Economia

Fecho de agências e rescisões sobe fatura da Caixa

Custos com reestruturação do banco podem atingir mil milhões de euros. Nova administração entra em julho, com fecho de balcões e redução de pessoal na mira.

A reestruturação da Caixa Geral de Depósitos (CGD) implica um plano alargado de fecho de balcões, de pré-reformas e de rescisões amigáveis que vai fazer disparar o custo total da recapitalização. Ao que o SOL apurou, a fatura com estas despesas de reestruturação pode ascender a mil milhões de euros, o que explica os cinco mil milhões de euros totais que a operação deverá implicar.

Com a entrada em funções da nova administração prevista para julho, depois das autorizações das entidades reguladoras nacionais e europeias, o plano de redução já em curso vai ser alargado.

Depois de ter recebido ajudas públicas em 2012, a CGD iniciou um processo de reformas antecipadas e de não substituição dos funcionários aposentados que reduziu o número de pessoal. O banco passou de 9.401 funcionários em Portugal naquele ano para 8.410 no final de 2015: menos mil trabalhadores.

Custos provisionados

Mas, para que uma nova recapitalização seja aceite por Bruxelas, a dimensão do banco terá de ser reduzida e os custos com pessoal terão necessariamente de diminuir. E uma das condições que o novo presidente pôs em cima da mesa foi uma provisão adequada dos custos de reestruturação.

António Domingues, antigo administrador financeiro do BPI, utilizou programas de reformas antecipadas para reduzir custos do banco dirigido por Fernando Ulrich. No BPI, estes programas custavam entre 150 mil e 180 mil euros por cada reforma antecipada, segundo os valores anunciados na altura.

Mas a estrutura da Caixa é mais pesada, tal como a senioridade. Replicando na Caixa os valores praticados no BPI, as 2.500 saídas de trabalhadores previstas na CGD até 2020 poderiam custar até 450 milhões de euros, mas os gastos no banco público deverão ser maiores devido ao peso da estrutura e à intenção de pagar acima dos valores de tabela, para que as saídas sejam mais atrativas.

No programa de reformas antecipadas já em curso na CGD - foi uma das imposições da Direção Geral da Concorrência europeia no último plano de capitalização -, o banco gasta mais de 200 mil euros por trabalhador. Em 2015, saíram 311 pessoas por pré-reforma e o banco gastou 65 milhões de euros.

Na semana passada, numa conferência de imprensa para apresentar o plano de recapitalização do banco, o ministro das Finanças não pormenorizou os montantes da recapitalização da CGD, mas confirmou que haverá uma redução do número de agências depois de uma “análise criteriosa” da rede do banco.

A nível de recursos humanos, explicou Centeno, a diminuição de pessoal até 2020 será feita através de um “plano alargado” de pré-reformas, que o ministro não quantificou. Centeno justificou que os pormenores estão ainda a ser desenhados em articulação com a Comissão Europeia.

Segundo avançou a Antena 1, a recapitalização da CGD poderá chegar a cinco mil milhões de euros - acima dos quatro mil milhões de que se falava até agora.

O montante de recapitalização serve em primeiro lugar para que o banco pague os 900 milhões de euros da ajudas públicas recebidos em 2012 e que nunca foram reembolsadas.

Há depois uma parcela para aumentar a almofada financeira da Caixa de acordo com as exigências regulatórias europeias.   Soma-se ainda um montante específico para registar novas imparidades - créditos que podem não ser reembolsados pelos clientes e que podem ser superiores aos 2,3 mil milhões de euros, identificados numa auditoria interna no ano passado.

Fecho de balcões

O banco público tem perto de 71 mil milhões de euros em crédito e 11,5% desse montante está classificado como crédito em risco - mais de oito mil milhões de euros.

No plano de recapitalização, há ainda uma fatia para financiar a reestruturação da rede da Caixa e as saídas do grupo. Não estão previstos despedimentos, mas as rescisões amigáveis e as pré-reformas poderão ter de fazer com que 2.500 trabalhadores da Caixa deixem o grupo nos próximos anos. Poderão encerrar 300 balcões, a grande maioria fora do país.

Na conferência de imprensa, Centeno não confirmou nem desmentiu qualquer número, admitindo apenas que a Caixa vai passar por um redimensionamento da presença internacional, que deverá “privilegiar o desenvolvimento em África, e em particular nos países de língua portuguesa”. Mas recusou quantificar estes encargos, justificando-se novamente com negociações em Bruxelas. 

O ministro frisou a necessidade de garantir que as negociações com a Comissão Europeia decorram num ambiente de “tranquilidade”. “Do sucesso desse diálogo resultará a classificação deste processo de capitalização, quaisquer que sejam os montantes em causa, como uma operação de investimento ou não”, esclarece. E daí considerar que o tema “merece a reserva de informação”.

O governante explicou que, no horizonte de cinco anos do plano de reestruturação, o banco público deverá assegurar um retorno do capital adequado do capital injetado pelo Estado. Ou seja, até 2020 a Caixa tem de voltar a dar lucro e permitir que o investimento público seja recuperado. Isso implica reduzir custos e aumentar o produto bancário. Segundo Centeno, as necessidades de capital estão ainda a ser discutidas, num “debate profícuo” com as autoridades europeias.

O ministro das Finanças referiu ainda que os nomes da nova administração da CGD serão propostos “nos próximos dias” às entidades reguladoras e que a nova equipa entrará em funções em julho, depois da aprovação das entidades reguladoras.

Quanto ao impacto nas contas públicas, Centeno também não se alongou. Explicou apenas que eventuais efeitos no défice ou na dívida dependerão da forma como “decorrer a qualificação” da injeção de capital pela Comissão Europeia.