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Horácio Roque: o rosto por detrás do Banif

Uma pessoa inesquecível, simples e com elevado capital de simpatia. É desta forma que as pessoas mais próximas recordam Horário Roque, o homem que fundou o Banif e esteve envolvido nos mais variados negócios. Um amigo seu, que pede anonimato, diz mesmo: “Não há um dia que passe que não me lembre dele e nunca tive ninguém de quem sentisse tanta falta como sinto a dele”.

Tudo isto faz com que a máxima de Horácio Roque seja cumprida à risca: não passar despercebido, ser reconhecido e conquistar o respeito dos outros. O sentimento de respeito era, de resto, recíproco, como admite Paula Mascarenhas, que apesar de ter convivido com o banqueiro só entrou no Banif depois da sua morte: “Todas as pessoas gostavam de trabalhar com ele e sabia o nome de todos os colaboradores e perguntava pela família”.

Defensor da economia de mercado, da concorrência e da liberdade, o empresário esteve quase sempre presente na lista dos homens ricos de Portugal. E acreditava que, se há coisa que não se pode comprar é a respeitabilidade. Era comum ouvi-lo dizer: “As pessoas ou têm respeito por nós ou não” e era um forte critico da ostentação da riqueza.

Querer passar um fim de semana com a família e não poder. Interromper as férias para tratar de algum assunto importante que tivesse surgido ou faltar a um jantar marcado eram sacrifícios habituais a que o banqueiro se sujeitava para chegar onde chegou.

Quando faleceu, em maio de 2010, com 66 anos, na sequência de um acidente vascular cerebral (AVC), deixou atrás de si um império e um rasto de muitos negócios em diversas áreas. No dia anterior tinha apresentado os resultados do banco numa conferência de imprensa em que começou por dizer: “Os resultados não são tão brilhantes como gostaríamos. Mas são o que são”. Uma frase que “mostrava bem o seu perfeccionismo”, explica Paula Mascarenhas. “Sempre quis dar o seu melhor em todas as áreas em que apostava”.

Dois anos antes, em 2008, tivera um problema greve de coração, que o obrigou a ser operado de emergência. A verdade é que não “perdeu” muito tempo na sua recuperação. A sua energia rapidamente o trouxe de volta ao ativo. Energia essa que acabava por contagiar todos os que estavam à sua volta.

A aventura em Luanda

HorácioRoque nasceu na aldeia de Mogadouro, a 80 quilómetros de Oleiros, em Castelo Branco. Tal como a esmagadora maioria das pessoas da terra, os seus pais também se dedicavam à agricultura. Mas o mais novo de cinco irmãos – tinha uma diferença de 20 anos de idade em relação ao mais velho, daí ter estabelecido uma relação muito estreita e de grande cumplicidade com a mãe – possuía uma ambição maior e um espírito de aventura que o obrigaram a deixar a terra natal.

Aos 14 anos viaja para Angola com 500 escudos em seu poder e a verdadeira aventura começa aí. Em Luanda, começa a trabalhar primeiro como caixeiro-aprendiz e depois como empregado de restaurante. Numa entrevista ao “Jornal de Negócios” confessou que na vida só teve dois empregos e dois patrões. “Em 1959, o meu primeiro patrão prometeu-me 800 escudos e no fim do mês deu-me 1000 escudos. A minha primeira poupança foram 200 escudos por mês. No fim do ano, comprei uma mota, de que precisava para me deslocar, para ir trabalhar e estudar à noite. Mudei de emprego, passei a ganhar muito mais. Até que aos 18 anos fui desafiado para abrir um restaurante e cervejaria em conjunto. Chamava-se Munique. Quando voltei a Luanda, nos anos 90, ainda existia”, referiu.

Enquanto geria o restaurante, contratou um professor para ter aulas particulares. A ideia era simples: continuar os estudos. O professor improvisava um colégio em casa e Horácio Roque acabou por lhe propor abrir um colégio. Perante o sucesso deste negócio, dois anos mais tarde, acaba por inaugurar o colégio Universal, dois institutos e um outro com cursos práticos. Arranjou mais sócios e lançou também o colégio Verney, em Moçambique.

Paixão africana

Mas nessa fase o negócio já ia longe e abrangia as mais variadas áreas: vendia produtos de beleza alemães, vinho, medicamentos e, até, perucas chinesas. Reconheceu mais tarde que tinha bastante poder e estatuto em Angola: “Era jovem, tinha bons carros, dava nas vistas. As pessoas tinham um bom conceito a meu respeito. Preocupo-me com aquilo que os outros pensam de mim. Não preciso que gostem de mim. Mas preocupa-me que não haja uma grande divergência entre o que pensam de mim e o que sou”, referiu.

Já em relação à sociedade angolana considerava-a bem diferente da europeia e da americana. E a razão, no seu entender era esta: “Foi construída por nós, à nossa maneira. O surto de desenvolvimento foi incrível no princípio dos anos 60. Cresceu em pessoas, riqueza, em tudo. Eu cresci com ela. Fazia parte de algo que tinha ajudado a construir”, referiu nessa mesma entrevista ao “Jornal de Negócios”.

A simplicidade e a informalidade que caracterizavam a cidade angolana conquistaram o banqueiro. “As pessoas não tinham de telefonar antes de ir a casa de alguém. Batiam à porta e entravam”. E acrescentou: “Na minha casa de Lisboa e na de Joanesburgo tento manter essa informalidade de Angola. Os almoços combinados à última da hora, este e aquele que também se juntam. Mas foi um tempo que acabou. Tudo deslizava melhor. Nem se perdia tempo com o trânsito, nem havia a burocracia que há hoje. Nunca precisei de advogados para fazer contratos: era olhos nos olhos e apertos de mão. A palavra bastava. Já não se pode funcionar assim. Essa vida apaixonava-nos”, confessou.

Acaba por trocar Angola pela África do Sul em 1976, depois de ter perdido tudo o que tinha com o 25 de abril e a descolonização. “O pior momento da minha vida foi quando saí de Angola, em 76. Toda a minha vida estava orientada para Angola. Achava que ia morrer em Angola. Que Angola era a maior terra do mundo. De um momento para o outro, senti-me de mãos a abanar. De um momento para o outro, olho para trás e vejo o desmoronar de toda uma vida”, revelou.

Na mesma entrevista, quando questionado sobre “se tudo desaparecesse, o que gostaria de manter”, respondeu: “a casa da aldeia por respeito aos meus pais. Mas se alguma coisa me acontecesse, gostaria de manter a minha saúde física e mental. E a minha capacidade para o otimismo e para me rir de mim próprio”. E já à pergunta “onde quer ser enterrado?”, respondeu: “em parte nenhuma! Não quero morrer!”.

Apesar da paixão que tinha por Angola, só voltou a pôr os pés em terras angolanas em 1992. A partir daí nunca mais voltou ao país onde toda a sua carreira começou. Várias vezes referiu que Angola saiu do trajeto dos seus negócios devido às ligações políticas da sua ex-mulher, Fátima Roque, à UNITA. “Esta minha história de Angola ilustra bem como os valores materiais são transitórios. Não podemos basear a nossa vida nisso. Os grandes impérios, de um dia para o o outro, caem”.

Amizade para a vida

É na segunda fase da sua vida, em Joanesburgo, que conhece Joe Berardo. O madeirense tinha emigrado para a África do Sul com 19 anos e feito fortuna com vários negócios, nomeadamente com as minas de ouro. Roque acaba por se tornar amigo e sócio do empresário madeirense. Há quem diga que os dois tinham várias coisas em comum: visão para os negócios, ambição e astúcia, predileção pelo sexo feminino e por t-shirts pretas.

Acabaram por se dedicar à exploração de minas de ouro e de diamantes e de minérios na Austrália e Canadá. Horácio Roque manteve negócios na África do Sul (uma cadeia de agências de viagens, uma gráfica, um jornal e vários negócios imobiliários). Após a sua morte, Joe Berardo disse apenas: “Foi uma desgraça o que aconteceu, para mim era como um irmão”.

Foi também na África do Sul que conheceu João Soares, que lhe ligou à chegada a Joanesburgo. De visita à casa de Soares, acabou por ter de ficar ali, depois de terem sido avisados que houvera uma ofensiva militar e era perigosa sair. Anos mais tarde, foi na casa de Horácio Roque que João Soares acabou por convalescer durante 15 dias após o acidente de avião na Jamba, em que quase perdeu a vida.

Maior negócio

Na década de 80, Horácio Roque regressa a Portugal e é aí que se dedica à sua principal atividade. A 15 de janeiro de 1988 é constituído o Banif, Banco Internacional do Funchal, integrando todo o ativo e assivo de uma pequena instituição financeira madeirense em dificuldades - a Caixa Económica do Funchal. A principal aposta passou pela recuperação e criação de condições à futura sustentabilidade dessa instituição. O banco viria a ser o principal foco da vida empresarial de Horácio Roque e deu origem ao Banif Grupo Financeiro.

O empresário só saiu do grupo restrito de milionários internacionais da revista “Forbes” em 2008 - nesse ano aparecia na 843.ª posição, com uma fortuna calculada em 1,4 mil milhões de dólares (1,12 mil milhões de euros).

Horário Roque deixou em herança de mais de 100 milhões de euros à sua antiga secretária Paula Caetano, mulher com quem vivia há oito anos. Tinha duas filhas do seu único casamento, com a antiga dirigente da UNITA Fátima Roque. Em relação à educação das filhas confessou que lhes deu “todas as armas”, por terem estudado nas melhoras escolas. “As duas fizeram o St. Julian’s em Carcavelos. A mais velha foi para Oxford, Itália, Washington. A mais nova fez antropologia social em Lisboa e depois uma pós-graduação na London School of Economics”, salientou na mesma entrevista.

Horácio Roque deixou bens e propriedades não só em Portugal continental mas também na Madeira, Brasil e África do Sul. Além das atividades financeiras, em que estava especialmente empenhado, o empresário mantinha outros negócios, do turismo ao imobiliário. Exemplo disso era a atividade que detinha a meias com o amigo e empresário Joe Berardo, com três hotéis na Madeira. Só no ano passado é que o madeirense e os herdeiros de Horácio Roque venderam a Siet Savoy, que detinha na Madeira as unidades hoteleiras Royal Savoy e Savoy Gardens, ao grupo AFA.

A Empresa Madeirense de Tabacos foi outro dos negócios em que manteve sociedade com Berardo. Diversos projetos na área do imobiliário, empresas de rações para animais e produtos avícolas foram outros tantos investimentos.

Em 1991 criou a Fundação Horácio Roque, à qual o banqueiro presidia, com o objetivo de desenvolver atividades nas áreas educativa, social e cultural.

Foi por várias vezes condecorado, recebendo, entre outras, a Comenda da Ordem do Infante D. Henrique (1988), e a Condecoração Nacional da Ordem de Vasco Nuñez de Balboa (1998), do Presidente da República do Panamá. Foi também nomeado várias vezes empresário do ano. Prémios que, no entender do banqueiro, alimentavam o ego.

Guerra à volta da herança

Teresa e Cristina Roque são as herdeiras universais da sua fortuna, mas a ex-secretária Paula Caetano foi considerada como legatária no testamento do empresário com a propriedade da SOIL. A sociedade anónima detém 52% da Rentipar Seguros, empresa que, por sua vez, possuía a totalidade das ações da Açoreana Seguros e da Global Seguros. Os restantes 48% da Rentipar pertenciam ao Banif, destinado às duas filhas do empresário.

Os problemas nesta família surgiram após o falecimento do banqueiro. A primeira mulher de Horácio Roque, Fátima Roque, sempre reclamou metade da herança, que ficou indivisa quando se divorciou do fundador do Banif. No entanto, as filhas sempre discordaram e acenavam com o acordo de partilhas feito em 1999 entre os pais. Desta forma, à data do seu falecimento, no entender das filhas, só existiam duas herdeiras universais.

Perante esta tomada de posição, Teresa Roque acabou por avançar para a barra do tribunal. A ex-mulher de Horácio conseguiu que o Tribunal da Relação de Lisboa decretasse o arrolamento dos bens do casal que não foram objeto de partilha durante o divórcio, por mútuo acordo, ocorrido em 1999. Ou seja, decorridos quase 15 anos sobre o divórcio, um acórdão emitido a 12 de julho pelo Tribunal da Relação de Lisboa reconheceu a Fátima Roque o direito à meação - ou seja, a metade do património do casal. A outra metade ficou para as duas filhas do casal que são, também, as herdeiras universais do pai. Uma situação que ganhou contornos inesperados. Um ano antes do falecimento do banqueiro, era frequente a mãe e filhas serem vistas juntas em vários eventos sociais. Teresa Roque chegou a dizer que “tinham juntas um percurso pela paz e democracia que cimenta uma amizade e cumplicidade muito grandes. Além de mãe e filhas somos grandes amigas”, acrescentou.

Já no início deste ano, a família de Horácio Roque admitiu contestar judicialmente a medida de resolução aplicada ao Banif no dia 20 de dezembro. A Rentipar, que passou como herança indivisa para a família do fundador do Banco Internacional do Funchal, considera que avançar com uma “ação contra o Estado Português está no campo das possibilidades”. A Rentipar assume-se como “a maior lesada do Banif, juntamente com os contribuintes”. Para já, a filha de Horácio Roque estima em 555 milhões a perda só com os investimentos globais realizados no Banif.