Internacional

Dilma promete voltar

O Partidos dos Trabalhadores do Brasil (PT) ainda tentou defender a tese de que a ordem emitida pelo Supremo Tribunal Federal na quinta-feira, que suspendeu Eduardo Cunha das funções de presidente da Câmara de Deputados, prova que o homem que Dilma Rousseff chama de «líder do golpe» abusou do poder ao utilizar o processo de impeachment «em benefício próprio, quando ameaçou a Presidente da República de que ele abriria o processo se o PT não desse os votos para salvá-lo no Conselho de Ética».


Mas as palavras de José Eduardo Cardozo, o advogado-geral da União que defende Dilma no processo que esta enfrenta no Senado, não impediram que ontem a comissão de impeachment tenha aprovado – com 15 votos a favor e apenas cinco contra, mais a abstenção do presidente da comissão – o parecer do relator Antonio Anastasia, que dera como provada a «irresponsabilidade» da Presidente na execução da política fiscal. Fica então agendada para quarta-feira a votação decisiva no plenário do Senado, onde uma maioria de 41 senadores bastará para suspender de imediato a chefe de Estado do país.

E Dilma mostra-se ciente do resultado provável dessa votação, antecipado em inquéritos feitos pelos principais jornais do país. Rejeitando a hipótese de abdicar voluntariamente do cargo, a ainda Presidente prometeu em entrevista à BBC «resistir, resistir e resistir. Lutar para ganhar o julgamento no mérito e retornar ao Governo». 

Um discurso que bate certo com as previsões da Folha de São Paulo. Das entrevistas feitas aos senadores, o jornal concluiu que o impeachment será aprovado, na quarta-feira, por um mínimo de 51 senadores. Um número suficiente para dar seguimento ao processo mas que não chegaria para derrubar definitivamente a chefe de Estado na votação final do julgamento, onde será necessária uma maioria de dois terços – ou seja, pelo menos 54 votos.

Além disso, apenas 42 senadores garantiram que votarão pela destituição de Dilma na votação final, pois uma coisa é aprovar a continuidade do processo e outra é comprovar a culpabilidade da Presidente, que é acusada de ter reforçado orçamentos de Estado sem autorização do Congresso e recorrendo a créditos em bancos públicos – uma estratégia conhecida como «pedalada fiscal».

Dilma ao ataque

Na entrevista à BBC, Dilma defendeu que o «sistema de presidencialismo de coligação», que a levou a «precisar de 13 partidos, às vezes 14» para ter legislação aprovada, «não suporta crises», porque em tempos de crise «buscam-se soluções rápidas». E voltou a comparar este processo de destituição aos golpes militares que caracterizavam o país na sua juventude: defendendo que se trata de uma tendência na «América Latina e não só no Brasil», a presidente diz que o «golpe parlamentar, na prática, é feito por aqueles que não têm votos suficientes» para vencer nas urnas. «Na verdade o impeachment é um disfarce para uma eleição indireta, em que o parlamento passa a indicar o Presidente, e não o voto direto e secreto nas urnas».

Sob investigação, com Lula

A semana ficou ainda marcada por desenvolvimentos na investigação Lava Jato – além de Eduardo Cunha, suspenso por ter obstruído a investigação através do cargo de presidente da Câmara, a Procuradoria-Geral da República pediu ao Supremo a abertura de um inquérito a Dilma e ao seu antecessor, Lula da Silva. 

O pedido contra a Presidente foi justificado com o depoimento do delator Delcídio Amaral, que acusou Dilma de ter planeado a libertação de Marcelo Odebrecht – filho do líder da construtora envolvida no escândalo –, e também pela tentativa de nomear Lula para chefe da Casa Civil após as buscas realizadas na residência do ex-presidente. «Não será por conta dessa investigação que não voltarei à presidência. Podem investigar porque tenho a certeza que sou inocente», disse a Presidente do Brasil a poucos dias de ser destituída do cargo, ainda que de forma provisória.