Internacional

Panama Papers: Rede de investigação vai ser alargada

Documentos vão continuar na posse exclusiva dos jornalistas. Acordo entre membros do consórcio estabelece regras de independência em relação aos poderes político e judicial de cada país.

Até às primeiras semanas de maio, o Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação – CIJI, na sigla portuguesa, e representado em Portugal pela TVI e pelo semanário Expresso – vai revelar os nomes das mais de 214 mil empresas e pessoas que recorreram à Mossack Fonseca para ocultar o seu património. E depois desta fase inicial de divulgação dos chamados ‘Papéis do Panamá’, o CIJI admite alargar a partilha de informações com mais jornalistas, apesar de garantir que os dados que saíram dos escritórios de advogados sul-americano não vão ser entregues às autoridades.

É uma questão de princípio. Os responsáveis do CIJI explicam que os dados passados por uma fonte ao alemão Süddeutsche Zeitung não serão publicados em bruto – ao contrário do que optou por fazer Julian Assange com o Wikileaks, por exemplo – porque o consórcio é, como o nome indica, uma «organização de jornalismo de investigação» e, como tal, uma organização que «reporta histórias que são de interesse público». Entre os 11,5 milhões de ficheiros que chegaram ao CIJI há muita informação que se enquadra nesse perfil, mas muita outra não passa de matéria de «natureza privada» e que, por isso, nunca deverá ver a luz do dia. «O CIJI não vai divulgar os dado em massa mas vai continuar a partilhar tudo com os seus parceiros de investigação», refere o consórcio.

Essa rede de jornalistas que estão a analisar os vários milhões de páginas poderá alargar-se em breve. «Assim que tivermos concluído a publicação de uma série de histórias já planeadas com os nossos parceiros, a nossa atenção vai virar-se para países em que ainda tenhamos trabalho de investigação para fazer», explica o consórcio. Nessa fase, os meios de comunicação que têm manifestado ao CIJI a sua intenção de colaborar nos ‘Papéis do Panamá’ poderão ter carta branca para trabalhar os vários terabytes de informação. Quão alargada será essa nova fase, ainda está por definir.

Informação fica no consórcio

Também não será através dos dois jornalistas portugueses que integram o consórcio (Micael Pereira, do Expresso, e Rui Araújo, da TVI) que as autoridades terão acesso a dados sensíveis. É essa a «política de longa data»  do consórcio: «Não entregar material» que chegue aos seus jornalistas através das respetivas fontes. Essa postura tem sido questionada, sobretudo pelo ritmo que poderia imprimir a eventuais processos judiciais se fosse entregue ao Ministério Público ou à Autoridade Tributária e Aduaneira. Mas, o CIJI «não é um braço das forças judiciais e não é um agente de qualquer governo», justifica o consórcio.

Joaquim Vieira considera que se deve «respeitar a opção dos jornalistas». Ele próprio, enquanto jornalista de investigação, manteve essa distância. «Não me recordo de alguma vez ter comunicado alguma da informação que reuni nos meus trabalhos às autoridades», refere. Além disso, «o compromisso dos jornalistas deve ser só com o público». Se ao MP alguma da informação suscitar dúvidas sobre a prática de crimes, os procuradores «podem sempre tomar a iniciativa lendo o que foi publicado, porque o jornalista publica sempre tudo o que sabe», defende Joaquim Vieira. Além disso, «as autoridades têm meios à sua disposição para investigar que os jornalistas não têm», conclui.

Autoridades no terreno

Esse princípio de resguardar a informação não impediu a justiça de atuar. Esta semana, o Ministério Público do Panamá – onde está situada a sede da Mossack Fonseca – pôs em marcha uma operação de buscas à empresa. Na noite de terça-feira, os procuradores procuravam «obter documentação relacionada com as informações publicadas nos artigos noticiosos que estabelecem a eventual utilização da empresa em atividades ilícitas». Um dia antes, já os servidores da empresa tinham sido passados a pente fino por uma equipa do departamento de Propriedade Intelectual e Segurança Informática do MP panamaense.

Na semana passada, as autoridades suíças também avançaram. A sede da UEFA foi alvo de buscas relacionadas com as informações divulgadas no âmbito do caso ‘Papéis do Panamá’. «É essa a principal missão do jornalismo, a denúncia pública», sublinha Joaquim Vieira.