bi_sol

Olivença. Além Guadiana, fala-se cada vez mais português

Antes de morrer, os oliventinos chamam por Deus. Assim, em português, disse-nos um historiador de Estremoz. Sorrimos, condescendentes, e desvalorizamos. Duas horas depois, um oliventino diz-nos que, no leito de morte, as últimas palavras de quem nasceu em Olivença saem em português. Sorrimos novamente, começamos a acreditar. Até que, quatro horas depois, outro oliventino conta-nos a mesma história: assim, sem que tenhamos sequer perguntado. Aí, deixamos de sorrir. Se, por um lado, pensamos que estão a gozar com a nossa cara e que a ideia mais não passa do que um dito romântico, por outro, a solenidade com que nos falam faz-nos crer que efetivamente ficou algo de muito português na alma destas pessoas.

Sentimentos etéreos à parte, passamos aos números: 456 oliventinos já pediram a nacionalidade portuguesa. Desses, 196 esperam autorização.

Partimos para as entrevistas – e para Olivença – num dia em que a primavera banhava a Estremadura em todo o seu esplendor, com a ideia lacada de que os pedidos foram unicamente feitos de uma perspetiva pragmática. Afinal, possuir duas nacionalidades traz potencialmente (ou, pelo menos, o dobro) das oportunidades. As respostas que ouvimos dos nossos novos conterrâneos acabaram por mostrar muito mais sentimento do que esperávamos encontrar. Tanto que ouvimos a palavra saudade em quase todas as entrevistas. Tanto, que saímos de Olivença com a sensação de que aquela terra no limbo, palco de história, de lutas e desencontros, tem uma magia especial. E a culpa não foi sequer dos monumentos, ou das chaminés alentejanas misturadas com janelas cobertas de grades de ferro forjado espanhol. A culpa foi de Ana Marquez, Joaquín Fuentes Becerra e José Antonio Carrilo. “Somos espanhóis, mas também somos portugueses. No fundo, somos oliventinos”, explicou ao B.I., num português quase perfeito, Joaquín Fuentes Becerra, membro da associação Além Guadiana, criada em 2008, que se dedica a explorar a biculturalidade de Olivença.

Encontramo-nos no pátio de casa dos pais, debaixo de um limoeiro carregado. Antes, perguntáramos a  dois polícias onde fica a Calle de Portugal. “A Avenida de Portugal, quer dizer! Por ali, à direita, é muito perto”. E ainda levamos um “de nada” em resposta ao nosso “muito obrigado”. Não é, no entanto, sempre assim. Há uma geração que já não fala ‘português oliventino’. E há outra – a de Joaquín – determinada a que a lusofonia não se perca dentro das ameias de Olivença, mesmo que isso implique ter de aprender a língua, de forma autodidata ou até dentro de uma sala de aula.“Os meus avós falavam português entre eles e, connosco, sempre em castelhano”, conta. Esta versão repetir-se-á à medida que vamos falando com mais gente. “O português era visto como uma língua de retrocesso, do passado, por isso não era ensinada às crianças”. Uma sociedade reprimida pela ditadura franquista apressou o esquecimento.

Os membros da Além Guadiana põem-se à margem da questão política e territorialista - a cultura é, segundo Joaquín, o que os move. E aqui há culturas. Uma, que fundou a vila alentejana e foi soberana durante cinco séculos - a portuguesa. Outra que, depois da Guerra das Laranjas (mais lírica, em nomenclatura, só mesmo a Guerra das Rosas), detém o município: a espanhola.

Versos à parte, a transição é contada com alguns relatos menos simpáticos. Probição total de falar português, escudos com armas de famílias lusas picados, e até proibição de rezar a alguns santos tradicionalmente portugueses, como o Santo António. Resultado: dois séculos depois, os oliventinos sentem-se espanhóis. Espanhóis, mas...  E esse mas ficou gravado no ADN como ferro em brasa (nuns mais do que noutros, é verdade). Que o diga Ana Marquez, 35 anos, professora de inglês e português no IES Puente Ajuda e cantora no grupo de folk bilingue Acetre. “Em fevereiro, cantámos uma versão da música alentejana ‘Erva Cidreira’ com o grupo Cantares de Évora. Foi um momento lindo, de sentimento, de emoção, de saudade. Até chorámos”.

A emoção de que Ana fala também é sentida um bocadinho todos os dias – e cada vez mais – nas aulas. “Cada vez tenho mais alunos nas minhas aulas de português, há muitíssimos”, conta. Aprender português é opcional, mas a verdade é que as turmas estão cheias e, num dos dias que o B.I. passou em Olivença, houve uma reunião com representantes de todas as escolas do município, a Além Guadiana e a Câmara Municipal, para se agilizarem estratégias de ensino da língua. “Esta comissão foi criada não só para programar o ensino nas escolas mas também para delinear estratégias para a  comunidade compreender a importância da língua”, conta Ana. “Os alunos querem aprender não só pelo passado mas também a nível de oportunidades, quando tiverem, por exemplo, de ir para a universidade. E não são apenas os alunos, há muitos pais a estudar português”. Motivações à parte, a professora considera que os alunos de Olivença têm uma aptidão especialíssima. “O sotaque é muito bom, muito melhor do que noutras pessoas de outras partes de Espanha”.

Para ela própria é motivo de orgulho quando, em Portugal, lhe perguntam de que zona do país é. “Dantes diziam-me que falava muito bem e, mesmo quando estudei no Reino Unido, perguntavam-me se era portuguesa. Agora já sou!”. Ana foi uma das primeiras pessoas a pedir e obter a dupla nacionalidade, há cerca de dois anos. “No meu caso, em termos profissionais não tem relevo absolutamente nenhum. Pedi a cidadania portuguesa por uma questão de saudade. Por uma questão de identidade”. Pelas conversas com amigos e colegas, acredita que, no futuro, a maioria dos oliventinos escolherá o mesmo caminho.“Na escola estamos a fazer um trabalho importante para recuperar o nosso passado português e trazê-lo para o presente”.

E, aos poucos, o presente de Olivença vai tendo cada vez mais marcas e cidadãos portugueses. Por exemplo, desde 2010 que a toponímia portuguesa das ruas voltou a estar presente, em azulejos que indicam os antigos nomes portugueses por baixo dos espanhóis. “As duas culturas são vitais para que se perceba Olivença”, diz-nos Joaquín,  guia turístico de profissão e além de um dos fundadores da Além Guadiana. “Para nós, a biculturalidade não é uma questão diplomática. O Além Guadiana é fruto de um grupo de oliventinos e oliventinas com diferentes ocupações mas uma sensibilidade comum, que tiveram noção que era preciso, através de um movimento de cidadãos, valorizar a cultura portuguesa em Olivença”.

Um dos pilares mais importantes do trabalho da associação é a própria língua. “O português foi a língua do povo até meados do século XX, mas por diferentes causas esse português oliventino entra em declínio. Chegou a uma altura em que apenas os mais velhos falavam. Penso que o que estamos a fazer nesse sentido está a ser positivo, agora está muita gente a aprender. Estamos a por o nosso grão de areia neste processo”, diz a rir.

No caso de Joaquín, essa aprendizagem tem sido feita fora das salas de aulas. “Não tive a sorte de ter a língua portuguesa na escola. Os meus avós falavam português, mas os meus pais falaram comigo em castelhano, isto aconteceu em todas as famílias e foi assim que se deu a ruptura geracional. O meu mau português é autodidata”, diz, quase sem sotaque. E está a ensinar as filhas de 12 anos. “Procuro que se familiarizem com as palavras, espero que mais adiante elas possam ter ferramentas para aprender português nas escolas”.

Também Joaquín fala da comissão criada no final do ano passado para potenciar o ensino bilingue nas escolas do município. “Em algumas escolas ainda não há aulas de português, noutras é completamente simbólico. Mas essa tendência está a mudar. Queremos criar um plano  para que as crianças, desde muito pequenas, possam aprender a língua. E um plano que assegure continuidade ao longo das etapas educativas”, afiança.

Perguntamos a Joaquín se esta decisão e esta vontade também é estratégica, fora os pós do romantismo cultural e da saudade de que nos falam repetidamente. “Às vezes não sei onde termina uma coisa e acaba a outra, está tudo interligado. Tudo isto tem para nós um fundo cultural, afetivo, mas também económico. Olivença tem no seu próprio carácter e história esta grande ferramenta de futuro, tem é que ser bem aproveitada”.

Se é uma questão também estratégica, porque não acontece o contrário em Elvas, porque não aprendem estes portugueses nas escolas a falar espanhol de forma reiterada e sistemática? “Sim, os portugueses de Elvas podiam aprender de um ponto de vista exclusivamente económico, é muito interessante”, diz Joaquín. “Mas mas aí entra o fator emotivo que nós temos. Não nos podemos esquecer que, para os oliventinos, o português é uma língua própria. Não é uma língua estrangeira. Olivença ainda faz parte do mundo lusófono e nós queremos que continue a ser assim. Aqui fala-se português sem interrupção destes os tempos de D. Dinis! Mesmo durante um século e meio depois da mudança de nacionalidade o português manteve-se vigoroso”.

Joaquín resolve a questão da fronteira com uma retórica simples mas desarmante.“Sinto-me, verdadeiramente, espanhol e português, tenho duas nacionalidades. Há aqui uma coisa muito importante de que as pessoas se esquecem: para além das fronteiras, estão as pessoas. E as pessoas é que são as culturas. Ninguém tem dúvidas de que se fala português no Brasil ou em Timor. Ninguém fala de fronteiras aí. O português une-nos. Para além disso o que realmente importa?”

Para Joaquín e para a Além Guadiana, a fronteira não importa, portanto, para nada. Posa orgulhosamente para a fotografia com o símbolo das suas nacionalidades, e diz não ter dúvidas de que cada vez mais pessoas vão pedir o cartão de cidadão português. “Nos últimos anos houve uma grande mudança de mentalidade, antes havia tabus e preconceitos em relação à nossa história e a Portugal, mas isto começou a mudar através de várias atividades culturais”. O mais interessante do processo é, para Joaquín, a transversalidade. “Não podemos traçar um perfil das pessoas que estão a pedir a nacionalidade, há de todas as idades e com os mais diversos níveis académicos. Pode ter começado com pessoas mais sensíveis a nível cultural, mas alastrou-se muito rápido”.

Mas a língua é apenas um exemplo de como esse aproveitamento pode ser feito. “Há também a gastronomia, o património monumental muito interessante, há jóias como a igreja da Madalena, temos a história de personalidades importantes que nasceram aqui”. Esta sexta-feira, por exemplo, será lançada a confraria gastronómica de Olivença. O prato escolhido para símbolo? “É a sopa de tomate com figos, tomates, pimentos, oregãos, azeite, pão e, claro, figo. Mas há muitos pratos alentejanos que são também típicos em Olivença, como a sopa de batatas com beldroegas. E foi mantida a influência portuguesa na doçaria, a maior parte dos doces de Olivença tem ascendência alentejana”.

Joaquín é um entusiasta, um oliventino que quer usar este local “único na Península Ibérica que tem esta história tão pouco comum” como um sítio de encontros entre duas culturas, como um exemplo de união. E a Câmara Municipal não se tem alheado deste caminho, embora não tenha sido assim no passado.

Meia dúzia de passos ao lado da Madalena, está a Câmara Municipal, com um pórtico rodeado de esferas armilares e encimado de cruzes de Cristo, que é também a entrada principal do alcaide Manuel González Andrade, presidente da Câmara Municipal há dez meses. “Tenho muito orgulho no meu passado português... mas somos espanhóis”, diz a rir. O orgulho no passado e a tentativa de manutenção da história - importante para um grupo cada vez maior de oliventinos - já o fizeram, no entanto, tomar medidas: está a aprender português, assim como os vereadores da Câmara.“Julgo que é importante, até para os municípios do interior, se unirem e explorarem potencialidades”.

Deixamos o alcaide, passamos novamente pela igreja, símbolo de cinco séculos de soberania portuguesa. “A Madalena, nada menos! Esse lindíssimo barco ancorado permanentemente em terra”, definiu-a assim Alfonso Franco Silva, professor catedrático de História da Idade Média na Universidade de Cádis e académico correspondente da Real Academia de História. Temos encontro marcado com outro historiador, desta feita português. E talvez o português que persegue mais insistentemente a história de Olivença.

Para Carlos Luna, o Professor de história em Estremoz, o encantamento começou ainda criança.  “Sempre ouvi falar de Olivença, desde miúdo, e sempre tive interesse pela história e por línguas. Lembro-me de, em 1968, muito miúdo, vir aqui com o meu pai. As pessoas falavam português na rua”, conta o professor. “Em 1988, por simples curiosidade, voltei a Olivença, que não visitava desde criança. Nessa altura, falava às pessoas em português e ninguém me respondia. Sentava-me nos cafés a falar com as pessoas sobre a história de Olivença e fechavam-me a porta na cara. “Não queremos hablar de historia”, até se sentiam ofendidos por perguntar. Só pensava que havia algo de errado, afinal a história deles era a minha também”, vai explicando, qual contador de histórias, com o seu sotaque alentejano cerrado. “Até que - e guardo esse episódio com algum carinho - na Rua do Buraco do Juiz [porque havia um juiz em Olivença, do tempo português, que quando era preciso fazer um julgamento mais importante desaparecia, e o povo de Olivença dizia que lá estava o juiz escondido no buraco], uma senhora dona de uma pastelaria, Carmela Fuentes, me chamou, em português, e explicou que em Olivença não se podia falar destas coisas, por questões políticas queriam que a história fosse esquecida”.

Carlos levou a revelação como um desafio e meteu aos próprios ombros a responsabilidade de reavivar a história. Produziu panfletos que distribuía, estudou sistematicamente a zona e até descobriu algumas curiosidades pessoais. “ Tinha família daqui, vim a descobrir mais tarde. A minha trisavó, Mariana Lobo da Gama, ensinava a ler e escrever português de graça, foi obrigada a pagar quarto mil reais de multa em 1880 e, a certa altura, vendeu o que tinha e foi para Elvas onde casou com o meu trisavô”, conta a meio de muitas outras histórias. Em quase trinta anos, o professor já foi declarado persona non grata na terra, mas independentemente do passado, o seu trabalho de divulgação e de luta pelo não esquecimento está bem presente, quer se concorde, ou não, com o seu ponto de vista, na memória coletiva dos oliventinos.

Se o professor escolhe uma abordagem académica, o oliventino Jose Antonio González Carrillo, 41 anos, faz apologia das suas raízes através da fotografia. Tem seis livros publicado sobre a dupla cultura com que cresceu: um deles, chama-se simplesmente “Saudade”.

Publicitário, trabalha em Badajoz [a pouco mais de 20 quilómetros] mas reside em Olicença. “Sou um daqueles oliventinos que não teve oportunidade de aprender português em criança”. “O meu pai falava português padrão, e só começou a falar abertamente português quando eu tinha 18 anos. Íamos numa viagem de carro e até fiquei surpreendido, foi quando tive noção de que se passava alguma coisa estranha em Olivença.  Julgo que a abertura da democracia em Espanha e Portugal foi importante para, hoje em dia, podermos dar espaço às nossas culturas”. Culturas mesmo assim, no plural. “Para nós, oliventinos, há uma consciência de futuro em português. Os oliventinos têm saudade no seu coração. O processo de aculturização no franquismo foi muito intenso e foi um retrocesso para a nossa cultura, mas a saudade ficou sempre e agora vamos reverter o processo.”

Jose tem um papel ativo neste caminho. “Tento fazer o meu trabalho para que não se esqueçam as raízes de Olivença de uma forma editorial, gosto de contar a história através de imagens”.  Para o artista plástico, ser português e espanhol é um privilégio, e é algo com que os oliventinos nascem. “Como se escolhe entre o pai e a mãe?”. Para Jose, não se escolhe. Aceita-se.