Cultura

Paulo Varela Gomes (1952-2016)

Viu a morte chegar, levando o seu tempo, revelando-se-lhe toda. Depois de lhe ser diagnosticado há quatro anos um cancro numa fase quase terminal, Paulo Varela Gomes trabalhou num último acto que tornasse o adeus tão sentido para os que ficassem quanto para ele, que se despedia. O historiador de arte e arquitetura, que se tinha já exilado numa casa longe do mundo, em Podentes, no concelho de Penela, reformou-se, pondo fim a uma notável carreira académica, com vasta obra de investigação publicada. Vendo ameaçada a sua luz, voltou-se inteiramente para aquela vocação que sempre estivera latente em todo o seu percurso, a da literatura. Como notou o crítico literário e um amigo de longa data António Guerreiro no texto assinado no Público, traçando as linhas mestras do pensamento e obra PVG, «a escrita literária foi para ele uma ação salvífica e testamentária, a que se entregou em estado de urgência».

Morrer é mais difícil do que parece, o poderoso testemunho que publicou em maio de 2015 na versão portuguesa da revista Granta falando da sua experiência enquanto doente terminal, alcançou uma vastíssima repercussão no espaço público. Neste texto, PVG descreve de forma pungente a grande convulsão que a doença lhe causou. Não se poupando, nem ao leitor, aos aspetos mais dolorosos e angustiantes, fez um relato de grande crueza em que repassa os momentos em que tocou o mais fundo do desespero, tendo chegado a pegar numa pistola para pôr fim à vida. 

«Experimentei por vezes os movimentos da dramatização da minha morte, uma espécie de novela sem invenção e sem vida cujo maior óbice era o de saber se, na altura definitiva, teria a certeza absoluta de não haver outra solução. Conseguiria deitar fora como se fossem trocos sem valor os restos de vida que continuam a cintilar dentro de mim? E se me enganasse? Se não fossem meros desperdícios? Se valessem mais do que a escuridão silenciosa do túmulo onde vou apodrecer?».

Nos últimos quatro anos, além de uma brilhante e representativa reunião das crónicas, em Ouro e Cinza, publicou quatro romances, todos editados pela Tinta-da-China, que marcaram uma das mais impetuosas entradas em cena no terreno da literatura portuguesa, valendo-lhe elogios rasgados por parte da crítica, e o prémio PEN Clube em 2015, atribuído a Hotel, publicado no ano anterior. O primeiro romance foi O Verão de 2012, uma narrativa perpassada por uma evidente carga autobiográfica, e nascida da revelação de que tinha um cancro e lhe restava pouco tempo de vida. Passos Perdidos, publicado em fevereiro deste ano, foi o último livro. Nele, era evidente o exemplo e a influência dos romances de W.G. Sebald e PVG não escondeu a enorme admiração pelo escritor alemão: «Sebald foi, penso eu, o mais importante escritor do mundo da segunda metade do século XX. A minha admiração por ele não tem limites».
Isto foi dito numa entrevista por email ao jornal i em finais de fevereiro, tendo o escritor revelado como passava os seus últimos dias: «Quando não estou excessivamente doente, escrevo, deitado na cama, frente à janela, à mata e à vinha lá fora, todos os dias, das 10 da manhã às 5 ou 6 da tarde».

Explicando a epígrafe que abre o seu último romance – «Este livro foi escrito quando o autor ainda não era cristão» –, PVG contou como aconteceu a sua conversão ao cristianismo: «Fui batizado quando era criança e as minhas estadas na Índia [enquanto delegado da Fundação Oriente por duas vezes, de 1996 a 1998 e de 2007 a 2009], onde mantive um contacto estreito com os católicos indianos e a Igreja indiana, fizeram-me recordar o batismo e a doutrina. O ano passado (2015), um sacerdote católico interessou-se pelos meus livros e achou que se anunciava ali a presença de Cristo. Quando este sacerdote veio ter comigo, passámos várias semanas a encontrar-nos regularmente. Até que senti que era cristão, converti-me ao catolicismo e casei pela Igreja. Nesta altura já estava praticamente escrito Passos Perdidos». 

Nascido em 1952, filho do coronel João Varela Gomes, um militar que esteve ligado ao golpe de Beja, em 1961, e que se destacaria durante o PREC pelo seu papel da 5.ª Divisão do MFA, PVG fez o curso de História na Faculdade de Letras de Lisboa, licenciando-se em 1978. Tanto nos anos de estudante universitário como no início da carreira de professor no ensino secundário, manteve uma participação na vida política. Primeiro enquanto militante da UEC – União dos Estudantes Comunistas –, e na década de 1990, ao lado de Miguel Portas, fundou o movimento Política XXI, um dos três grupos que estariam na génese do Bloco de Esquerda.

Antes de se reformar, em 2012, era investigador no CES – Centro de Estudos Sociais e docente do programa de doutoramento Patrimónios da Influência Portuguesa. Realizou duas séries documentais para a RTP, O Mundo de Cá — sobre as civilizações que os portugueses encontraram quando chegaram à Índia e a Ceilão — e Malta Portuguesa — sobre as relações ocultas entre Portugal e Malta e a evolução da fronteira ocidente-oriente desde as cruzadas até à atualidade. Casado, pai de dois filhos e avô de duas netas e de um neto, PVG morreu no passado sábado em casa.