentos. Durante anos terá sido diretor da petrolífera Chariot, que operava na Namíbia.

Mas as suas aspirações eram maiores, queria ter os seus negócios. Em 2011 era dono da Lusitânica Group, que controlava a companhia CBH. E foi assim, por seu intermédio, que a Petrobras entrou na exploração do Benim. Uma aposta que se viria a revelar um fracasso.

Segundo a Folha de São Paulo noticiou na altura, a petrolífera brasileira comunicou ao mercado, em 2011, a compra de 50% do bloco exploratório número 4 com o objetivo de “buscar oportunidades em águas profundas e ultraprofundas na região”.

O negócio ruinoso

O bloco estava dividido em partes iguais entre a companhia brasileira e a CBH até que chegou outro nome de peso: a Shell. A empresa comprou 15% da parte da Petrobras e 20% da da CBH.

Mas não foram nem precisos cinco anos para que Petrobras e Shell abandonassem o projeto. Depois de algumas perfurações, o consórcio percebeu que não havia reservas de petróleo de grande dimensão.

A importância de Idalécio

Segundo a Folha de São Paulo noticiou no final do ano passado, Idalécio Oliveira é suspeito de ter estado na origem de 'luvas' pagas ao presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha – do PMDB, que há dias deixou o partido de Dilma e Lula isolado no governo.

Segundo um dos denunciantes do esquema no Brasil, a Petrobras comprou a sua parte da área de exploração por 15 milhões de dólares, tendo metade deste valor sido desviado para subornos.

A Mossak Fonseca cruzou-se, por isso e não só, por diversas vezes com os investigadores brasileiros da Operação Lava Jato.

O caso Panama Papers

Em julho do ano passado, o jornal alemão Süddeutsch Zeitung teve acesso a 2,6 terabytes de dados (no Swissleaks foram apenas 3,3 gigabytes). As informações envolviam nomes de 140 políticos de 50 países, vários ainda no ativo. Na prática, eram o resumo de 40 anos de história da sociedade de advogados que se dedicava à constituição de offshores, criando uma rede que se suspeita agora ter apenas como finalidade o branqueamento de capitais de grandes empresários, políticos,   desportistas e artistas.

Depois de o jornal ter recebido os dados, os mesmos foram entregues ao Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação. No total, estão envolvidos cerca de 400 jornalistas associados de vários países, incluindo os portugueses Rui Araújo (TVI) e Micael Pereira (Expresso).