Internacional

25 anos depois, a Rússia está de volta

Em 1983, quando os soviéticos interpretaram mal um exercício da NATO, estiveram a segundos de executar uma retaliação nuclear e de lançar o mundo num conflito de proporções catastróficas. O episódio é citado em Bandeira Vermelha, de David Priestland. Estávamos no auge da guerra de blocos por interpostos protagonistas. Os EUA apoiavam guerrilhas e regimes na luta contra regimes emergentes pós-soviéticos: em Angola, Moçambique, Etiópia, Nicarágua e Afeganistão, a pólvora e o sangue corriam a rodos. Nada fazia adivinhar que poucos anos depois, em 1991, a União Soviética seria levada ao tapete e que o Pacto de Varsóvia seria fechado por êxodo de participantes, faz hoje 25 anos.

No estertor do mundo do socialismo real começavam a aparecer os novos protagonistas dos conflitos atuais. «Homens jovens de todo o mundo muçulmano correram a juntar-se à jihad ou guerra santa, incluindo o filho de um abastado homem de negócios saudita, Osama bin Laden; era a sua Guerra Civil de Espanha», escreveu Priestland no seu livro sobre o comunismo. «Por outro lado, para Reagan, apoiar os mujahedin adequava-se perfeitamente à estratégia da guerra de guerrilha anticomunista. Ao contrário da tendência iraniana do islamismo, que exibia uma tonalidade fortemente socialista, os mujahedin eram socialmente conservadores. Eram também um movimento anti-imperialista, com genuíno apoio popular. Na declaração entusiasmada do diretor da CIA William Casey: ‘É nisto que está a beleza da operação afegã. Normalmente parece que os americanos grandes e maus estão a espancar os nativos. O Afeganistão é precisamente o inverso. Os russos estão a espancar os pequeninos’».

Há uma certa ironia da história que seja nos campos da Síria, 25 anos depois, e contra as milícias islamitas do Daesh e outras apoiadas pelo Ocidente, como a Frente Al-Nusra, braço armado da Al-Qaeda, que a Rússia faça a sua reentrada no terreno de potência militar imperial que tem força para jogar em todo o planeta.

My Way: cada país é livre de seguir o seu rumo

O Pacto de Varsóvia, aliança militar de vários países da esfera de influência soviética do pós-tratado de Ialta, foi fundado a 14 de maio de 1955, em reação à entrada da República Federal da Alemanha na NATO. Depois da II Guerra Mundial, Moscovo defendeu sempre que a Alemanha, provisoriamente desmembrada em dois Estados, devia ser um país neutral. Aderiram a este tratado a União Soviética, Albânia, Bulgária, Hungria, Polónia e Checoslováquia. A República Popular da China participou na assinatura como observador. A República Democrática Alemã adere oficialmente um ano depois. Na sequência da intervenção do Pacto de Varsóvia na Checoslováquia, esmagando a Primavera de Praga e seguindo a chamada doutrina Brejnev – quando forças hostis ao socialismo tentam desviar um país socialista para o campo capitalista, isso torna-se um problema, não só da nação interessada, mas comum a todos os países socialistas –, a Albânia sai do Pacto de Varsóvia.

Só depois da perestroika e da subida ao poder de Mikhail Gorbatchov é que o pacto vê os seus últimos dias. Gorbatchov anuncia a chamada doutrina Sinatra (o cantor de ‘My Way’), segundo a qual cada país socialista era livre de escolher o seu rumo. A 30 de setembro de 1990, a três dias da reunificação da Alemanha e consequente integração dos territórios da RDA na NATO, os soviéticos acordam com americanos e alemães que nenhumas tropas estrangeiras e nenhuma arma nuclear seriam estacionadas nesses países, que seriam impedidos de aderir à NATO. A 31 de março de 1991, o Pacto de Varsóvia foi oficialmente extinto.

No entanto, a promessa de paz durou pouco tempo, como nota Stephen F. Cohen no artigo ‘Gorbachev’s Lost Legacy’, no The Nation. «Eles [EUA e os seus aliados] promoveram o alargamento a leste da NATO (quebrando assim uma promessa que o primeiro Presidente Bush fez a Gorbatchov); assim como o fim do Tratado de Mísseis Antibalísticos, que havia desencorajado uma nova corrida ao armamento nuclear; o abandono do tratado de redução de armas nucleares, acordado em 2002; e o cerco militar permanente da Rússia com bases norte-americanas e da NATO em antigos territórios da esfera de influência soviética», contribuindo para um novo clima de tensão entre a Rússia e o Ocidente. «Estas políticas extremamente imprudentes são vistas, compreensivelmente, em Moscovo como uma tentativa de isolar e ‘conter’ a Rússia, e estão a levar o mundo a uma nova guerra fria», considera Stephen F. Cohen, professor de Estudos Russos nas Universidades de Princeton e Nova Iorque. A Rússia não reagiu aos alargamentos da NATO em 1997 e 2002, que incluíram os países que faziam parte do Pacto de Varsóvia. Só recentemente Moscovo traçou uma linha vermelha e se movimentou militarmente para impedir a adesão da Geórgia e da Ucrânia à aliança militar ocidental. As operações na Abecásia, a anexação da Crimeia e o envio de forças especiais russas para as zonas com maioria da população de língua russa, no leste da Ucrânia, são a demonstração de que Moscovo não está disponível para se deixar cercar.

Pela primeira vez desde o fim do Pacto de Varsóvia, a doutrina militar russa aponta os EUA e a NATO como potenciais agressores. E a modernização das forças armadas, patente na operação Síria, mostra que Moscovo ficou para contar, embora o pacto se tenha finado há 25 anos.