Opiniao

Terra Santa e Inferno

NImagine que vivia no Alto de Oeiras e nunca poderia molhar os pés no mar que avista de casa ou entrar na vizinha Lisboa: pois é o que acontece, no século XXI, aos palestinianos de Belém, que nunca obtiveram permissão de Israel para se aproximar do Mediterrâneo ou para entrar em Jerusalém, ali ao lado. Se forem nados e criados em Jerusalém estão sujeitos, como qualquer palestiniano, a uma burocracia securitario-kafkiana que os impede de reabilitar ou aumentar a casa ancestral, qualquer pretexto servindo para ordenar a sua demolição. E à sua volta têm tudo barrado, ruas emparedadas e divididas, o acesso à courela herdada vedado pelo muro de betão que serpenteia em volta da cidade, para asfixiar bairros e aldeias palestinianos e proteger colonatos que, a velocidade estonteante, preenchem as colinas.

Se sair de Jerusalém, para norte ou para sul, vai continuar a ver o muro da vergonha que desespera os palestinianos, tanto como impõe cerco mental aos israelitas – hoje cada vez mais «anestesiados» (recorro a linguagem papal sobre os europeus face ao drama dos refugiados) por uma extrema direita fundamentalista e agressiva, confluência de emigrantes russos e evangelistas americanos: não é só o discurso de alguns ministros de Netanyahu que arrepia, é a sofisticação cínica das políticas de ocupação, repressão e humilhação dos palestinianos que inviabiliza construir confiança e convivência pacífica entre povos tão próximos, religiosa e culturalmente.

Não tenho espaço para contar o que vi e ouvi em recente visita que me levou de Jerusalém a um acampamento beduíno no Vale do Jordão a norte, passando de Jericó à tensa cidade de Hebron, a sul: do cardápio de perversidades para expulsar palestinos das suas casas e terras, ao desastre político e ambiental envolvendo os recursos da água, aos 7.000 presos (700 em detenção administrativa durante anos), incluindo 480 crianças encarceradas, ao uso da tortura, à lei em preparação para secar as próprias ONGs israelitas...

Resumirei notando que nunca voltei tão alarmada da Terra Santa – e esta foi a décima visita que lá fiz desde que, pela primeira vez, a atravessei de lés-a-lés numa missão europeia chefiada pelo embaixador Leonardo Matias em Abril de 1992 (presidência portuguesa da CE), no início do Processo de Paz aberto pela Conferência de Madrid (Dezembro 1991). Alarmada por constatar que não há mais Processo de Paz: a guerra pode voltar a explodir a qualquer momento, na raiva de uma pedrada de crianças sem esperança por só conhecerem um quotidiano de humilhação e opressão, como seus pais e avós. Pior! Não há sequer autoridade palestiniana representativa e respeitada: tal como o Hamas em Gaza, a AP de Mahmoud Abbas é desprezada como instrumento ao serviço de Israel, para contenção do próprio povo. Adiar eleições (e a indispensável renovação geracional) só pode semear mais desilusão, radicalismo e violência.

Nenhum jovem palestiniano julga ainda viável a solução dos 2 Estados, que o Processo de Paz prometia. Sem o Estado da Palestina, Israel sucumbirá pela força dos números, democraticamente ou não: para qualquer palestiniano, procriar é resistir. Quem, como eu, se importa com Israel, não pode assistir impávido ao suicídio.

Também aqui a Europa falhou pela divisão, pelo alijar de responsabilidades, pela incapacidade para defender o seu interesse estratégico na Paz. A Alta Representante Federica Mogherini compreende como ninguém o que está em causa: a conferência que a França se propõe organizar pode ser a última oportunidade para mostrar o que vale a UE. Implicará terçar armas com Estados-Membros boicotantes – e interesses na exploração de gás no Mediterrâneo estão a forjar novas alianças com Israel. Enfim, se continuarmos «anestesiados» a assistir ao inferno na vizinha Terra Santa, não nos admiremos se se inflamar e propagar a terra de cruzados...

*Eurodeputada do PS