Internacional

Sem luz ao fundo do túnel, Maduro não desiste

Entre a espécie de lua-de-mel que se vive entre Estados Unidos e Cuba e a perspetiva de ver derrubado o governo do maior país da América do Sul, o agudizar da crise venezuelana passa entre os pingos da chuva. O que até nem seria uma má notícia para Nicolás Maduro, o homem que tem feito de tudo para se agarrar ao poder depois de a oposição ter alcançado uma maioria de dois terços no parlamento, não fosse o sentido literal da expressão: a chuva, ou a falta dela, pode dar a machadada final num regime que tendo as maiores reservas de petróleo do mundo não consegue fugir aos piores índices económicos da atualidade.

A seca que praticamente deixou sem reservas a barragem de Guri – responsável pela produção de quase 70% da eletricidade consumida no país – não será da responsabilidade do regime socialista. O mesmo já não pode ser dito das medidas que vão sendo anunciadas pelo Executivo para minimizar os danos.

«As mulheres devem evitar os secadores de cabelo para poupar luz, as senhoras ficam mais bonitas quando se penteiam com os dedos, de forma natural», defendeu o próprio Presidente, que já limitou a semana laboral da função pública a apenas terças e quartas-feiras – «pelo menos nas próximas duas semanas», disse o herdeiro de Hugo Chávez, anunciando também cortes diários de quatro horas no abastecimento de eletricidade nas principais cidades e uma mudança de 30 minutos no fuso horário, sob o pretexto de se economizar energia com mais meia hora de luz solar ao final da tarde.

Medidas que agravam ainda mais a situação de uma população que há mais de um ano se vê forçada a encarar filas de várias horas para comprar bens básicos – e encarecidos por uma inflação que o FMI diz já ter atingido os 720%. E mais duras se tornam quando a realidade não corresponde aos anúncios: na terça-feira passada, quando o apagão de quatro horas já ia em 12, a população de Zulia mostrou a sua indignação.

Violência e ameaças

Às imagens de lojas pilhadas – que se repetem um pouco por todos os centros urbanos do país – juntaram-se cenas mais violentas, como o incendiar de um autocarro ou os ataques à sede regional da energética estatal e às instalações municipais da cidade de Jesús Enrique Lossada. Se a Venezuela já era o segundo país mais perigoso do mundo, o atual momento faz-se de notícias como a da morte, com um tiro na cabeça, de um dirigente do Novo Tempo, um dos 18 partidos da oposição que em dezembro se juntaram numa aliança que ditou a primeira derrota eleitoral do regime em 17 anos.

Mas Maduro nem renuncia à luta nem ao populismo. Faz ameaças como Presidente e como futuro líder da oposição – «se a oligarquia algum dia fizer algo contra mim e chegar a este palácio por uma via ou por outra, ordeno-vos a declararem uma rebelião e a decretar uma greve geral indefinida até à obtenção da vitória», disse no discurso de 1.º de maio, em que também apelou aos apoiantes para «ocuparem» as empresas privadas que suspenderam a produção face à escassez de energia.

Cenário que não o impediu de aumentar em 30% o salário mínimo da função pública e entre pensionistas. Venezuelanos que passarão a receber 15.051 bolívares, o que equivale a cerca de 1.500 dólares no câmbio oficial mas apenas a 14 unidades da moeda norte-americana no mercado negro – que é aquele a que os venezuelanos têm acesso com a política de controlo de capitais. «O problema aqui é que os salários sobem de escada e a inflação de elevador», reagiu Víctor Álvarez, que até foi ministro da Energia durante o reinado de Chávez. Na oposição as reações não são melhores: «Todos os aumentos anunciados por este senhor são uma burla», disse Henrique Capriles, o governador do Estado de Miranda que foi derrotado por Maduro nas presidenciais de 2013.

Capriles é um dos principais rostos da maioria qualificada da Mesa de Unidade Democrática (MUD), que tem visto todas as instituições do país cumprirem o prometido por Maduro – a revogação de todas as suas medidas, incluindo a lei que amnistiaria 73 presos políticos.

Em rara exceção, o Conselho Nacional Eleitoral (CNE) autorizou a recolha de assinaturas para um referendo que pretende encurtar o mandato de Maduro. A oposição tinha 30 dias para recolher as assinaturas de 1% do eleitorado (195 mil de 19,5 milhões) mas em dois dias recolheu mais de 2,5 milhões, segundo Capriles. Porém o CNE logo apareceu a esclarecer que «se deve cumprir o prazo de 30 dias para passar à fase de constatação», que obrigará os opositores a juntar quatro milhões de assinaturas para convocar o referendo.

Capriles explica as intenções do que diz ser, à semelhança do Tribunal Constitucional que revogou a lei da amnistia, mais um órgão estatal ao serviço do PSUV: «É evitar que o referendo se faça este ano», pois se for em 2017 – ou seja, a dois anos do final do mandato – e a votação ditar a queda do Presidente, este será substituído pelo vice até novas eleições em 2019. Se o referendo ditar o seu afastamento em 2016 terão de ser convocadas eleições de imediato.

«Queremos a via constitucional, que o povo decida», disse o governador. Tendo em conta o sucesso na recolha de assinaturas pode estar aqui uma pequena luz ao fim do túnel da transição democrática.