Politica

Um mês de Marcelo que até parece um ano

Marcelo chegou há um mês a Belém e as coisas nunca mais foram iguais. O Presidente passou a ser chamado pelo nome próprio, está sempre disponível para falar com os jornalistas, tem uma agenda frenética e não se escusa a distribuir beijinhos e selfies por onde quer que passa.

A tomada de posse, a 9 de março, mostrou um Presidente diferente. Marcelo prometeu lealdade e afeto João Girão
A entrada no Palácio de Belém, ladeado pelos oficiais da sua Casa Militar João Porfírio
Uma multidão foi saudá-lo na visita ao Bairro do Cerco, no Porto DR

Basta olhar para a agenda da Presidência do dia de ontem para perceber as diferenças entre Rebelo de Sousa e o seu antecessor. A agenda de Cavaco Silva era contida e muitas vezes tinha dificuldade em partilhá-la com os jornalistas. A quatro dias de sair do Palácio de Belém, o gabinete do Presidente Cavaco ainda não sabia informar qual seria o seu último ato oficial na Presidência.

Agenda frenética

Com Marcelo, a agenda chega às redações com antecedência e vem recheada. Só ontem, havia sete pontos na agenda pública do Presidente. Tudo atos que para os jornalistas acompanharem e que vieram mudar radicalmente a vida de quem tem como incumbência profissional acompanhar o que se passa em Belém.

Entre jornalistas, há quem brinque sobre as diferenças entre acompanhar Rebelo de Sousa e Cavaco. Esta quarta-feira, o Presidente esteve disponível para antecipar para os microfones da TSF o que iria dizer à tarde numa escola onde falaria sobre o que levaria consigo numa mochila se fosse refugiado de guerra. Com Cavaco, as intervenções eram sempre formais e muitas vezes com referências cifradas.

“Num direto, respondeu que o que queríamos saber estava num artigo qualquer da Constituição. Tive de segurar o microfone com uma mão e googlar o dito artigo com a outra no telefone para poder explicar do que se tratava no fim do direto”, comentava esta semana uma jornalista de televisão para sublinhar as diferenças na forma de comunicar entre Marcelo e Cavaco.

Mas não são só os jornalistas que sentem as diferenças. O contacto com o povo também mudou. Mais solto, Rebelo de Sousa não se escusa à proximidade com as pessoas. Disse que a sua marca seria a de uma Presidência “de afetos” e está a cumprir.

Furar o protocolo

Apesar das limitações de segurança e do protocolo - que tantas vezes fura -, o Presidente tenta manter alguma normalidade no seu dia-a-dia. Um exemplo disso foi dado logo na primeira semana no cargo, quando resolveu meter-se no carro e ir a conduzir até a casa de Mário Soares para visitar o ex-Presidente que, por motivos de saúde, não tinha estado presente na tomada de posse.

Nunca se tinha visto um Presidente ao volante. Como nunca se tinha visto um Presidente a chegar a pé à Assembleia da República para tomar posse. Mas foi isso mesmo que resolveu fazer depois de ter passado a noite anterior na casa onde passou a infância, na Lapa, a poucos metros do Parlamento.

Ainda antes da tomada de posse, os seguranças da Presidência já comentavam entre si as dificuldades que teriam na missão de acompanhar alguém que faz questão de manter uma vida tão normal quanto o cargo o permite.

Esta terça-feira, Marcelo Rebelo de Sousa voltou a mostrar que não está disposto a deixar por completo os hábitos da sua vida civil. Num intervalo da agenda, foi ao Hospital Curry Cabral visitar uma antiga colaboradora que estava aí internada. Marcelo sempre fez questão de visitar amigos e até alguns desconhecidos quando sabe que estão internados em situações complicadas. Gaba-se de ter o dom de saber o que dizer nestes momentos. E nem o estatuto de Presidente o fez não ir fazer a visita hospitalar.

Nos corredores do Curry Cabral, rapidamente foi passando a notícia de que o Presidente estava no hospital a visitar uma amiga. Em poucos minutos, médicos, enfermeiros, doentes e visitas tentaram chegar à fala com Rebelo de Sousa. Marcelo não defraudou ninguém e com o seu estilo próximo e afetuoso não recusou sequer os pedidos de quem quis aproveitar para ficar com uma selfie presidencial para a posteridade.