Cultura

Hans-D. Genscher: O arquitecto da unidade

O arquiteto da reunificação da Alemanha, seu ministro dos Negócios Estrangeiros que mais tempo e maior prestígio conferiu ao cargo, Hans-Dietrich Genscher morreu na noite do passado dia 31 de abril de paragem cardíaca. Tinha 89 anos e passou os últimos momentos rodeado da família na sua residência nos arredores de Bona, a capital da Alemanha Ocidental durante a Guerra Fria.

AP  

Refugiado da Alemanha de Leste, Genscher assumiu um papel decisivo enquanto líder da República Federal da Alemanha (a Ocidental), e nas quase duas décadas em que esteve à frente da sua diplomacia teve o mérito de, ao lado do chanceler Helmut Kohl, persuadir Moscovo a deixar que a Alemanha de Leste deixasse a sua esfera de influência para ser reabsorvida pelo Ocidente. Foi uma vitória tão mais significativa quanto se tratava do maior aliado soviético no equilíbrio de forças com o outro lado da cortina de ferro.

Genscher soube conquistar apoios para a sua visão da Alemanha como um árbitro com a missão de promover a paz e a prosperidade na Europa e no exterior, virando a página mais negra da sua história e procurando pôr fim à dinâmica vencedores/vencidos entre o antigo ‘eixo do mal’ e as potências mundiais que saíram vitoriosas da II Guerra Mundial. Guiou o governo no sentido de tornar claro o seu empenho na integração europeia, descansando os aliados ocidentais relativamente ao reaparecimento de um novo gigante alemão. Ao mesmo tempo multiplicou esforços para aplicar a Ostpolitik, a política de aproximação à Europa de Leste comunista, recusando diabolizar a União Soviética, atenuando a Guerra Fria e a corrida ao armamento.
Já nos anos finais, e refletindo sobre a sua carreira, Genscher referiu-se novamente ao dever da Alemanha de não se desviar da sua missão de promover a estabilidade na Europa e para além dela. «A Alemanha é o maior país e conta com o maior número de vizinhos na União Europeia – e isso significa uma responsabilidade», disse numa recente entrevista que foi para o ar na televisão pública alemã. «No longo prazo as coisas não podem correr bem para a Alemanha a não ser que corram bem para os nossos vizinhos».

No seu país, há muito que Genscher adquiriu uma aura de lenda viva da política e, como tal, à sua morte seguiu-se uma torrente de homenagens que chegaram de todo o mundo. «A Alemanha perdeu um estadista respeitado em todo o mundo, e, pessoalmente, eu perdi um dos meus melhores conselheiros», disse a chanceler alemã Angela Merkel. O actual líder do Partido Democrata Liberal (FDP), Christian Lindner, chamou-lhe «o arquiteto da unidade, um dos fundadores da UE». 
Comparado só com os mestres de um ou outro lado do tabuleiro de xadrez diplomático em especiais momentos de crise, figuras como o ministro do Exterior de Napoleão, Talleyrand, e o secretário de Estado norte-americano Henry Kissinger, Genscher foi laudado por este último como «uma pessoa de grande inteligência e sabedoria humanas», o arquiteto «de uma ordem internacional pacífica».
Os seus admiradores tinham chamavam-lhe ‘Genschman’ (Super-Homem), não pelos seus atributos físicos – na juventude sofreu de tuberculose e, em 1989, teve um primeiro aviso de que o coração viria a dar-lhe problemas – mas pela sua obstinação. O apogeu da carreira chegou, em setembro de 1990, com o tratado dos Dois mais Quatro, que libertou a Alemanha da tutela dos EUA, União Soviética, França e Reino Unido. Quinze dias depois da assinatura desse tratado, a Alemanha foi reunificada.

Mas nem todos o viam como um super-herói, e houve bastante ceticismo tanto em Londres, nos anos de governo de Margaret Thatcher, como em Washington, durante a presidência de Ronald Reagan. Algumas vozes não deixaram de registar que, por mais eloquente que fosse, o ‘Genscherismo’ era um caminho algo ‘escorregadio’. E, mais tarde, os críticos do diplomata defenderam que o seu papel no rápido reconhecimento da declaração da independência da Croácia e Eslovénia, pressionando os seus aliados europeus a fazerem o mesmo, em 1991, quando a Jugoslávia começou a desmembrar-se, nada fez para acautelar a guerra dos Balcãs, responsável por centenas de milhares de mortes.

Genscher nasceu a 21 de março de 1927 em Reideburg, perto de Halle. Cresceu sob o jugo do III Reich e foi recrutado para a Luftwaffe (Força Aérea) no final da II Guerra Mundial, tendo sido mantido como prisioneiro de guerra primeiro pelas forças norte-americanas e depois pelas britânicas. Regressou a Halle para acabar os estudos no liceu, a que se seguiu o curso de Direito, que viria a concluir em Leipzig.
Deixou Halle, fugindo da Alemanha de Leste, em 1952, para prosseguir uma carreira de advogado no Ocidente. Em Bremen juntou-se ao FDP, e cedo se mudaria para Bona para se ocupar da liderança do partido, casando-se com Luize Schweizer em 1958.

Divorciaram-se em 1966, um ano após ter conquistado pela primeira vez assento no Bundestag. Em 1969, casou-se com Barbara Schmidt, a sua secretária no gabinete parlamentar, que lhe sobrevive, tal como a filha, Martina, fruto do primeiro casamento.

O FDP – que nunca deixou de ser uma pequena formação que ganhou protagonismo pela frequência com que entrou em governos de coligação –, deu o seu apoio no parlamento aos Sociais Democratas de Willy Brandt em 1969, e Genscher tornou-se ministro do Interior da coligação que iniciou o longo processo para pôr fim a divisão do país, suavizando as tensões com Moscovo sem abdicar do compromisso da Alemanha Ocidental com a NATO. 
Genscher afastou-se do governo em 1992, pouco depois do seu 65.º aniversário. Seis anos depois decidiu deixar o Parlamento e retomou a advocacia e consultoria, mantendo uma regular participação no debate público. Um pró-europeísta dedicado, ajudou a abrir caminho para o euro, com um memorando para a criação do Banco Central Europeu, um dos primeiros passos para o lançamento da moeda única, em 1999.