Internacional

Fúria inglesa no cais dos belgas

O Inglaterra-Rússia de Marselha jogou-se em duas “mãos” - primeiro, por entre “gendarmes”, pedras de calçada e pancadaria avulso nas ruas do “Vieux Port”; depois no Velódromo (1-1, com um golo lindo, lindo do ex-Sporting, Eric Dier, e empate russo nos descontos!). Numa e noutra a vantagem foi suficientemente britânica, mas não chegou

O jogo começou de véspera. Há quem diga que a simples presença em força da polícia de força irritou os adeptos ingleses. Em momentos como este há sempre quem diga muito. Muita gente a dizer muito. Pelo rondar do meio-dia de sábado já a “Gendarmerie de Marseille” se vira obrigada a soltar um comunicado: “Aucun incident grave ne soit intervenu”. Bem, toda a gravidade (até a de Newton) é muito relativa, e não é necessário ser nenhum Einstein para ter a certeza disso. Nesta falta de gravidade para os franceses houve seis britânicos detidos, o que para eles deve ter sido grave. Também houve feridos, entre russos e franceses (aqui tão neutrais como suíços), o que não deixa, a meu ver de puro observador, de ser um bocadito grave.

O incidente, e a sua muita, pouca ou nenhuma gravidade, durou pela tarde fora: doze horas, pelo menos, pois à meia-noite de dia 11 houve relatos de utilização de gás lacrimogéneo por parte da polícia francesa que, entretanto, dera conta da presença de umas centenas largas de ultras parisienses que se intitulam “Boulogne Boys” (não sei se, tal como no bosque do mesmo nome, há uma maioria de travestis) vindos propositadamente da capital para fazerem parelha com os russos. Uso o termo parelha também propositadamente, pois encaixa à maravilha quando se fala de bestas. 25 mil ingleses e 12 mil russos. A diferença é acentuada mas não visível a olho nu, tanto tronco nu se espalha pelo Quai de Rive Neuve, pela grande praça do Quai des Belges (logo vi que havia um belga metido nisto) e pela Rua de Bir-Hakeim (nada de suspeitar de mão maçónica em todo este movimento). Volta e meia voa uma garrafa e não restam dúvidas que os ingleses são mais decididos no lançamento tanto de vidros como de pedras, tal como são mais afinados no momento de cantarem “Britannia rules the waves!” A cerveja corre a rodos como o vinho da velha Massília em orgias romanas na antiquíssima Provença dos fócidos de antanho, aqui chegados à força de remo e da disposição do vento. Do lado russo não se canta. Nem “Kalinka” nem “Otchi Chornie”, embora aviste ao longe um par de olhos negros capazes de provarem à saciedade que um homem renasce de cada vez que a ternura feminina quer.

Ao longe, a carapaça branca do Velódromo de Marselha – bem diferente daquilo que era quando o vi pela primeira vez! – parece uma “casquette”, aqueles chapéus largos, em concha, dos colonos francesessição do ventochegados ˋsaa«ho de de cantarem «Britain espalha pela houve feridos que se espalhavam de  Timbuktu à Indochina numa febre de funcionarismo público que haveria de provocar, hoje, greves aos pontapés, tal como estão a acontecer um pouco por toda a França, agora que o Campeonato da Europa traz à consciência da imprensa estrangeira a verdade incómoda da intimidade nacional. Cá por mim, faço greve às greves. Distraio-me do discurso monótono do “mostachu” Paul Ramadier, presidente da CTG, e debruço-me sobre o relvado cuidado e bonito deste estádio onde Portugal sofreu, em 1984, a mais vitoriosa das suas tristes derrotas, na meia-final dessoutro Europeu de França, trinta e dois anos antes deste.

Candidato de segunda e candidato a nada

Roy Hodgson pode ter sido um dos mentores de Eriksson aquando da sua passagem pelo futebol sueco, mas não foi do seu trabalho que o antigo treinador do Benfica bebeu o estilo ofensivo que o marcou, “that’s for sure”. E, no entanto, numa fase clara de renegação do seu passado de treinador mais género “abana pinheiros”, de futebol muito firme num 4.4.2 sem elasticidade, sempre preso ao resultado do jogo, bem mais do que ao prazer do espectador pagante, e por isso exigente, o atual selecionador inglês saiu-se das suas tamanquinhas e tratou de dar a esta Inglaterra um estilo mais continental, ponhamos as coisas nestes termos, o que, para usar a expressão bem francesa, benza-a deus, lhe aportou um toque especial de “charme”, embora menos elétrico e entusiasmante do que no tempo do “kick and rush”. Ainda não chega…

A primeira manifestação inglesa da noite veio do Matmut Atlantique, de Bordéus, onde o País de Gales bateu a Eslováquia (2-1) e pudemos ver, via TV, a sua forma de comemorar golos, junto às bandeirolas de canto, em jeito de “melée”. Aplausos de circunstância, está bem de imaginar, que neste mundo de britânicos só há uma rainha, e de Gales só príncipes, geralmente mal vestidos. “Rassia! Rassia! Rassia!”, gritava-se do outro lado, em cirílico.

Depois, de repente, voltei 20 anos atrás no tempo enquanto, afinados, os adeptos de branco balançavam ao som dos “Lightning Seeds” e do hino do Euro de 1996: “Three Lions on a Shirt”. Foi mesmo para isto que vim a Marselha. Para ouvir os cânticos mais extraordinários do Mundo futebol quando os donos das gargantas roucas de cerveja se entretêm com o rolar de uma bola e esquecem garrafas e pedras. Jekyll e Mr. Hyde mas só em redor do relvado. Sobre ele uma Inglaterra defensivamente impecável até depois dos 90 minutos! Um ponta esquerda a correr como um Mercúrio negro de asas nos pés (Sterling), um gorducho habilidoso à procura de espaços (Rooney), um ponta-de-lança largueirão (Kane) a pôr a cabeça em água aos centrais Ignashevich e Vasili Berezutski. Assim se ia passando o tempo. Pesadão, o “urso russo” deixava-se ficar. Os “leões da rainha” estavam tão confortáveis na savana que arranjaram que pareciam quedar-se sem pressas: à noite logo se vê… “Football is coming home?” Sim, OK, tudo bem, mas é preciso chamá-lo com gentileza, a gentileza típica de um… “gentleman”, assim muito arrumadinho (Dier, que exemplo de arrumação!), muito aprumadinho, mas pouco dado ao robustíssimo talento do qual falava o Alencar d’”Os Maias”.

Verdade seja dita: defrontavam-se um candidato de segunda e um candidato a coisa nenhuma - ainda por cima organiza um Mundial daqui a dois anos, de São Petersburgo a Vladivostok, com Urais e Sibéria pelo meio, o que é quase como ir do Minho a Timor, mais milha, menos milha, em versão terrestre ou marítima. Na segunda parte, com mais riscos corridos pelos russos, os acontecimentos ganharam atracç valer um empate e o – a defesa de Akinfeev ao remate de Rooney que levou a bola à trave foi formidável! O golo do ex-sportinguista Eric Dier (73 minutos) digno de aplausos em pé! No final, deu no que deu. Ironicamente faltou revolta à Rússia, mas sobrou a cabeça do “capitão”. Mais equilibrado do que o confronto da véspera, no Cais dos Belgas e arredores, suficientemente equilibrado para valer um empate inesperado dado o adiantado da hora. “30 years of hurt”, cantavam os tão desatualizados quanto afinados ingleses; “never stop me of dreaming!” Acho bem: não se impeçam de sonhar. Mas mantenham os pés no chão ou cairão de um lugar mais alto do que as brancas rochas de Dover….  Quanto aos russos, depois do jogo acabado voltaram a cenas de pancadaria. Desta vez da polícia sobre adeptos com engenhos pirotécnicos. Triste uso da vodca, esse…